Autor

Paulo

 

Data

3 de Setembro de 2026

 

Secção

O Desafio dos Enigmas [259]

 

Competição

Torneio “Solução à Vista!” – 2026

Problema nº 9

 

Publicação

Audiência GP Grande Porto

 

 

UM CRIME EM SOUTO DAS ALMAS

Paulo

 

Um cão uivou, em Souto das Almas Boas, e chamou a atenção para o corpo oculto nos arbustos levemente afastados da estrada. Um pastor deu o alerta.

Foi num dos outonos que avisam já o inverno, ventoso, que adveio o crime.

A investigação mostrou que a morte se devera a uma forte pancada na cabeça, seguida de asfixia, com o assassino a aproveitar, talvez, a perda de sentidos da vítima. Mãos fortes tinham apertado a garganta e impedido o ar de circular. Depois o corpo fora arrastado, com os calcanhares a deixarem marca no percurso, incluindo a perda de um sapato.

A vítima era Luís Cansado, vendedor de automóveis em estabelecimentos de venda na sede do concelho e na capital de distrito. Distribuía a semana entre os dois locais.

A sua casa ficava a pouco mais de 50 metros do local onde o corpo fora encontrado. Vivia com a esposa, Matilde Cansado, que se encontrava com dificuldades de mobilidade devido a um tornozelo partido, deslocando-se com a ajuda de duas muletas.

Luís e Matilde viviam um casamento cansado. Cada um traía o parceiro, numa relação de reciprocidade conhecida dos dois, e que, acreditava-se, brevemente acabaria em divórcio. Sabia-se que apenas a gestão das dívidas do casal dificultava a separação.

Não foi difícil saber que Luís estivera em casa de Rosa, solteira, com quem mantinha uma relação havia algum tempo. Saíra de casa dela por volta das 22 horas, dirigindo-se para a sua. Rosa disse que tinham jantado depois das vinte, assumindo o relacionamento. Afirmara que o divórcio de Luís estaria próximo. Depois passariam a viver juntos. A análise do seu telemóvel mostrou que o aparelho não saíra de casa dela.

O estudo do conteúdo estomacal, confrontado com as informações de Rosa, colocava o falecimento cerca de duas horas depois da refeição.

O corpo estava num terreno perto das traseiras da casa da vítima. O carro, fechado, estava junto à moradia.

Matilde dizia que lhe pareceu ter ouvido o carro chegar, mas o vento soprava tão forte que não teve a certeza. Luís não chegara a casa, durante a noite, mas ela já não estranhava. Acontecia muitas vezes e até sabia onde ele ficava. Naquele dia ele trabalhara na sede do concelho e por isso ela já sabia que ele não viria ou que então chegaria muito tarde.

Foi constatado que as suas dificuldades de locomoção eram evidentes, o que se notava na desarrumação que existia na casa. Disse que tinha uma irmã que lá ia uma vez por semana a ajudá-la, mas a última vez que lá fora tinha ocorrido cinco dias antes da morte.

João Peliz surpreendeu-se quando a polícia o questionou. As vozes de notícias da aldeia sabiam que ele, apesar de casado e com filhos, era amante de Matilde. Por isso foi interrogado no local de trabalho, pois se ficasse ilibado, evitavam-lhe os problemas familiares. Não reconheceu nenhum relacionamento com Matilde, nem esta com João, e disse que na véspera tinha saído da fábrica diretamente para casa, onde chegara antes do jantar. A mulher e os filhos, dois adolescentes, podiam assegurar que ele não saíra. Tinham estado a ver televisão até às onze da noite.

Foi necessário interrogar a esposa de João. Iva confirmou que ele tinha chegado a casa antes das oito e não voltara a sair. Quis saber porque estava a polícia interessada no marido, mas ficou pelas perguntas que não obtiveram resposta. Na fábrica soube-se que João saíra às cinco horas para um percurso que demorava cerca de 15 minutos até casa, onde chegara 3 horas depois.

A análise dos movimentos de João a partir do seu telemóvel indicava que ele estivera na zona da casa de Matilde entre as cinco e um quatro e as sete e vinte. Depois o telemóvel ficara situado na zona da sua própria habitação. A residência de João ficava numa aldeia vizinha daquela onde morava a família Cansado.

Carlos também foi interrogado. Era o vizinho mais próximo de Luís e Matilde Cansado. A casa dele não distaria mais de cinquenta metros. Raramente era visto na rua, designadamente quando as temperaturas eram mais baixas. Foi ouvido, ainda na manhã em que o corpo fora descoberto, antes de este ser levado para autópsia.

Afirmou que sabia, como toda a gente, que Luís e Rosa eram amantes. Carlos aguardava há muito que Luís lhe pagasse uma dívida. Trinta mil euros, afirmara. Dissera que sabia haver mais gente que lhe emprestara dinheiro e por isso não se admirava se tivesse sido algum dos credores que o abafara. Não ouvira nada de estranho, a não ser o vento forte durante toda a noite. De manhã, não saíra de casa até a GNR chegar. Levantara-se ainda cedo, mas espreitara pela janela e a geada fizera-o voltar para cama.

As autoridades não conheciam nenhum emprego a Carlos, mas toda a gente sabia que vivia dos rendimentos do dinheiro que acumulara como emigrante na Suíça.

A arma do crime foi encontrada perto do local onde o ataque se dera, junto do carro estacionado. Era uma barra metálica, oxidada, que fazia parte de algum lixo, proveniente de uma vedação de um muro. Não foram encontradas impressões digitais na barra.

Outros vizinhos nada tinham ouvido, mas também estavam mais afastados do local e o vento que nunca parara não permitira distinguir os ruídos da rua.

Em função da informação que está no texto, pergunta-se quem é que acha, de entre os intervenientes, que merece ser investigado mais em pormenor, em busca das provas que o possam incriminar por matar Luís.

 

 

© DANIEL FALCÃO