Autor Data 8 de Fevereiro de 2004 Secção Policiário [656] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 5 Publicação Público |
O MISTÉRIO DA VIVENDA COR-DE-ROSA Rip Kirby Domingo, 5 de Outubro de
2003, são 16h30. O inspector Eduardo Trindade, o
seu ajudante sargento Silveira e o agente auxiliar Campos chegam à Vivenda
Cor-de-Rosa situada nos Olivais, assim chamada, obviamente, devido à cor da
tinta com que fora pintada. Haviam sido ali chamados por um telefonema de
André de Freitas, que, segundo dissera, encontrara a mãe morta sentada ao
volante do automóvel no interior da garagem que se encontrava fechada. André de Freitas recebeu-os
junto da portada que fechava o muro que separa da rua o bem tratado jardim em
redor da vivenda. Era um jovem ainda, não teria mais de 28 anos. Enquanto
conduzia os agentes para a garagem foi informando que havia acabado de
chegar, com um casal de amigos, de uma viagem ao Algarve, onde havia passado
duas semanas com eles. Ao chegar, estranhara não
encontrar a mãe, Adélia Mascarenhas, pois ainda na véspera, cerca das 18
horas, lhe havia telefonado informando-a da sua próxima chegada e ela
manifestara alguma satisfação por isso, pois tinha assuntos urgentes a tratar
com ele. Quando abriu a garagem para guardar o carro dele viu que havia
alguém sentado ao volante do carro. Não se apercebeu imediatamente de quem se
tratava, tendo pensado que era o padrasto, visto o carro ser o dele.
Verificou depois que era a mãe e, vendo que ela estava morta, ligou
imediatamente para a polícia. Eduardo Trindade
perguntou-lhe se já tinha informado o padrasto, tendo ele respondido que
sabia que ele havia viajado para o Porto na véspera, mas não sabia onde ele
se encontrava hospedado nem quando voltaria. Também não tinha o número do
telemóvel dele, pois não se davam muito bem. Eduardo Trindade demorou-se
um pouco a observar a garagem. Na parede ao fundo, frente ao portão para o
exterior, sobre o qual existiam umas frestas que proporcionavam uma
deficiente ventilação ao recinto, havia uma porta que dava acesso directamente à habitação. Na garagem encontravam-se dois
carros, um Mercedes de modelo recente e um Volvo um pouco mais antigo. Soube
depois que este último era o carro de Adélia. André não chegara a meter o
dele na garagem. Eduardo Trindade manifestou a sua estranheza a André pelo
facto de o padrasto não ter usado o carro para fazer a viagem ao Porto. André
informou-o de que, há cerca de mês e meio, o padrasto tinha deixado de usar o
carro em viagens longas alegando que eram cansativas. Dirigiu-se depois para
o Mercedes, abriu cuidadosamente a porta do lado do condutor e observou o
corpo. Antes, porém, apanhou um pano de camurça amarelo bastante molhado que
se encontrava no chão junto à roda dianteira do lado esquerdo do Mercedes. Era uma senhora com pouco
mais de 50 anos, bonita ainda. Estava recostada como se dormisse. Envergava
um robe de seda cor-de-rosa que se apresentava um pouco descomposto, não
estava maquilhada e tinha alguns rolos na cabeça. Calçava uns chinelos de
quarto da mesma cor do robe. As faces apresentavam-se rosadas e os lábios
eram de um vermelho muito vivo. Depois de feitas estas
observações, Eduardo Trindade virou-se para o sargento Silveira exclamando: – Silveira, venha de lá esse relatório! – Pouca coisa há para dizer
por enquanto – respondeu o sargento –, o depósito está praticamente sem
gasolina, há uma mangueira com uma ponta ligada ao tubo de escape e a outra
ponta presa na porta traseira do carro, que não está completamente fechada. O
motor devia ter parado por falta de combustível há relativamente pouco tempo,
pois ainda se encontra morno. Pouco depois, os técnicos
de dactiloscopia e o médico legista que entretanto haviam chegado
retiravam-se depois de cada um ter feito o seu trabalho. Antes de sair o
médico informou o inspector de que a morte havia
ocorrido depois das 9h30 e antes das 11 horas. O corpo foi levado logo de
seguida e foi então que o sargento Silveira passou uma revista pelo interior
do carro enquanto Carlos Campos, o agente auxiliar, tomava nota do que o
sargento retirava de lá. Do banco de trás do carro
retirou um exemplar do jornal PÚBLICO daquele dia. Do porta-luvas foram
retirados uma carteira com os documentos do carro; uma pequena pistola de
alarme; um recibo de totoloto registado em 2003/10/04 numa agência do Porto
às 17:05:35; um bilhete obliterado para o Alfa das 07h55 de Lisboa para o
Porto no dia 04/10/2003; e um talão de abastecimento de gasolina da área de
serviço de Pombal. A data registada era 05/10/2003 e a hora 07h40. Foi ainda
encontrado um aviso da PSP de Santarém, passado no dia 03/10/2003, às 21
horas, para pagamento de uma multa por estacionamento indevido. Sob o assento do condutor,
o sargento Silveira encontrou um talão da portagem de Alverca datado do dia
presente às 08h45. O valor da taxa era de 16,65 para um veículo classe A. No
banco ao lado do condutor havia algumas manchas que se apurou depois serem
nódoas recentes de leite achocolatado. Após isto, o inspector deu uma volta pela casa,não
encontrando nada de especial, a não ser, sobre a mesa da cozinha, um copo com
restos de leite; uma embalagem de leite com chocolate vazia, com a respectiva palhinha introduzida no orifício; dois pacotes
de cavacas, um encetado e o outro intacto; e um papel onde, pelo aspecto, deveria ter estado embrulhado um bolo de
chocolate. Viam-se também algumas migalhas de bolo de chocolate e de cavacas.
O inspector recomendou ao sargento que levasse tudo
o que estava sobre a mesa e retiraram-se. O agente Campos conduzia, a
seu lado o sargento Silveira ia lendo, de trás para a frente, o exemplar do
PÚBLICO que trouxera da Vivenda Cor-de-Rosa. No banco de trás, recostado, o Inspector Trindade seguia emerso nos seus pensamentos
quando a voz do sargento o sobressaltou ao exclamar: – Inspector!
Então o senhor não foi hoje a Coimbra? Os seus amigos estão lá hoje reunidos
no Ateneu! Eduardo Trindade não
respondeu e o sargento continuou a folhear o jornal até que perguntou para o
agente que conduzia: – Campos, você não é de
Vila Nova de Gaia? – E perante a resposta afirmativa continuou: – Vem aqui uma notícia da sua
terra. E leu: “Gaia já tem um Estádio Jorge Sampaio”. Está aqui na primeira
página do suplemento PÚBLICO Local, mas o corpo da notícia está na página 52. Na terça-feira seguinte,
logo pela manhã, Orlando Mascarenhas, esposo de Adélia, apresenta-se na Judiciária
procurando o Inspector Trindade que lhe havia
deixado um recado para ir falar com ele logo que chegasse, uma vez que não
fora possível contactar com ele antes. Era um gigante com bastante mais de
dois metros de altura, corpulento e de cerca de 39 anos. Às perguntas que o inspector
lhe fez, respondeu: havia ido ao Porto para tratar de alguns assuntos.
Abalara no 1º comboio Alfa de Sábado e no Porto registara-se na pensão onde
ficou hospedado às 11 horas. Pretendeu apresentar o bilhete do comboio, mas
os únicos bilhetes que tinha com ele era o do Alfa em que fizera a viagem na
segunda-feira do Porto para Lisboa e um bilhete para o Intercidades das 17h55
do dia 03/10/2003, de Santarém para Lisboa. Depois de tomar um banho, saíra para almoçar
e encontrar-se com alguns amigos. À noite recolheu-se relativamente cedo,
pois no dia seguinte queria ir a Braga encontrar-se com outro amigo. No domingo saiu cedo, perto
das 05h30. Como previsto, foi a Braga, mas a viagem foi inútil pois não havia
telefonado ao amigo a preveni-lo da visita e por isso não o encontrara.
Regressou ao Porto e à pensão, onde entrou precisamente às 14h30. Todas estas
informações foram confirmadas. Era para ter demorado mais
alguns dias no Norte, mas como fizera algumas tentativas infrutíferas para
contactar a mulher, que nunca atendera o telefone e não tinha telemóvel,
resolvera voltar antes do previsto. Por isso, fechara e liquidara a sua conta
na pensão e foi apanhar o Alfa para Lisboa. Havia chegado na véspera já um
pouco tarde, perto das 20h30, pelo que não procurara imediatamente o Inspector. Também todas estas informações foram
confirmadas e estavam correctas. Não sabia de nada que
pudesse ter levado a esposa a cometer semelhante loucura. Talvez os desgostos
causados pelo filho. Entre as mensagens
guardadas no “voice-mail” do telefone da residência, encontrava-se uma
gravada no domingo às 12h50 de Orlando para a esposa, recomendando-lhe que
não se esquecesse de levar na segunda-feira o Mercedes para a revisão que já
estava marcada. Ainda nesse dia chegaram os
relatórios da autópsia e dos exames dactiloscópicos. No estômago de Adélia
foram encontrados restos de um bolo de chocolate ainda no início da digestão
e vestígios de leite com chocolate. Foram também encontrados abundantes vestígios
de um poderoso sonífero. A morte havia ocorrido enquanto Adélia dormia. Os
exames dactiloscópicos revelaram que no interior do carro existiam impressões
digitais em grande abundância, mas praticamente impossível de as identificar.
No exterior, se não fossem as dedadas de André de Freitas no puxador da porta
do condutor, não haveria nada para examinar. Na embalagem de leite com
chocolate que estava sobre a mesa da cozinha o exame revelou impressões, de
Adélia as mais recentes, de Orlando e outras mais antigas que não foi
possível identificar. No copo havia no rebordo interior uma impressão de um
dedo indicador e no exterior a de um polegar de Orlando. E estes são todos os
elementos que foi possível reunir. Pergunta-se: que teria acontecido?
Acidente? Suicídio? Crime? Dê-nos a sua opinião e
justifique-a pormenorizadamente. |
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© DANIEL FALCÃO |
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