Autor

Autor não identificado

 

Data

25 de Abril de 1957

 

Secção

Quem Foi? [114]

 

Publicação

Mundo de Aventuras [402]

 

 

UMA RECEPÇÃO NO OLIMPO

Autor não identificado

 

Boileau era o secretário, e Chesterton presidia.

O esguio autor dos «Paradoxos de Miss Pond» assentou um murro na mesa e exigiu compostura. Logo, pelo anfiteatro, reinou um silêncio de morte. À mesa chegava apenas o arfar ritmado de certo obscuro inglês que criara. em tempos a figura de «Homer Evans» e sofria de bronquite crónica.

Chesterton deu as boas-vindas aos recém-chegados. Não era todos os dias que entrava pelo Olimpo dentro um tão grande número de personalidades famosas. O Pantheon dos Homens Célebres (e, espe-cialmente, a sua Secção XXXIV, «Autores Policiais e Ofícios Correlativos») sentia-se honrado, muitíssimo honrado. E o pai do Dr. Sanders abria um sorriso amável para os doze neófitos. De todos eles, era David Frome quem mais parecia estranhar o ambiente. A túnica não lhe chegava aos joelhos e o frio pronunciado arrepiava-lhe os pêlos da barba. Já Fortuné du Boisgobey parecia perfeitamente adaptado às peculiaridades do Olimpo. Tirara o «pince-nez», cofiara o bigode grisalho e começara a trautear a «Madelon» com todo o entusiasmo de um combatente da Flandres.

Foi Rex Stout quem respondeu em nome dos novatos. Um velhote imponente, que matara um Deus em Reichenbach, quis ainda cortar-lhe a fala, acusando-o de iconoclasta. Quem estivesse perto, poderia ouvi-lo afirmar que Stout estava enganado, que Sherlock Holmes nunca fora uma mulher. Mas o destempero foi levado à conta de demência senil e a sessão prosseguiu.

«Sir» Peter Dunn falou em nome dos autores ingleses, e Choderlos de Lados exprimiu o prazer com que os escritores policiais franceses recebiam os novos colegas. Por fim, usou da palavra o clássico Donald Anderson Clark, que recordou os velhos tempos em que na Secção XXXIV se viam sempre os mesmos cinco ou seis rostos: Poe, Gaboriau, Simenon e poucos mais. Recordou as figuras saudosas dos que tinham voltado à Terra, segundo as leis da reincarnação, e sugeriu um voto de caloroso aplauso ao fundador da secção, o inolvidável William S. Turnpipe, agora a viver uma segunda existência como couve-flor do Baixo Líbano. Os oradores foram muito aplaudidos, tendo sido descerrado o busto de Freeman Wills Crofts, que tivera de abandonar um novo livro sobre o Inspector Burnley para se dedicar, em comissão de serviço, ao estudo do grego moderno. Maurice Leblanc, com a experiência que lhe conferira «A Máscara de Dimitrios» auxiliava-o na rude tarefa.

Por fim, os recém-chegados, sob a chefia do já citado autor do «Caranguejo Vermelho», dirigiram-se para os aposentos que lhe haviam sido reservados. Serviu-lhes de cicerone L. T. Meade, o que levou Stuart Palmer a declarar que quem não queria ser camareiro não devia escrever o «Diário duma Criado de Quarto».

 

Só posteriormente se verificou que todo este entrecho não passara de um delírio febril que atacara certo habitante de Vila Nova de Algures.

Este facto obrigou os Autores Célebres a debandarem à pressa, quais maratonistas em túnica de noite. O Pantheon foi encerrado, apondo-se-lhe os selos da lei para que nunca mais sirva de assunto a produtores delirantes.

 

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© DANIEL FALCÃO