Autor

Autor não identificado

 

Data

Março de 1982

 

Secção

XYZ-Policiário [16]

 

Competição

I Campeonato Nacional de Problemas Policiários

Problema nº 8

Etapa de Elvas

 

Publicação

XYZ-Magazine [21]

 

 

Solução de:

O CASO DA MORTE DO MAGNATA

Autor não identificado

Solução apresentada por Detective Invisível

1 – Artur Lane – Sobrinho da vítima.

Artur Lane mente ao dizer que deu ao tio uma injecção contra a febre. O Inspector ao verificar o que continha o caixote que estava na casa de banho, encontrou várias coisas, entre elas um bocado de algodão que havia sido embebido em álcool e que continha ainda vestígio de sangue. Prova-se, assim, que realmente foi dada uma injecção, só que não foi contra a febre, pois não existia nem a ampola vazia nem a respectiva caixa. O que realmente foi encontrado foi uma cápsula vazia de noradrenalina de 1,5 mg.

Outra prova de que realmente foi dada uma injecção é o facto de a seringa encontrada na mesa de cabeceira ter sido utilizada.

Prova-se ainda que Artur Lane foi o criminoso devido a ter sido ele a única pessoa a ministrar os medicamentos ao tio naquele dia e, como veremos adiante, a morte de Sir Henry Lane ficou a dever-se a esse facto.

2 – Artur Lane sendo médico era a única pessoa de casa que sabia que um doente que tivesse a necessidade de tomar regularmente Digitóxina, não se lhe podia aplicar Noradrenalina, já que este produto produz um efeito antagónico às necessidades do doente.

Artur Lane deu uma dose exagerada de Digitóxina ao tio. O frasco tinha sido comprado na véspera e quando o Inspector o viu sobre a mesa de cabeceira estava quase vazio… Os frascos existentes no mercado têm 10 c.c. Portanto, Henry Lane tomou de um dia para o outro quase 10 c.c., quando sabemos que a dose de manutenção semanal deve ser de 1 mg. Como no dia anterior o remédio ainda foi ministrado pelo seu médico assistente, ficámos a saber que quase todo o conteúdo do frasco foi-lhe dado pelo sobrinho de uma só vez.

Já agora vamos descrever um dos dois produtos existentes no mercado e cuja substância activa é a Digitóxina. Têm eles os nomes comerciais de Digitalina Mialhe e Digitalina Nativelle. Propriamente com o nome de Digitóxina, existiu um produto da Sandoz (existia em 1975, mas já não em 1978).

 

Digitalina Nativelle

Composição: Princípio activo, puro, cristalizado e invariável da «Digitalis purpúrea».

Indicações: insuficiências cardíacas, especialmente quando o pulso se apresenta rápido e irregular. Insuficiência ventricular direita ou esquerda, crónica ou paroxistica. Lesões valvulares descompensadas (sobretudo as mitrais). Miocardites com taquiarritmia. Astenia cardíaca (doenças infecciosas ou operações).

Perturbações do ritmo. Arritmia completa por fibrilhação auricular, especialmente a dos corações insuficientes e muito rápidos (batendo a mais de 100), nos mitrais, nis velhos, etc. «Flutter» auricular (digitalização intensiva). Pulso alternante. Extra-sistoles traduzindo uma insuficiência cardíaca (sobretudo no início).

Tratamento de manutenção: uma dose semanal variando de 0,2 a 1 mg. ou mais, repartida por 2, 3 ou vários dias consecutivos, ou administrada de uma só vez. Esta dose será fixada por reajustamentos sucessivos durante as primeiras semanas e poderá ser continuada durante meses ou anos, permanecendo o doente sob vigilância mais ou menos espaçada, mas regular.

Apresentação: Frasco com 40 comprimidos a 0,1 mg (1 comprimido=5 gotas). Frasco com 10 c.c. de solução a 1/1000 (50 gotas=1 mg). Caixa com 6 ampolas a 0.2 mg, para injecções I.V. e I.M.

 

Mas continuando:

Sendo uma dose tão grande dada de uma só vez (o que eventualmente também poderia causar a morte), Sir Henry Lane ficou intoxicado. Depois, o sobrinho injectou-lhe em vez da ampola para a gripe, a Noradrenalina 1,5 mg.

Ao ser injectado com noradrenalina, Henry Lane foi condenado à morte, pois em caso de intoxicação de Digitóxina, evitar-se-á rigorosamente qualquer administração de adrenalina, noradrenalina ou sais de cálcio, em virtude destas substâncias sensibilizarem o coração à Digitalina (Digitóxina).

Mesmo que Sir Henry não ficasse intoxicado com a dose «cavalar» da Digitóxina, ou morresse devido a quebra brusca do coração, ele não poderia sobreviver. Isto, porque, como já dissemos, a Noradrenalina actua completamente ao contrário da Digitóxina e, portanto, Sir Henry Lane receberia uma «chicotada» no coração que lhe seria mortal.

Resumindo: enquanto a digitoxina acalma (normaliza o ritmo) a noradrenalina acelera.

A Noradrenalina é uni simpaticomimético e como tal origina:

OrganismoAcção

Coração – Aceleração

Vasos – Constrição e Hipertensão

Brônquios – Dilatação

Vista – Dilatação da pupila. Midriase

© DANIEL FALCÃO