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Autor Autor não identificado Data Outubro-Novembro de 1981 Secção XYZ-Policiário [13] Competição I Campeonato Nacional de
Problemas Policiários Problema nº 10 Etapa de Rio Maior Publicação XYZ-Magazine [17] |
ANTES DO FIM… Autor não identificado Dedicado
a todo o Homem que busca a tranquilidade. –
Sinto-me cansado. Creio que perdi a vontade de viver. Perdi-a quando perdi o
meu último instante de força à procura da própria vida que me fugia… –
Fala como se já não estivesse vivo!… –
Sim, talvez seja isso. Agora não devo ser muito mais que um morto vivo.
Deixei fugir a vida… só me resta encontrar a morte. A
sua voz era baixa, quase interior. Parecia esvair-se numa morbidez tranquila,
consciente, do fim que se aproximava. Falava sem olhar. Sem olhar paro nada.
Perdia-se apenas no espaço vazio… entre as linhas retorcidas da via férrea e a serenidade da tarde, envolta na palidez do
sol, que sangrava cada vez mais… –
Então porque confia em mim?… –
Nem eu sei… Eu, que só na solidão encontrava conforto… Mas hoje, assaltou-me
um terrível pressentimento e precisava desesperadamente de falar com alguém.
Sabe, é verdade que eu não tenho ninguém… Sim, é verdade. Nunca tive ninguém.
Mas também isso cedo deixou de ter importância. E não é dinheiro. Como
poderia ser? Não é ele que controla a alegria de um momento feliz. Um
gesto elucidativo descreveu um arco sem continuidade. –
Sinto-me cansado. Sim. Cansei-me ao longo de todos estes anos… anos de ter de
entrar na multidão. Aprendi a receá-la e a desprezá-la. Cansei-me de ver
nela, em cada dia que passava, máscaras mesquinhas, risonhas de hipocrisia…
de indiferença à dor inacabada. Na
mente concentrada, parecia procurar as palavras para exprimir melhor o que
sentia. –
Não posso manter mais no esquecimento aqueles que choram ignorados, num canto
escuro. Seria juntar-me à multidão. Abafar o que eles abafam. Mas também nada
posso fazer do outro lado. Mostrar o sorriso de uma criança à luz das trevas…
Desisto. Não voltarei a olhar para trás, mas nunca mais seguirei em frente. Dizia
chamar-se Sheldon. Nunca o vira. Sentara-me ali num
intervalo de um tempo morto, esperando apenas um comboio que tardava em
chegar. Era um banco sujo e negro, encaixado numa larga parede coberta de um
velho apeadeiro. Defronte, para além dos carris, recortava-se uma paisagem
triste. O fumo cinzento e espesso dos fábricas ao longe. Mas estavam demasiado
longe para que se escutasse alguma coisa. E perto, ao alcance dos meus sentidos,
nem sequer o rumor das aves ou o estrépito frenético da máquina. Não havia
movimento. Tudo parecia parado. Ausente. Somente um silêncio meditativo, interminável.
Sentira alguma curiosidade, pelas poucas pessoas que compartilhavam comigo
aquele mesmo banco. Não se via mais ninguém. O único sinal de vida contra o
fundo abandonado. Na ponta, mais afastado donde me encontrava, estava sentada
uma figura de elevada estatura, magra, de ombros estreitos e membros
delgados, num todo de pleno desenvolvimento longitudinal. Quase ao centro,
não tão afastado, detinha-se um indivíduo largo, musculoso, tipo atlético, de
altura regular, mas entroncado. A boca era um traço perdido no semblante
tortuoso. À esquerda, já próximo, encontrava-se um homem dos seus trinta
anos, gordo, atarracado, bolachudo, de rosto inexpressivo, cansado. No
horizonte, em aceno discreto, o dia parecia despedir-se num colorido pálido
de fim de entardecer… Dentro de meia hora tudo estaria acabado. Depois, somente
o leve bálsamo dos infelizes, na oferenda da noite. E ela é meiga para os
imperfeitos. Dá ao morcego a luz do cisne. Absorvido, perdera a noção do
tempo. Passara uma eternidade. Mas também não tinha pressa. Apesar de tudo,
ali estava-se bem. Só via agora uma única pessoa. Conversava comigo.
Conseguira-o através de um motivo tolo, quase ingénuo. Eu aceitara. –
Compreendo o que possa sentir… Mas é preciso tentar sempre… –
Para onde? Porquê? Só tenho um vazio. Não posso lutar com um vazio. Não
quero. Eu
não odeio o mundo por ter nascido. Odeio a sua indiferença. A sua caminhada
implacável, irresistível. Talvez o mal esteja em mim. Talvez seja demasiado
sensível. Talvez leia por onde ninguém mais pode ler. Talvez… Mas
não posso mais. Já nem durmo… Tenho medo. Tenho medo de sonhar sonhos vazios.
–
Diga-me… quantos anos tem?… –
Quarenta. –
É curioso… diria que não tem mais de trinta… –
É uma ilusão da fada velha da fadiga. –
E agora?… –
Falta-me coragem. Ajude-me… Num
movimento rápido, nervoso, levou a mão ao bolso suado e frio das suas calças.
E voltou… com um revólver preso entre os dedos crispados. O seu rosto eram
dois oceanos de esperança. Via neles o azul claro da súplica negra.
Levantei-me, apavorado. O odor do crepúsculo parecia rir num escárnio
sinistro. Recuei dois passos. –
Por amor de Deus, o que significa isso? O que me está a pedir?!… –
Se não for capaz, terei de ser eu a fazê-lo… –
Não faça isso! Pelo que mais ama na vida, não faça isso! Abrace-a com toda a
força que ainda tem… Deseje viver!!! –
Tem razão. Faço-o por aqueles que amo. Por aqueles que choram ignorados… Tranquilamente, estendeu-me de novo o revólver, num esgar patético. –
Por favor… Subjugado
pela tensão do momento, não vira o comboio que surgira por entre a curva
encoberta e que parara. Dirigi um relance apressado para o comboio que lentamente
retomava a marcha. E virei-me de novo poro o homem que suplicava que o matasse.
Intensamente, senti a comoção do derradeiro olhar de adeus que lhe lancei.
Então, corri como um louco para o comboio que se afastava. Num salto desesperado,
apanhei-o no último vagão. Fugia como um cobarde. Com um pé no estribo e
agarrado ao varão de ferro, berrei ainda um grito ferido, fulminante, que
atravessou toda a escuridão… –
Venha viver pelos que choram ignorados!!!… Silêncio.
E… ouvi algo surdo, seco. Por instantes, lutei por acreditar que fora somente
o silvo agudo da máquina selvagem… Depois, cerrei os olhos e deixei de
pensar. Chegara o primeiro canto da noite. QUESTÕES:
1
– Das três personagens citadas, quem foi aquele que «ficou» no velho
apeadeiro? 2
– Justifique a sua escolha.
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© DANIEL FALCÃO |
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