Autor Data … Secção Em Fim de Livro Competição I Torneio Problema nº 1 Publicação Colecção XIS – nº 28 |
AS JÓIAS NO COFRE… Sete de Espadas As conversas,
no café, saltitavam de mesa em mesa, ao redor do mesmo tema: 9 a 1… Armando,
concentrado nos seus problemas pessoais, alheado das discussões, nem sequer
reparou no gesto simbólico do criado, limpando, por mais do que uma vez, o
tampo da mesa; desviando a chávena e o pires da bica que tinha bebido;
levando o açucareiro e voltando de novo… Finalmente
compreendeu: o criado saía de serviço. Olhou, demorado, o grande espelho na
sua frente e com gestos mecânicos colocou ma mesa os quinze tostões… - Obrigado.
Como vou sair de serviço, muito boa noite! Armando, com
um aceno de mão, correspondeu, distraído, ao cumprimento. Saiu. Na rua,
o vento forte, batendo-lhe na cara, refrescou-lhe o vigor físico e moral. Em
passo elástico, perdeu-se na distância. * *
* * *
* * - Obrigado
pela festa íntima que me proporcionaram. Foram três horas bem passadas, que
dificilmente esquecerei. - Senhor
Novais… Minha senhora, muito boa noite e até amanhã, se Deus quiser, e, mais
uma vez, muito obrigado. Alberto
despediu-se assim dos seus futuros sogros, depois de ter feito umas festas no
queixo pequenino, redondo e de covinha, na sua Judite. Atravessou o passeio
até ao seu carro no momento em que na torre da igreja, lá ao longe, o relógio
badalava, compassado, as doze horas… - Boa noite! - Boa noite,
Al! Não te esqueças; vai devagar, porque ainda agora é meia noite. Tem
cuidado. Adeus! Duas portas
bateram; a do carro e a porta da rua do palacete dos Novais. Depois, na
janela, um lenço acenava… * *
* * *
* * - Está? O
Ricardo Jorge? - … - Sim! Olha,
se quiseres, vem comigo ao palacete do Castro Mendes. Há lá qualquer coisa
com as jóias e um cofre… - … - Está bem.
Nesse caso passo por aí, daqui a um quarto de hora. Como moras perto, temos
tempo de estar lá às dez e meia. Até já. Desligou. * *
* * *
* * O velho Castro
Mendes, de barbicha espetada, lunetas encavalitadas no nariz aquilino, mãos
atrás das costas, passeava a passos largos sobre a alcatifa da biblioteca.
Não compreendia, e de maneira nenhuma se habituava à ideia de ter sido um dos
sobrinhos. Pois se eles não precisavam? Bastava-lhes pedir… Claro! Somente os
três sabiam do segredo do cofre. Mas… A campainha da
porta da rua fez-se ouvir. - Sr.
Director: o senhor Inspector Caldas Payo e o sobrinho sr. Ricardo Jorge. Cumprimentos.
O assunto foi logo atacado de frente: - Pouco
passava das 22 horas quando verificou que do cofre tinham desaparecido umas
jóias que tinham sido limpas e que aguardavam o dia seguinte para serem
seguras contra todos os riscos, por uma apólice no valor de 156 contos.
Somente três pessoas sabiam do segredo do cofre: ele e seus sobrinhos Alberto
e Armando. Ambos tinham saído cerca das 21 horas. Também todos os criados
tinham saído e ele mesmo, dera um passeio depois do jantar, indo até à
avenida no carro de Alberto. Ao voltar, foi ao cofre para tirar uns
documentos e deu por falta das jóias. Pouco antes de sair, vira-as lá. - O Inspector
e Ricardo Jorge verificaram o cofre. Ali, não havia indícios, de facto, de
profissionais do crime. O trabalho tinha sido feito sem custo; a pessoa, ou
pessoas, sabiam o segredo e tinham as chaves. * *
* * *
* * Na manhã
seguinte. - Mas não,
Inspector. Eram de facto 10 menos 5 quando saí do café. Nada sei. De resto,
para que as queria eu? * *
* * *
* * À tarde, as
jóias apareceram embrulhadas num jornal sobre a secretária da biblioteca. * *
* * *
* * À noite,
Ricardo Jorge em conversa com Firmino, o criado do café, soube que este saíra
às 23.5. * *
* * *
* * No dia
seguinte, soube-se que um dos sobrinhos de Castro Mendes tinha feito um
negócio de oportunista, que lhe rendera alguns milhares de escudos e par a o
qual, a caução, tinha sido apresentada em jóias. Castro Mendes
desistiu da queixa, mas Ricardo Jorge e o seu tio, sabiam já toda a mecânica
do «falso roubo» e também o erro do «oportunista». Pergunta-se: 1.º - Qual dos
sobrinhos fez o negócio? 2.º - Qual o
erro cometido por um deles? 3.º - O que o
levou a cometer o erro? |
© DANIEL FALCÃO |
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