Autor Data 20 de Junho de 2004 Secção Policiário [675] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 9 Publicação Público |
Solução de: O ENIGMA DA MORTE DE UM GERENTE Severina Ninguém assassinou o
gerente: foi suicídio. Vicente Lopes era gastador.
Sobrevindo a doença e morte da mulher, retirou valores da empresa. Que não
foi capaz de repor. A velha pistola sem dono,
já lhe sugerira o suicídio; e até o modo de pôr termo à vida sem dar a
entender que morrera às próprias mãos. Agora, com a auditoria e a próxima
falência da empresa – porque o desfalque ficaria a descoberto – o gerente deu
preferência ao suicídio em vez da humilhação da cadeia. Nascido noutro nível,
estava farto do emprego que fora obrigado a aceitar. Era de Ana Cristina a marca
do sapato (de salto) com laivos da lama deixada no tapete pelos saltos do
Vicente. Mas não o matou. Assim que Manuel Lúcio fugiu do gabinete,
intrigada, olhou pela porta aberta e viu o gerente morto. Julgando que Lúcio
o matara reagindo ao que lhe fora dito, não quis ser ela a dar o alarme para
não denunciar o seu padrinho. Pôs um pé dentro da porta, para a conseguir
puxar e fechá-la no trinco; trinco esse que, por fora, não abria sem chave. E
aguardou. Lúcio não matou o gerente.
Este estava postado a meio da divisão, morto com um tiro na nuca, não podia
ser atingido à queima-roupa a partir da porta, de onde Lúcio não passou. Quanto a Graciano, que nem
era empregado da casa, está fora de questão: quando Vicente Lopes morreu já o
estafeta saíra havia muito da oficina. Há ainda o dono do
restaurante, que pode ser acusado de crime e roubo, visto ter levado a maleta
do gerente: decerto cedida por quem não tencionada voltar a usá-la – ou com a
intenção de o inculpar, tal como fez ao apagar-lhe as impressões digitais no
copo. Mas a ausência de pegadas suas por detrás de Vicente, uma vez que este
foi atingido à queima-roupa na nuca, assim como a verificação da hora do
depósito na agência do banco, feito de imediato, iliba-o. Vicente Lopes preparou o
suicídio. Cumprido o pagamento ao proprietário do restaurante, com o resto de
todo o seu depósito no banco – levantado antes de seguir para o emprego – esperava
até surgir uma oportunidade, para a execução que ensaiara repetidas vezes.
Com a facilidade que lhe davam os seus exercícios acrobáticos. O momento
psicológico chegou com o barulho da betoneira a trabalhar. Bastava
aproveitar. Com a velha “Browning” oleada, armada e limpa de impressões digitais,
pronta a disparar, serviu-se do seu lenço de seda natural, que usava ao
pescoço, para proteger as mãos. Deixando o lenço bem solto, através da seda,
com a mão esquerda – era canhoto, como se viu ao usar o relógio no pulso
direito – tomou a arma pela coronha e compôs o lenço com a mão direita, para
deixar o cano a nu. Com extrema concentração,
elevou as duas mãos atrás da cabeça, segurou a pistola com as palmas
protegidas. Pôs a boca do cano assente na nuca e prendeu-a no ponto certo com
a mão direita a premir a parte de cima da coronha. Sempre com as mãos
tapadas, tal como protegeu o dedo médio da mão esquerda ao conseguir tocar –
sem o deixar preso – na parte da frente do gatilho, de modo a poder disparar.
Devido ao disparo, um pouco mais direccionado para
o lado direito, por Vicente ser esquerdino e com naturalidade pressionar mais
desse lado, a bala foi cravar-se na ombreira da janela, à direita. Dado o tiro – tal como
ensaiou – as mãos afrouxaram, soltas; os braços ficaram lassos e à vontade. A
arma, devido ao peso, arrastou o lenço e resvalou para o lado onde foi tocada
pelo dedo. O corpo abateu-se… Deveria ter sido o Silveira
a entrar no gabinete quando Vicente acabou de disparar, para que a suspeita
da sua morte caísse sobre si. Mas não sendo esse, outro qualquer… Por isso
quis sempre a porta entreaberta para entrarem à vontade. Tinha limpo a arma
cuidadosamente e retirado as impressões digitais do
copo do outro, indiferente a quem pudesse ser acusado pela sua morte. Assim: a razão da morte de
Vicente foi o desfalque que praticou. Suicidou-se como ficou explicado.
Difícil, mas não impossível. A morte foi causada por si, por convicção. Mas
com intenção de incriminar alguém… |
© DANIEL FALCÃO |
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