Autor Data 8 de Dezembro de 2002 Secção Policiário [595] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2002/2003 Prova nº 3 Publicação Público |
SMALUCO NO TEATRO Smaluco “Smaluco”
é o “nome de guerra” de um velho e medíocre agente da Polícia Judiciária,
cujos traços de personalidade mais marcantes são a fanfarronice, a vaidade e
a mentira, características que lhe valeram alguns processos disciplinares e a
reforma compulsiva aos 55 anos de idade. À parte a investigação directa de alguns crimes de pequeno delito, ele passou
praticamente todo o seu tempo de serviço como policial a uma secretária,
classificando e arquivando documentos, ao mesmo tempo que devorava textos
dramáticos e as mais diversas publicações sobre teatro. Esta sua paixão pela arte
de Talma não é recente. Ela remonta, segundo o próprio, à sua adolescência,
quando se perdeu de amores por uma jovem actriz-bailarina
que na altura debutava no chamado “teatro independente” do pós 25 de Abril de
74, lia Brecht, adorava Beckett e Stravinsky,
idolatrava Pina Bausch e odiava os “velhos” clássicos. O seu romance com aquela
jovem, cujo nome nunca pronuncia e que ele afirma ter sido a grande e única
paixão da sua vida, durou apenas dois anos, mas foi a causa e o tempo
bastante para que Smaluco se perdesse de amores
pelas coisas das “artes do palco”, ao ponto de ser este o seu tema de
conversa preferido, sempre que encontra uma “plateia” interessada em ouvir as
suas aventuras. Há poucos dias, quedei-me a
ouvi-lo discursar para um grupo de jovens, vizinhos seus, que o tratam com
reverência e carinho e que escutavam embevecidos mais uma das suas histórias.
Dizia ele: «No ano em que Lisboa foi Capital Europeia da Cultura tive o grato
e inesquecível prazer de conhecer de perto algumas das mais importantes
personagens da cena teatral mundial, como o norte-americano Bob Wilson, o
espanhol Jorge Lavelli e o português Ricardo Pais.
Com este último, tive a oportunidade única de assistir aos ensaios finais do espectáculo ‘Clamor’, que retratava a vida e a obra do
grande poeta luso Fernando Pessoa; com Lavelli,
tive o ensejo de colaborar na montagem da peça ‘Os Jornalistas’, em cujo
elenco pontificava o nosso extraordinário actor
João Perry; e com Bob Wilson, vivi a minha mais empolgante experiência nos
palcos nacionais.» Continuava o nosso “herói”:
«Aquele encenador esteve nessa altura na capital a dirigir, no Teatro Camões,
a ópera “O Corvo Branco”, uma produção que suscitou alguma polémica face aos
meios técnicos, humanos e financeiros que envolveu, provocando os mais irados
comentários, em surdina, no seio da classe teatral, nomeadamente junto dos
grupos e companhias que viram os seus pedidos de subsídio recusados pelo
Estado.» Smaluco sentiu o seu jovem auditório
entusiasmado com a narrativa e empolgou-se: «Começou a circular a informação
de que uma autodenominada “comissão de luta” dos grupos de teatro emergentes
se preparava para boicotar o espectáculo, o que
levou Bob Wilson a contactar-me no sentido de averiguar o fundamento daquela
notícia.» Não consegui evitar um
sorriso e, a custo, mantive-me calado a ouvi-lo: «Dois dias antes da estreia
da ópera, em plena madrugada, um grupo de três encapuzados entrou no Teatro
com o propósito de violar os mecanismos de cena e danificar cenários e
guarda-roupa, mas foram descobertos a tempo por mim, que me vi de repente
envolvido numa feroz luta corpo a corpo, com tiroteio à mistura, e que
culminou numa perseguição de automóvel pela Ponte Vasco da Gama. Porém,
graças a preciosa ajuda de um piquete da PSP, os meliantes acabaram por ser dominados
e metidos nos calabouços.» Não quis ouvir mais nada e
abandonei o local, perdido de riso. Vocês sabem porquê, claro… |
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© DANIEL FALCÃO |
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