Autor Data 19 de Outubro de 2003 Secção Policiário [640] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2003/2004 Prova nº 1 Publicação Público |
SMALUCO E AS TRÊS AMIGAS Smaluco Natália Vaz é uma
quarentona de longos cabelos loiros e de penetrantes olhos azuis, cujos
traços fisionómicos e dotes físicos deixam perceber quão bela e sedutora terá
sido na idade em que o corpo mais desperta sentidos e emoções. Na sua adolescência e
juventude, foi actriz e bailarina de formação
clássica, tendo experimentado as tendências cénicas em moda no pós-Abril de
74, com uma militância sem limites nos grupos independentes nascidos com a
revolução, que defendiam um teatro “puro” e sem cedências aos padrões que
vigoravam na época. Natália recusou sempre
todas as propostas para fazer televisão e cinema porque detesta as
“máquinas”. E levou tão longe o ódio pelas novas tecnologias que ainda hoje
repudia o telemóvel e não tolera o computador. Felizmente para ela, a
profissão que agora exerce não exige qualquer relação com as “máquinas”: é
empregada de balcão numa loja de vestuário feminino, em Sintra. Natália teve vários amores,
arrebatou os corações mais empedernidos e foi cortejada pelos mais disputados
solteirões dos anos oitenta, mas hoje vive sozinha num apartamento que
coabita com duas velhas companheiras de teatro, que há muito deixaram os
palcos para abraçar profissões mais comuns. Judite Marques tem menos
dois anos do que Natália, foi corista no teatro de revista, chegou a ser capa
de algumas publicações cor-de-rosa, pela sua beleza e jovialidade, e ainda
hoje é exactamente o que aparenta ser: uma mulher
sem preconceitos nem tabus, aberta e despreocupada, que dedica grande parte
do seu tempo aos que sofrem, agora também como auxiliar de enfermagem numa
clínica em Almada. Rute Lopes é a mais velha e
a menos interessante das três, como mulher e artista, de uma vulgaridade
confrangedora apesar de muito bonita e formosa, que nos palcos nunca fez mais
do que figuração especial em espectáculos do
chamado teatro declamado. Hoje é funcionária pública numa repartição de
Finanças de Lisboa, e, com a idade, refinou a sua característica mais
desagradável: é tão egoísta que instalou o único telefone existente em casa
no seu quarto, que mantém sempre trancado quer esteja presente ou ausente. Elas são muito diferentes
entre si, embora, curiosamente, sejam as três do signo Gémeos, nascidas todas
no dia 13, número que consideram como seu talismã da sorte, e partilhem há mais
de dez anos a mesma casa, as mesmas roupas, os mesmos perfumes e, por vezes,
os mesmos... homens. José Ventura é camionista
de longo curso e cometeu a proeza de namorar com as três amigas ao mesmo
tempo, sem que nenhuma delas desconfiasse, até ao momento em que Judite o
surpreendeu a sair do “quarto-bunker” de Rute, seminu, numa madrugada bem
recente. Judite ficou de rastos com aquela descoberta e Natália também,
embora o não confesse. O único desaire amoroso de
Natália, que esta reconhece como tal, deixou-lhe marcas profundas e remonta à
sua adolescência, quando as circunstâncias da vida determinaram o fim da sua
relação com o detective Smaluco,
o único homem que ela diz não conseguir esquecer, apesar de já não falar com
ele há mais de dez anos. Por isso mesmo, Smaluco
nem queria acreditar quando atendeu o telefone e ouviu a voz de Natália. – “Que saudades, meu
Deus!”, disse ele num sussurro. Um turbilhão de recordações
emudeceu-o por longos instantes até que Natália irrompeu num choro
convulsivo, reclamando a sua ajuda. – “Onde estás?”, perguntou ele. – “Em casa.” – “Não saias daí. Eu vou
já.” Natália deu-lhe a morada e Smaluco, dez minutos depois, estava a seu lado, para a
confortar. Mas ela estava verdadeiramente inconsolável. – “Algo me diz que
aconteceu uma coisa muito grave com a minha amiga Rute. Durante a manhã,
recebi na loja diversos telefonemas de colegas dela, que estranharam a sua
falta ao serviço. Eu própria fiquei muito preocupada, porque ela é uma
funcionária exemplar, de uma pontualidade e assiduidade irrepreensíveis.” Natália fez uma pausa para
recuperar o fôlego e limpar uma lágrima que se atreveu a rolar-lhe cara
abaixo sem aviso prévio. – “Pedi para sair mais cedo
da loja e regressei a casa com um pressentimento ruim. Mal cheguei, corri ao
quarto de Rute, bati à porta, gritei e... nada! Tenho a certeza que ela está lá dentro. Algo de
terrível terá acontecido.” Smaluco aproximou-se da porta do quarto de Rute,
pediu um gancho de cabelo a Natália e enfiou-o pelo buraco da fechadura,
enquanto deitava um olhar carinhoso à sua ex-mulher amada. No tempo em que
namoravam, eles abriram diversas vezes daquela forma a porta dos quartos dos
hotéis onde ficavam hospedados os colegas de Natália Vaz nas digressões que
faziam pelo país, para lhes pregar partidas divertidas. Mal entraram no quarto,
deram com Rute Lopes estendida na cama, morta. Alguém a agrediu violentamente
na cabeça, enquanto dormia, com uma enorme chave-inglesa que se encontrava
caída junto do corpo. Natália desatou num pranto e Smaluco
afastou-a para fora do quarto, no preciso momento que entravam em casa Judite
Marques e José Ventura, carregados de compras, cantando alegremente. Natália
deitou-lhes um olhar furioso, mas eles continuaram festivos e animados. E não
era para menos: as três amigas faziam anos nesse dia. Houve um homicídio naquela casa. Smaluco, que se auto-define
como um detective experiente, atento, astuto, diligente,
arguto e inteligente, tinha ali, junto de si, a pessoa que cometeu o crime e
ainda não tinha percebido. Por favor, ajudem-no... |
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© DANIEL FALCÃO |
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