Autor Data 21 de Novembro de 2004 Secção Policiário [697] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2004/2005 Prova nº 2 Publicação Público |
SMALUCO NA PRISÃO Smaluco Nas últimas três semanas,
desde que Natália Vaz aguarda julgamento em prisão preventiva por alegado
crime de homicídio, Smaluco já passou mais tempo
nos corredores de uma Cadeia do que durante toda a sua vida de trinta anos
como detective da Policia Judiciária. É raro o dia
que ele não rume a Tires para visitar e consolar a sua ex-namorada e mulher
da sua vida, de quem andava “perdido” há mais de uma década. Numa dessas visitas, Smaluco conheceu Ricardo Gomes, um respeitadíssimo
industrial de calçado, possuidor de uma enorme fortuna herdada por sua
mulher, que era detentora de um património imobiliário de valor incalculável,
não só em Portugal como em diversas cidades europeias, e que viria a ser
alegadamente assassinada por uma amante do seu próprio marido. Anabela Monteiro, assim se
chama a amante de Ricardo Gomes, cumpre pena de prisão há já dois anos no
Estabelecimento Prisional de Tires e continua a reclamar a sua inocência. Diz
ela que, no seu caso, a justiça portuguesa cometeu talvez um dos maiores e
mais grosseiros erros da sua história. Mas a verdade é que foi dado como
provado em tribunal que Anabela assassinou a mulher do seu amante, a sangue
frio e sem quaisquer contemplações. Segundo Ricardo Gomes, o
corpo de sua mulher foi encontrado no “hall” da sua
residência de férias, no litoral do Baixo Alentejo, atingida com um tiro à
queima-roupa que lhe desfez quase por completo o lado esquerdo da cabeça.
Ricardo diz que ainda hoje sente arrepios de horror quando se lembra dos seus
olhos muito abertos, num misto de surpresa e terror, e do sangue correndo
abundantemente pelo rosto. A Polícia Judiciária não
teve dúvidas quanto à autoria do crime. Junto ao cadáver foi encontrado um
botão de um casaco de peles de Anabela, alguns fios do seu cabelo cor de fogo
e pegadas deixadas por uns sapatos que ela havia comprado semanas antes e que
foram descobertos num velho e abandonado barracão situado nas imediações da
casa onde ocorreu o homicídio. A arma do crime, uma velha
caçadeira de canos serrados, que o seu proprietário, Antunes Moita – o
caseiro que vive num anexo da casa de férias do casal Gomes, que ele já cuida
há mais de vinte anos –, afirmou ter perdido numa remota noite de caça nos
montes alentejanos, foi também encontrada no barracão junto a um par de luvas
de lavrador, ressequidas de tanta falta de uso, e que foram supostamente
utilizadas para não deixar impressões digitais na espingarda. Foi Antunes Moita que
descobriu o corpo da vítima quando entrou em casa por volta das dez horas da
manhã para telefonar a um dos primos do casal Gomes – Filipe Gomes, que ali
tinha estado hospedado no fim-de-semana anterior e que ficara de voltar
naquele domingo para passar mais um dia nas belíssimas praias da costa
alentejana, mas ainda não dera quaisquer sinais de vida. Ao encontrar o corpo da sua
patroa, já cadáver, Antunes teve o cuidado de não mexer rigorosamente em nada
a não ser no telefone para ligar à Polícia Judiciária, no preciso momento em
que entrava em casa o primo da vítima, que ficou paralisado ao confrontar-se
com aquele quadro macabro. Refeito do choque, Filipe telefonou então para
Ricardo Gomes, que sabia encontrar-se por terras de Espanha para proceder a
algumas cobranças de dívidas “mal-paradas” e que
tencionava voltar apenas no dia seguinte. A mulher do caseiro, uma
senhora muito doente, que passou quase toda a semana no hospital da região,
onde foi internada após mais um dos seus habituais problemas respiratórios, e
que tivera alta apenas na véspera, ao fim da tarde, por insistência do marido
junto do corpo clínico, foi a terceira pessoa a ver o corpo da vítima antes
da chegada das autoridades policiais. A Polícia Judiciária
destacou para o local do crime dois dos seus mais jovens e prometedores efectivos, que chegaram cerca de duas horas depois do
telefonema do caseiro e foram céleres nas investigações. Andaram pelas
redondezas, ouviram o caseiro e a mulher deste, interrogaram Filipe, e em
todas as conversas que fizeram mostraram grande interesse em saber pormenores
sobre a vida conjugal dos donos da casa. Os caseiros não tinham
dúvidas: “Os senhores eram muito unidos, davam-se muito bem e raramente
tinham quezílias entre eles. Ultimamente, porém, as zangas eram constantes
por causa dos ciúmes da patroa, que veio a saber da existência de outra
mulher na vida do marido”. Filipe Gomes corroborou as afirmações dos caseiros
e foi ainda mais longe: “A amante do meu primo tornou a vida dele num
autêntico inferno e há muito que a situação era insustentável para todos”. Ricardo Gomes chegou ao fim
da noite a casa e tinha à sua espera um dos agentes da Judiciária, com uma
pergunta apenas: “Onde está a sua amante Anabela?” Ricardo diz que a julgava
em Lisboa, no apartamento que ambos partilhavam há já alguns anos, mas ela
acabaria por ser encontrada no Algarve, no dia seguinte, num hotel onde dera
entrada três dias antes. As provas eram demasiado
evidentes para que Anabela Monteiro escapasse à prisão e a Justiça determinou
que ela ficasse encarcerada durante doze anos. Ricardo diz que a visita com a
frequência possível, entre os muitos afazeres da sua muito preenchida e
agitada vida profissional, porque sabe que ela praticou aquele acto tresloucado, que continua a dizer não ter cometido,
por amor e ciúmes. E, diz Ricardo Gomes, ”todas as pessoas merecem piedade e
perdão”. Smaluco abraçou, comovido, o seu ocasional
companheiro visitante de cárcere, despediu-se dele com um sentido “até breve”
e afastou-se cabisbaixo em direcção à porta de
saída da penitenciária, sem ter percebido se Anabela Monteiro está ou não
inocente… Por favor, digam-lhe quem matou a mulher de Ricardo Gomes e como
foi que chegaram a essa conclusão. |
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© DANIEL FALCÃO |
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