Autor

Smasher Smile

 

Data

27 de Julho de 2026

 

Publicação

Boletim Informativo e de Entretenimento da TPBRO [2]

 

 

UM DIA DE INVERNO

Smasher Smile

 

 Alguém tentou matar o presidente da câmara! Corria o dia 20 de Dezembro e fazia um frio cortante enquanto caía ininterruptamente uma chuva miudinha.

O presidente Carlos Notas tinha ido visitar o bairro social de São Bento da Merdaleja, nos arredores da capital, na sequência de alguns distúrbios provocados por moradores, que reclamavam da falta de qualquer iluminação pública e da insuficiência da rede de saneamento. Pelas 19h quando saía da Sociedade Filarmónica Assobiadores da Merdaleja pela porta das traseiras, para fugir aos ânimos exaltados de uma assembleia cansada de promessas, ouviram-se dois tiros e lascas de estuque saltaram da parede a escassos vinte centímetros da cabeça do autarca, que assustado começou a gritar num tom estridente.

O Comissário Magrinho, chamado ao local, mandou isolar a zona. Depois falou com a segurança do presidente, que o informou que na altura do atentado se encontravam na rua três transeuntes. O presidente disse que tinha ouvido os tiros, mas não tinha visto de onde estes tinham partido.

 

O Louçã, vendedor de roupa contrafeita na feira de Carcavelos, estava sentado dentro do carro, no outro lado da estrada, diante da porta das traseiras da colectividade. Declarou que tinha ouvido os tiros, mas não tinha visto nada, entretido como estava a ouvir a crónica do Alberto Gonçalves na Rádio Observador.

 

O Ranholas, conhecido traficante, já diversas vezes condenado por participação em rixa e posse de arma de fogo, estava abrigado numa reentrância de um prédio, a sessenta metros da porta da colectividade. Todo o bairro sabia que o Ranholas e o Louçã se odeiam profundamente, por isso ninguém estranhou que aquele dissesse que, do seu abrigo, tinha visto um clarão dentro do carro do Louçã no momento dos tiros.

 

Finalmente o Andrézinho, meliante especializado em actividades não especializadas, à hora do atentado estava em frente à sua casa, a 15 metros da porta das traseiras da colectividade, tentando de balde desentupir um bueiro que já começava a despejar água para a sua porta de entrada. Questionado pelo comissário, o Andrézinho afirmou ter reparado que o Ranholas estava escondido ao fundo da rua com uma arma na mão. Ouviu os tiros, mas na altura não estava a olhar.

 

O comissário falou com o graduado que chefiou as buscas feitas na zona e foi-lhe dito que não havia mais ninguém na zona e que não foi possível encontrar a arma utilizada. O comissário rabiscou umas notas no seu bloco de apontamentos. Depois disse: "Chamem uma ramona e levem este tipo para os calabouços".

 

Agora cabe ao leitor descobrir quem foi o tipo detido e porquê.

E, já agora, onde poderá estar a arma usada?