Autor

Smasher Smile

 

Data

Setembro de 2026

 

Secção

O Charadista e o Policiário [1]

 

Publicação

O Charadista [561]

 

 

COM UM GRÃO NA ASA

Smasher Smile

 

A ambulância parou mesmo defronte ao Hotel Universal, na Av. Dos Aliados e desligou a estridente sirene. Os paramédicos saíram com uma maca e entraram no hotel. Uma recepcionista, morena e elegante, mas estranhamente pálida levou-os até ao quarto 211.

Dois polícias fardados à porta e no interior um homem de gabardine espiolhando o local.

Na cama um corpo, ainda vestido. Na mesa de cabeceira um frasco com o dístico Euthasol Vet e uma seringa.

Os paramédicos levaram o corpo e o comissário Magrinho, com as suas luvas de borracha calçadas, agarrou num caderno que estava colocado sobre a mesa do quarto e sentou-se no único maple, começando a ler aquela espécie de diário.

“Hoje tive de pôr fim à existência do meu fiel Pavia. E ele era o único companheiro de velhice que eu tinha. Quem mais quer perder tempo com um velho professor de línguas clássicas. Conheci-o na minha terra natal, na velha Quinta de Apleita. Sempre foi a minha maior alegria. Nunca fui rico. Sempre amei o belo e o antigo, mas não podia lá chegar. Mas no fim ganhei coragem e o que desejava e não conseguia comprar, roubei. Uma obra maravilhosa com 497 anos. A imagem do primeiro “construtor de pontes” sentado num trono, segurando na mão as chaves das sete esferas concêntricas culminadas pelo Empíreo. Não vai ser fácil encontrá-lo. Está tudo no meu nome.

ἀνάγραμμα E está guardado na minha velha camionete, serenamente parada atrás do Anjo de Portugal. E eu vou atravessar o Hades para me juntar àqueles que o anjo homenageia.”

O comissário Magrinho saiu do quarto e dirigiu-se à recepção.

“Então menina, o que sabe dizer do defunto?”

“Muito pouco. Chegou ontem à tarde, sozinho e cambaleante, como quem tem um grãozinho na asa. Vinha sozinho. Registou-se sob o nome Vasco de Apleita. A camareira encontrou-o morto hoje de manhã, quando foi arrumar o quarto”.

O comissário exibiu um sorriso triste: “Pobre Anaxágoras. Por vezes é melhor ser ignorante”.

 

Pergunta-se:

– O que aconteceu no quarto.

– Que objecto roubou o defunto e como fundamenta essa conclusão.

– Onde foi efectuado o roubo.

– Em que localidade e sítio está escondido o objecto roubado. Como chegou a essa conclusão?

Quem é homenageado pelo Anjo de Portugal referido no texto.

 

© DANIEL FALCÃO