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Autor Data 11 de Novembro de 2018 Secção Policiário [1423] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2018 Prova nº 10 – Parte II Publicação Público |
SÁBADO SANGRENTO Troll O domingo amanheceu frio,
apesar da Primavera estar há muito instalada. Nos
campos aumentava a azáfama, que na agricultura, como sempre dizia o senhor
Ribeiro, nunca havia tempos mortos, nem horas de estar de papo para o ar. O sábado foi de alguma
emoção pelo registo da chegada do “menino” Gaspar, que apesar de não ser
propriamente um menino, para toda aquela gente jamais deixara de o ser. Há
uns anos abandonou a quinta e partiu, zangado com o pai Ribeiro e nunca mais
deu notícias, nem uma palavra. Regressou agora, como se nunca tivesse
partido, respirando boa saúde e, mais surpreendentemente, boa saúde
financeira, já que ostentava uma viatura de alta cilindrada, vestuário de
excelente qualidade e carteira recheada. Parecia que queria mostrar ao pai e
a todos, que não precisava deles para nada. No sábado à tarde,
percorreu a propriedade, como que a matar saudades e no final da tarde esteve
com o pai no escritório, aparentemente em boa cavaqueira e concórdia, como
testemunharam todos os empregados da casa. Parecia que nada tinha havido
entre eles. Pelas 19 horas, o senhor
Ribeiro anunciou ao filho que ia receber Macário, o contabilista, com quem
teria de discutir algumas questões e despediu-se, já que Gaspar ia sair para
jantar em Lisboa, onde o esperavam alguns amigos. Pelas 20 horas, depois de
40 minutos de viagem e mais uns tantos para procurar estacionamento, Gaspar
estava em alegre convívio em Lisboa. Regressou à quinta nos
alvores de domingo, muito bem bebido e meio descomposto, sendo amparado pelos
empregados e conduzido ao quarto, tendo caído em cima da cama, onde ficou a
ressacar ruidosamente. Pelas 10 horas, a
estranheza da ausência do senhor Ribeiro, um facto absolutamente inédito,
tanto mais que normalmente era o primeiro a acordar, fez com que fossem bater
à porta do quarto, não o encontrando. Dado o alarme, a procura não foi longa
porque o cadáver estava no escritório, na poltrona onde se sentava
frequentemente para ler ou apenas para beber um brandy, no final de cada dia
e onde falava com os seus convidados. Aquela mansão enorme, só
tinha vida durante o dia, com os criados a tratarem de todos os pormenores e
limpezas, porque o senhor Ribeiro fazia questão de lhe dar o aspecto e a vida de quando a mulher era viva e o filho
corria por aqueles corredores, em algazarra. Agora, logo que a noite se
aproximava, comia qualquer coisa frugal, dispensava os empregados que iam
para os respectivos aposentos, em outro edifício e
ficava só, primeiro com os seus apontamentos, porque tinha o hábito de
escrever todos os passos e conversas diárias, num caderno de folhas soltas
perfuradas, que ia alinhando dia após dia e mais tarde com os seus
pensamentos e memórias, afundado naquela poltrona, até ser hora de se deitar,
após um bom e reparador banho. Nesta noite, a rotina foi
travada por um tiro desferido na têmpora direita, a curta distância, pela
pistola que estava no chão, junto da sua mão. Não havia mais qualquer indício
da violência que ocorreu naquele compartimento, inspeccionado
ao milímetro. – Quando me fui embora, o
meu pai ficou muito bem. Ia receber o senhor Macário para discutir com ele
não sei o quê. Eu saí directamente para o carro e
fui para Lisboa jantar e conviver com amigos, não sei de mais nada. Ele tem
um caderno onde aponta tudo, mas não sei onde o guarda. – Estou muito abalado. O
senhor Ribeiro e eu conhecemo-nos desde sempre. Sou filho da Maria, que foi
governanta desta casa desde os tempos da senhora e foi graças a ele que
consegui estudar e tirar o meu curso de contabilista. Estou mesmo muito
abalado. Ontem o senhor mandou chamar-me, não sei para quê, porque quando cá
cheguei bati à porta mas não tive resposta. Ainda insisti, mas como era
habitual o senhor adormecer na poltrona, não o quis perturbar. Era frequente
acontecer isso e a princípio eu acordava-o, mas ele dizia-me que quando
estava cansado não tratava de assuntos e adiava a conversa para o dia
seguinte. Deixei de o acordar. Bato à porta e se ele me manda entrar, entro,
se não há resposta, vou embora e volto no dia seguinte. Foi o que fiz. – Eu sou o Manel, empregado
do senhor Ribeiro. Ontem vi o menino ir embora e passado algum tempo entrou o
senhor Macário, que não se demorou muito. Não entrou mais ninguém porque sou
eu que faço a última ronda em redor da casa para verificar janelas e portas.
Se pode ajudar, o senhor Ribeiro tem um caderno onde aponta os seus encontros
e conversas logo que as acaba, para não se esquecer. Talvez lá esteja
qualquer coisa. O Inspector
encontrou o caderno na gaveta da secretária. No dia, lia-se a data e
descrição do que fora feito e falado e nele constava que se ia encontrar com
o filho no final do dia, mas não tirava conclusões sobre o que falaram. Na
folha seguinte, relatava-se o encontro com Macário sobre o modo de pagar aos
homens que foram contratados nesse dia para ajudarem na poda das videiras. A – Foi Gaspar; B – Foi Macário; C – Foi Manel; D – Foi suicídio. |
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© DANIEL FALCÃO |
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