Autor

Vic Key

 

Data

1 de Maio de 2026

 

Secção

O Desafio dos Enigmas [241]

 

Competição

Torneio “Solução à Vista!” – 2026

Problema nº 5

 

Publicação

Audiência GP Grande Porto

 

 

A VISITA NOTURNA

Vic Key

 

Era a primeira semana da reforma do professor Martins e ele não poderia estar mais feliz. A bicicleta deslizava alegremente na luz dourada do entardecer. Uma frescura consoladora exalava dos campos verdejantes e um aroma delicioso enchia o ar. Percorria Portugal de bicicleta, com a escassa bagagem nos alforges, sem pressas nem preocupações.

Seguia pelas redondezas do Rio Minho, que lhe tinha proporcionado uma excelente tarde de pesca às trutas. Numa curva do caminho, deparou com um edifício antigo e pitoresco, que exibia o letreiro “Estalagem do Rio” e promessas da melhor sopa de pedra da região. Apressou-se a descarregar a bicicleta e a acondicioná-la sob o telheiro.

Depois de jantar, foi convidado para uma animada partida de dominó. Ficou sentado entre dois pitorescos hóspedes: à sua esquerda, o espirituoso Pinto, relojoeiro de profissão e cómico de vocação. Não usava óculos, coisa rara no ofício. À sua direita, o excêntrico Coelho, reformado e canoísta, sempre a censurar-se de “já ser tão tarde e ainda estar acordado”, mas jogando com entusiasmo, rodopiando cada peça com ar dramático antes de a bater ruidosamente na mesa – e no processo enfiando o cotovelo na cara do nosso pescador de trutas. Do outro lado da mesa, o compenetrado Raposo, ourives em viagem de negócios, contrastava com a animação geral, sempre silencioso, considerando cada jogada com um ar grave e sério. Talvez por deformação profissional, observava atentamente e comentava os anéis e outras peças de ouro usadas pelos presentes.

A empregada Rosa, uma jovem corada e de ar simpático, com um acentuado estrabismo, abastecia os convivas de café e brandy. O Coelho parecia mais apostado em fazê-la rir quando a bandeja vinha mais carregada. Tudo sob o olhar divertido do dono da casa, Gonçalves de seu nome, anafado e jovial, como convém a um estalajadeiro. Ao contrário do que é comum no ofício, não tinha pressa nenhuma de mandar os fregueses para a cama e servia-se copiosamente de conhaque.

Quando se foi deitar, o professor Martins estava tão agradavelmente cansado que mal conseguiu anotar alguns pensamentos no seu diário. Por volta das três da manhã, foi acordado do seu sono tranquilo por um ruído invulgar. Havia mais alguém no quarto! Um raio de luar caía precisamente sobre a sua bolsa de tabaco, pousada numa cadeira ao pé da cama. Focou o olhar na obscuridade do quarto e pareceu-lhe desenhar-se uma sombra humana! Da escuridão emergiram umas mãos cautelosas que, para seu espanto e certo temor, desataram a vasculhar os seus pertences. Ainda agarrou o intruso pelos pulsos, mas este libertou-se violentamente, ferindo-lhe a mão com o relógio de pulso, e fugiu pelo corredor, com passos ligeiros. Incrédulo e abalado, apressou-se a fechar a porta à chave.

Pela manhã, desceu para o pequeno-almoço. Mal tinha começado a relatar o sucedido ao dono da estalagem, uma jovem de longos cabelos castanhos transpôs a porta. De estatura mediana, blusão de camurça com franjinhas, ar de cow-girl e botas a condizer. “É a inspectora Zélia, que vem todos os dias aqui tomar café...”, segredou o dono da casa. “Uma estrela em ascensão na Judiciária, ao que dizem! Já lha apresento…”. Retorcendo as pontas do bigode, o professor Martins apreciou o aperto de mão firme da notável polícia, e ficou espantado com tamanha perspicácia, quando, em acto contínuo, ela lhe olhou para a mão esquerda e perguntou, com um sorriso: “Andou à bulha com os gatos, senhor professor?...”. A Inspectora ouviu o seu relato, observou atentamente todos os presentes e ficou pensativa durante alguns momentos, e disse, com convicção: “Creio que o seu visitante nocturno está aqui connosco, caro professor!”. Chamou a pessoa de quem suspeitava e perguntou-lhe, sem rodeios: “Passeou muito esta noite?...”. Entre desculpas atabalhoadas sobre “insónias” e “uma ligeira cleptomania”, a sombra nocturna acabou por confessar as suas culpas, prometendo solenemente que não repetiria a façanha. O professor Martins e o anfitrião Gonçalves ficaram deveras impressionados com o raciocínio da inspectora, que não deixou de aconselhar: “Para as insónias, experimente chá de camomila... ou ainda acabam por lhe receitar chá de marmeleiro!...”.

Ficaram em silêncio a vê-la afastar-se, com as suas magníficas botas. O dono da casa estava exultante: “Eu não lhe disse que ela é sensacional? Desvenda mistérios enquanto bebe um café!”

 

© DANIEL FALCÃO