Autor Data 4 de Maio de 2003 Secção Policiário [616] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2002/2003 Prova nº 8 Publicação Público |
UM CRIME MAIS QUE PERFEITO Vilnosa Fora um dia de trabalho
exaustivo, com a sala de espera repleta de pacientes aguardando a sua vez de
serem atendidos. Se bem que habituado a situações deste género, o certo é
que, naquele fim de tarde, o Dr. Hipócryta não
conseguia disfarçar o cansaço e a saturação de tantas horas de consultas e de
casos mais ou menos complicados; a voz ligeiramente arrastada, os gestos
lentos e as olheiras fundas denunciavam um estado de espírito e uma condição
física muito próximos da saturação. Mas...”noblesse
oblige”! E aquele simpático e discreto casal de
“ex-toxicodependentes” (como a si próprios se referiam o José e a Salette Boavida) ali estava à sua frente a solicitar dois
certificados de robustez física, indispensáveis para a frequência de um curso
de formação. Assunto fácil, de rápido
atendimento, pois não se tratava do habitual pedido de receitas para
“serenais”, “paxilfares” ou quaisquer outros
produtos similares... O Dr. Hipócryta
passou o primeiro certificado, que assinou e autenticou com a vinheta
obrigatória. E preparava-se para redigir o segundo (onde, inclusivamente, já
colara a respectiva vinheta) quando, pelo
intercomunicador, a voz da recepcionista se fez
ouvir, aflita e ansiosa: uma das pacientes, ainda na sala, sentira-se
desfalecer e carecia de observação imediata! Chamada pelo doutor, dona
Lúcia abriu a porta do gabinete e completou a sua informação com alguns
pormenores acerca da identidade da senhora em causa. O médico levanta-se da
cadeira e, tão discretamente quanto possível, guarda a folha das vinhetas
autocolantes na gaveta superior direita da secretária. Pede desculpa ao casal
pela imprevista mas inevitável interrupção e sai imediatamente, acompanhado
pela recepcionista. O caso, felizmente, não era
grave. O Dr. Hipócryta começou por tomar o pulso da
doente mas, fiel aos seus hábitos de rigor, pediu à dona Lúcia que lhe
trouxesse o esfignomanómetro. Observada e medicada,
a senhora recuperou rapidamente; mas, como medida de precaução imposta pelo
médico, foi conduzida para outra dependência a fim de repousar por mais algum
tempo. O Dr.
regressou, entretanto, ao seu gabinete, onde só encontrou o José Boavida, que
se apressou a esclarecer: “A minha mulher pede desculpa de ter saído, mas
estava na hora de ir buscar o garoto ao infantário...” “Tudo bem” – respondeu,
enquanto concluía a redacção do segundo certificado
– “e aqui tem o seu papel! Oxalá que sejam admitidos ao curso e o terminem
com êxito!” Seguiu-se uma rápida
consulta a um velho conhecido, sem que tenha sido necessária qualquer
medicação. Na sala de espera já não se encontrava mais ninguém. Faltava
apenas rever a doente que, num outro compartimento, se mantinha em repouso e
prescrever uma receita que as circunstâncias aconselhavam. E foi nessa altura que o
Dr. Hipócryta sofreu a grande surpresa do dia: ao
procurar a folha das vinhetas que, apressadamente, guardara na gaveta da
secretária, verificou o inacreditável: essa folha já lá não estava! Ainda sem admitir a pior
das hipóteses, chamou a recepcionista: “Dona Lúcia! Quando, há
pouco, veio aqui buscar o aparelho da tensão arterial, procurou-o nesta
gaveta?” “Eu... eu... sim, sr. doutor,
abri-a, de facto; mas fechei-a logo a seguir, porque vi o aparelho sobre
aquela cadeira...” “E, ao abrir a gaveta, não
viu lá, por cima de toda a papelada, uma folha de vinhetas, dobrada em quatro
partes?...” “Ah! Sim! Ainda lhe peguei,
mas voltei a metê-la na gaveta, sr. doutor. Mas porque me pergunta isso?...” “Porque a folha
desapareceu, dona Lúcia!” – replicou, já nervoso, o
Dr. Hipócryta – “e é preciso encontrá-la
urgentemente! Se a senhora, como diz, a deixou na mesma gaveta, só duas
pessoas podem ter sido as autoras desta ‘proeza’: o casal Boavida, que aqui
deixei quando fui assistir à doente, na sala de espera.” Consciente dos graves
problemas que as vinhetas, “em mãos erradas”, poderiam ocasionar, o médico não
hesitou e, pelo telefone, pediu ao posto da polícia mais próximo a presença
de um agente capaz de tomar conta da ocorrência. Foi então que a recepcionista, muito embaraçada, pediu para ser ouvida em
particular. E, perante a crescente estupefacção do
médico, confessou o que se segue. De facto, teve nas mãos a
folha desaparecida e não resistiu a tirar dela uma vinheta, na esperança de
que a sua falta não fosse notada. Há já alguns dias que premeditava esta
maldosa operação, mas nunca tivera nem uma boa oportunidade, nem a suficiente
coragem. Nesse dia, porém, vira o dr. arrecadar a folha naquela
gaveta, já abarrotada de papéis, e percebeu que ela ficara bem fácil de
encontrar, pois era o último dos documentos ali arrecadados, e já com alguma
dificuldade. Essa vinheta destinava-se a ser usada numa receita que ela
própria preencheria, por ter vergonha de a pedir ao médico, apesar de
trabalhar diariamente com ele. Razão de tamanho
acanhamento: o marido de Lúcia, alguns anos mais velho do que ela, atravessava uma fase crítica da sua vida sexual e
pretendia socorrer-se do milagroso Viagra para
recuperar a normalidade... Não queria, contudo, que essa deficiência, que
considerava temporária, fosse conhecida fora do ambiente estritamente
familiar; daí o ter convencido sua mulher a cometer o pequeno roubo (a que se
juntaria, obviamente, um impresso de receita), para tentar adquirir o
medicamento com a máxima discrição. Mas o desaparecimento da
famigerada folha alterou por completo os planos de Lúcia, que, segundo disse,
considerou não dever esconder o motivo que a levou a subtrair uma daquelas
vinhetas; garantiu, no entanto, que deixou a folha no mesmo local, se bem
que, devido à pressa e ao nervosismo, não a tenha dobrado em quatro partes,
atirando-a atabalhoadamente para dentro da gaveta. Por último, e já com as
lágrimas nos olhos, pediu desculpa e devolveu a vinheta. Quanto ao casal
Boavida, disse que ainda lá estavam ambos quando foi ao gabinete; tanto o
José como a Salette, a viram pegar na folha, mas
garante que não se aperceberam do roubo, porque o gesto foi executado com
rapidez e com as mãos encobertas pela secretária. Dois agentes da polícia (um
dos quais graduado) compareceram pouco depois e não tardaram a agir com a
maior eficiência. Ainda nessa noite conseguiram averiguar o seguinte: – A Salette
Boavida só chegou ao infantário meia hora depois de ter saído do consultório; – Essa demora, pouco
habitual, explicou-a com o facto de ter perdido muito tempo na farmácia, onde
fora comprar aspirinas e um maço de algodão;
– A farmácia confirmou esta
compra e disse não ter aviado, nessa tarde, qualquer outra receita passada
pelo Dr. Hipócryta. Convidados a comparecer no
consultório nessa mesma noite, José e Salette
confirmaram ter visto a recepcionista mexer na gaveta
e tirar de lá uma folha de papel, mas não souberam dizer de que papel se
tratava. Exibiram, nessa altura, os certificados que ainda tinham em seu
poder. As investigações
prosseguiram no dia imediato, incidindo sobretudo na análise de todas as
receitas do Dr. Hipócryta, apresentadas nas
farmácias da área. Ao fim da tarde, de novo no
consultório, o graduado da polícia expôs uma tese que, durante a noite,
germinara no seu espírito e que, no seu entender, talvez fosse o caminho
certo para revelar o misterioso responsável pelo desaparecimento das
vinhetas... E por aqui nos
ficamos, cabendo agora aos prezados leitores substituírem-se ao investigador
policial na solução deste caso. |
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© DANIEL FALCÃO |
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