Autor

Virmancaroli

 

Data

15 de Março de 1984

 

Secção

Mistério... Policiário [413]

 

Competição

Torneio “Dos Reis ao S. Pedro” - 84

Problema nº 3

 

Publicação

Mundo de Aventuras [515]

 

 

O ACIDENTE

Virmancaroli

 

Quarta-feira, 10 de Agosto de 1983.

O relógio de uma igreja próxima da rua Serpa Pinto, dava precisamente as 10 horas, quando se registou o acidente:

Uma mulher de meia-idade, foi colhida por um automóvel a dois metros da passadeira de peões e atirada ao chão. As opiniões das testemunhas oculares foram – como é costume nestes casos – muito variadas e muito contraditórias. E, assim, tanto se falava na falta de respeito pelos outros da parte do condutor como da falta de cumprimento das regras de trânsito por parte da mulher…

Enquanto uma ambulância transportava a mulher com uma perna partida, para o hospital mais próximo, o condutor do automóvel teve de seguir para a esquadra situada nas imediações do local do acidente. Fê-lo a protestar, insistindo sempre na sua inocência.

– Faça favor de se sentar e mostre-me a sua carta de condução! – intimou o polícia, empurrando uma cadeira para junto do pálido e trémulo condutor.

Enquanto atabalhoadamente lhe passava a carta e documentos do carro e se sentava e passava o lenço pela testa, o homem insistia:

– A culpa não foi minha, senhor guarda.

– Isso vai ficar no auto – prometeu. E olhando-o de frente: – O senhor é o senhor Ferrão?

– Sou.

– E qual é o seu nome completo?

– Fernando Ferrão, como está aí, mas tratam-me por Nando. Trabalho há dezassete anos para a firma VIROLI, como agente de vendas. Há dezassete anos que viajo, sem nunca ter tido um acidente, senhor guarda!

O polícia fez um aceno com a cabeça.

– Nasceu no dia 19 de Março de 1952… No Montijo. E mora em Afonsoeiro - Montijo, na rua Sacadura Cabral, nº 8. A Morada está actualizada?

– Sim, senhor guarda… Eu toquei a buzina, embora não goste de o fazer, para não assustar as pessoas. Há testemunhas de que toquei…

Na testa de Ferrão, formavam-se sem cessar grandes gotas de suor, que ele limpava e tornava a limpar… Parecia realmente aflito, os olhos brilhavam-lhe como se tivesse febre, e com voz rouca afirmou:

– É a primeira vez na minha vida que tenho de me haver com a polícia… Tem, ao menos, os nomes das testemunhas?

– Está tudo aqui. Nomes, moradas e declarações.

– Bem, então elas devem ter dito que eu estou inocente, senhor guarda… Nem sempre acontece a culpa ser de quem guia… Também há peões que não cumprem!

– Pois é – concordou o polícia. – Tem toda a razão. E quando assim é, são punidos com tanto rigor como os condutores. Disso pode ter a certeza!

Ferrão limitou-se a encolher os ombros, desanimado, e o polícia apontou para a porta.

– Faça o favor, sente-se ali fora e espere um momento, senhor Ferrão. Eu preciso de telefonar para o hospital…

– Sim, sim… Com certeza… E pergunte como está a mulher. Lamento sinceramente, embora a culpa não seja minha. Talvez ela lhe possa confirmar o que digo… Pergunte-lhe, senhor guarda…

Ferrão saiu do gabinete com as pernas a tremer.

Com o olhar, seguiu o pobre homem e, mal a porta se fechou atrás dele, o guarda Toledo pegou no auscultador:

– Está? Daqui Toledo. Faça-me uma ligação para a firma VIROLI, aqui no Montijo, se faz favor… Não, não tenho o número à mão… E outra para o Hospital para saber da mulher.

 

Passados dois minutos, um homem atendia do outro lado do fio, dizendo chamar-se Mendes e ser o chefe do pessoal da firma VIROLI.

– Não é nada de grave, senhor Mendes – disse Toledo imediatamente. Depois prosseguiu na informação. – Um dos vossos vendedores teve um acidente. Só queria saber há quanto tempo o senhor Fernando Ferrão trabalha na vossa casa.

– Um momento, se faz favor.

Entretanto, o polícia ouvia remexer em papéis, e logo a seguir a voz do senhor Mendes: – Há dezassete anos que o senhor Ferrão está ao nosso serviço.

E… Estão satisfeitos com ele? Sempre foi vendedor camionista?

– Que pergunta tão estranha! Sim! Se assim não fosse, não estaria cá há dezassete anos. O senhor Ferrão é de todos os nossos agentes de vendas o mais sério e mais diligente e sempre teve carro.

– Muito obrigado. Era tudo quanto precisava saber.

Logo a seguir o senhor Ferrão foi de novo chamado ao gabinete.

– Então, senhor guarda, como se encontra a mulher?

– Não se aflija, senhor Ferrão. A mulher fez realmente uma fractura na perna e nada mais, mas daqui a semanas já estará recomposta e esquecerá o acidente. Os «Seguros» chegarão a acordo.

O senhor Ferrão tornou a enxugar o suor da testa.

– Graças a Deus!

– E agora vamos ao outro assunto.

Ferrão ficou perplexo.

– Ao «outro» assunto? Mas que assunto? As testemunhas disseram alguma coisa contra mim?

– Este assunto não tem nada a ver com o acidente, isso vai ficar arrumado por natureza, senhor Ferrão.

Fernando Ferrão arregalou os olhos. E, de repente, toda a cor lhe desapareceu do rosto…

– Não tem nada a ver… com o acidente? – perguntou com dificuldade.

– Não podemos evitar um pequeno passeio juntos…

– Não percebo nada, senhor guarda. Onde quer ir?

– À polícia criminal, senhor Ferrão. Há lá uma secção…

Nesse momento o rosto de Ferrão ficou cinzento, encovado. Os braços penderam-lhe, inertes.

– À polícia criminal… – murmurou ele, em voz sumida.

– Sim. Infelizmente…

 

PERGUNTA-SE:

De que outro assunto se tratara? Escreva tudo o que lhe vier à cabeça e, apresente a sua teoria.

 

SOLUÇÃO (não publicada)

© DANIEL FALCÃO