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22 de Março de 1957. É
publicado, na revista “Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”,
orientada por Jartur – curiosamente, por lapso
tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos Cabral, com 15 anos completados
recentemente, responde ao problema naquela inserido
– “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o “namoro” que à
modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto com a Secção do
“Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo, por isso, que era habitual o uso de
pseudónimo, e perante a dificuldade que sentiu na escolha, rápida, de um,
acabou, por associação, por perfilhar o “Inspector
Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias), concebido
pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube do Aranhiço”. Escolha pouco feliz,
de facto, já que ninguém inicia a construção de um edifício pelo telhado e o
principiante começava, nada modestamente, por se designar “Inspector”… De qualquer forma, iniciou–se,
assim, um longo caminho… In Mundo dos
Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 27 de Agosto de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA
POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL (do livro com o mesmo título, a
editar) 51 2º PARTE – CICLO L. FIGUEIREDO SECÇÃO “O LEITOR É
SHERLOCK HOLMES?” 6º PROBLEMA: O
RAPTO DO “CARLINHOS” Alteramos hoje a ordem porque tencionávamos
apresentar os nossos problemas policiais para referir uma ocorrência recente em
que interviemos. Curta permanência no Porto permitiu que os nossos serviços
fossem utilizados no esclarecimento do caso que há dias emocionou a capital
do Norte, conhecido do público pelo "rapto do Carlinhos". Para a exposição do assunto precisamos recorrer a
alguns antecedentes. Vivia feliz o abastado comerciante e industrial
daquela praça Renato Via-Longa com sua mulher e
dois filhos, Ricardo de 11 anos e Carlos de 9, por quem a mãe tinha especial
preferência. O palacete que habitavam em Paranhos tornara-se
centro de reuniões elegantes. A firma Via-Longa,
Lda. Inspirava tanta confiança na praça quanta simpatia infundia à vida
particular da família. Mas, talvez a tolerância de certas liberdades que a
sociedade hoje admite não seja estranha ao assunto, aconteceu há meses, que a
mulher de Renato, depois de 12 anos de vida exemplar de casada, aceitou a
corte de um jovem titular seu assíduo conviva... As relações entre ambos
tomaram aspecto escandaloso e, posto que tarde,
teve o marido conhecimento do caso intentando acção
de divórcio. Concedido pelo tribunal foi conferida ao marido a posse dos dois
filhos do casal, com o que a mãe dificilmente se conformou, principalmente no
que dizia respeito ao Carlos, tratado familiarmente por
"Carlinhos". Há dias, e coincidiu o caso com a nossa passagem
pelo Porto, onde travámos relações de momento com Renato Via-Longa,
recebeu esta aflitiva comunicação telefónica de "fraulein"
Dahert a cujo cargo estavam os pequenos de que
andando os dois a brincar na quinta, anexa ao palacete, tinham desaparecido. Renato estivera momentos antes connosco no
"bar" do "Passos Manuel" conversando sobre os problemas
policiais do "Notícias Ilustrado", onde nós continuamos com alguns
amigos, quando regressou ao seu escritório na Rua de Santa Catarina. Recebida a desoladora nova, meteu-se no automóvel
de corrida que tinha à porta do escritório e, lembrando-se que lhe pudéssemos
ser úteis veio buscar-nos ao "Passos Manuel" levando-nos numa
velocidade vertiginosa até ao seu palacete de Paranhos, de forma que se pode
dizer que entre a recepção da comunicação
telefónica e a nossa chegada não decorreram senão alguns minutos. Alvoroçara-se o pessoal da casa e Renato,
desolado, não atinava com o caminho a seguir. Veio a hipótese de desastre, buscando a busca
metódica pela propriedade. A "fraulein"
perante as investidas do pai, desculpara-se com o
facto de ser costume os meninos irem brincar para a quinta sem que, até ao
presente, lhes houvesse sucedido qualquer percalço. Dirigíamo-nos então à casa destinada à guarda das
ferramentas quando o hortelão reparou que a porta estava fechada a cadeado ou
"loquete", como disse, de acordo com o termo usado no Norte, o que
não era costume, e ouvimos gritos aflitivos que partiam de lá. Arrombada a
porta encontrámos o Ricardo muito atrapalhado e sem que a princípio atinasse
com as respostas a dar as perguntas que lhe faziam. Tendo acalmado um pouco,
contou então que andavam a brincar aos "peles-vermelhas", esperando
ele na sua barraca de "cowboy" o ataque de "Carlinhos"
que era o "pele-vermelha" e que devia vir no seu triciclo. Esperou
em vão e, quando quis abrir a porta, por lhe parecer demasiada a demora do
irmão, encontrou-a fechada por fora. Ainda julgou que tivesse sido
brincadeira dele, mas o tempo passava e não ouvindo vivalma começou a gritar
aflito sem perceber o que sucedera. Não sabia contar mais nada nem dar-nos qualquer
indicação sobre o paradeiro do "Carlinhos".
Próximo da casa das ferramentas encontrámos uma
grande mistura de pegadas, devidas algumas decerto à pessoa ou pessoas que
tinham fechado a porta, além de outras dos que andavam nas pesquizas, pelo
que não nos foi possível chegar por este lado a qualquer conclusão. Seguindo os sinais do triciclo, caminhamos até
uma pequena cancela verde que havia no muro que cercava a propriedade que
estava fechada à chave. Da parte de dentro e a um dos lados encontrámos o
triciclo do "Carlinhos" e na direcção da
cancela as pegadas deste e outras de calçado de homem. Passada a vedação
prosseguiam essas mesmas pegadas e as do pequeno, mas agora, mas agora
acompanhadas por outras de mulher e todas terminavam ao pé dos rastos dos
pneumáticos dum automóvel. A azinhaga com que esta parte da propriedade
confinava tinha a orientação N. E. - S. W.. Para S. W. era plana e assim
continuava em grande extensão. Para N. E. tinha uma grande descida. Encontrámos os rastos dos pneus marcados no chão
um pouco pastoso devido às últimas chuvas, mostrando a gravura como o relevo
deles os desenhou nitidamente. Não nos restava a menor dúvida que o pequeno
seguira no automóvel e Via-Longa atribuiu, com
muita razão, o rapto à sua ex-mulher, tanto mais que lhe parecia possível que
houvesse conservado alguma chave da cancela. O pai pretendia seguir a criança e os raptores e
o seu automóvel de corrida prestava-se maravilhosamente para tal desígnio. Examinámos atentamente os rastos dos pneus porque
por eles nos pareceu fácil ver a direcção que o
carro levara. Não havia sinal de que tivesse feito qualquer nas proximidades,
quer dizer, viera de um lado e seguira para outro. Renato temia que em qualquer dos vapores a partir
de Leixões a ex-esposa se ausentasse com o filho para o estrangeiro. Para
isso devia seguir a azinhaga no sentido S. W.. Admitia, porém, a hipótese de
uma fuga para as propriedades do pai, próximo de Santo Tirso, o que
justificava a direcção N. E..
Patenteou-se-nos, pois, o problema da mesma forma que o propomos hoje aos
nossos leitores, a quem muito agradecemos o grande interesse demonstrado
pelos nossos problemas policiais. Pergunta-se: 1º – Para que lado da azinhaga seguiu o
automóvel? 2º – Como é que do exame dos rastos dos pneus
chegamos à conclusão da direcção tomada pelo carro? * * * SOLUÇÃO DO
PROBLEMA: 1º – O carro seguira a direcção
N. E. 2º – Vê-se a direcção que
o automóvel seguiu examinado os rastos dos pneus. No caminho plano deixam o
relevo gravado regularmente e com a mesma intensidade seja qual for a direcção em que sigam. Na descida a gravação do relevo dos pneus
torna-se mais acentuada na sua parte anterior, isto é, aquela que fica na direcção do vale, devido ao peso do carro. Se o automóvel tivesse subido ficaria na mesma
mais acentuada a parte anterior do relevo, isto é, a que nesse caso estaria
voltada para o cume do monte, mas devido ao esforço do carro na subida,
superior aqui à solicitação do peso. Querendo, pois, saber a direcção
que um automóvel subiu não nos é fácil consegui-lo em terreno plano. Mas,
desde que examinemos os rastos nume pendente, a forma descrita permite-o
facilmente. Este critério é seguido pela polícia científica
da Suíça e assinalado no livro “The Man Hunters”, de Melville Davisson Post. O carro como não tinha dado qualquer volta viera
de S. E. e seguira para N. E., caminho das propriedades do pai da ex-mulher
de Renato, em Santo Tirso. Isso nos foi confirmado pela perseguição que
fizemos aos fugitivos, encontrados próximo de Camposa, na estrada que vai
para aquela vila.
Fontes: Secção Correio
Policial, 27 de Agosto de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 15 de Janeiro de 2026 | Luís Rodrigues |
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