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22 de Março de 1957. É
publicado, na revista “Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”,
orientada por Jartur – curiosamente, por lapso
tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos Cabral, com 15 anos completados
recentemente, responde ao problema naquela inserido
– “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o “namoro” que à
modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto com a Secção do
“Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo, por isso, que era habitual o uso de
pseudónimo, e perante a dificuldade que sentiu na escolha, rápida, de um,
acabou, por associação, por perfilhar o “Inspector
Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias), concebido
pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube do Aranhiço”. Escolha pouco feliz,
de facto, já que ninguém inicia a construção de um edifício pelo telhado e o
principiante começava, nada modestamente, por se designar “Inspector”… De qualquer forma, iniciou–se,
assim, um longo caminho… In Mundo dos
Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 3 de Setembro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA
POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL (do livro com o mesmo título, a
editar) 52 2º PARTE – CICLO L. FIGUEIREDO SECÇÃO “O LEITOR É
SHERLOCK HOLMES?” 7º PROBLEMA: O
FAROL MISTERIOSO Seja-nos hoje permitida uma pequena digressão
pelos casos policiais que teem apaixonado a opinião
pública da Norte América, apresentando aos leitores o problema que
intitulamos "O Farol Misterioso" que julgamos digno da sua atenção. Em Dead Man's Harbor, na baía de Fundy, há um pequeno povoado com duzentas almas,
aproximadamente. Na preamar fica uma península rochosa a cinco metros acima
do mar, mas como as marés chegam a ter aqui uma diferença de nível de
aproximadamente 10 metros, na baixa-mar apresenta-se sobre um promontório que
emerge 15 metros das águas, ficando também a descoberto a ilhota, em que está
construído o farol e que tem 11 metros acima da restinga de areia que a liga
à terra firme. Na baixa-mar, e durante 40 minutos, pode-se
atravessar da aldeia para o farol a pé enxuto usando as escadas de ferro que
dos dois lados permitem vencer o desnivelamento. Na noite do desaparecimento do faroleiro Williams
a praia-mar foi às 11 h. e 51 m., isto é, depois de
o ajudante Cubb se retirar para casa, no povoado. O sinal acústico começou a funcionar pouco antes
das 11, quando um nevoeiro cerrado envolveu o porto e ouviu-se, durante toda
a noite, com lúgubre isocronismo. Na manhã seguinte Daniel Cubb
foi render o superior, descendo a escada do penhasco e atravessou a restinga
a caminho do farol. Notou, porém, que na areia húmida, mas dura havia um
largo sulco pouco fundo, rasto de uma tábua de 15 polegadas. Este sulco
começava ao pé da escada de ferro da aldeia e ia até às 'ribas da ilha do
farol. O ajudante entrou no farol às 6 h. e 1 m. da manhã. Subiu a escada e
chamou pelo chefe, admirado que ele não viesse ao seu encontro como se
costume. Procurou por todos os recantos sem lograr encontrá-lo. Correu à
barraca do escaler e não viu sinal que dele se houvessem servido. Os remos
arrumados e secos confirmavam que não fora utilizado. O ilhéu é pequeno, completamente coberto de relva
e tem noventa metros de diâmetro, sem qualquer esconderijo. O ajudante de faroleiro dirigiu-se ainda às
escarpas e nem na rocha lisa nem na areia húmida e tão denunciadora que
cercava o ilhéu por todos os lados havia qualquer vestígio, além do sulco que
observara anteriormente. Pediu então auxílio aos habitantes da aldeia e
com eles percorreu novamente o ilhéu e o farol sem achar indícios novos,
sinais de luta ou crime. É de notar que o ajudante Cubb
não se podia tornar por qualquer forma suspeito. Por ser bem conhecida a sua
seriedade e excelente caracter assim como a amizade que dedicava ao chefe. O sinal acústico de nevoeiro ainda-funcionava
apesar de ter clareado o tempo alguns minutos antes da baixa-mar, e o motor
que necessitava de ser abastecido de 2 em 2 horas ainda tinha gasolina
bastante para trabalhar 1 hora, às 6 e 5 minutos, quando o ajudante o
examinou. Às 6 e 20 a maré já enchia rapidamente. Fez-se à pressa nova observação inútil ao sulco
agravado na areia para se ver se próximo dele haveria quaisquer pegadas. À maneira que as horas passavam o mistério
adensava-se, inexplicável e embaraçoso e para alguns pescadores e marítimos
tomava já aspecto sobrenatural.
Aonde estaria, pois? Que lhe teria sucedido? Ninguém se atrevera a aventar a hipótese que
funcionário, escravo do dever como ele, abandonasse o lugar sem qualquer
explicação. Admitindo que se tratasse de crime não era crível
que o assassino tivesse transportado o corpo até próximo da aldeia, subido
com ele as escadas, para ocultar em qualquer ponto
arborizado e solitário das proximidades. A busca feita nos arredores também não deu
resultado. Nesta ocasião veraneava nas proximidades M.
Jacques, um antigo "detective" da "Soureté Générale" francesa
onde prestara relevantes serviços e que se celebrizara na descoberta de um
crime retumbante praticado em Marselha. Tendo-lhe constado o desaparecimento do faroleiro
Williams ofereceu os seus serviços às autoridades locais que de bom grado as
utilizaram e depois de examinar o cenário do local provável do crime, ouvir
testemunhas e tomar em consideração o que expusemos, deixou todos boquiabertos
quando afirmou: "Assassínio premeditado e perpetrado com todas as
precauções". M. Jacques acrescentou com segurança que o crime
tinha sido praticado por alguém que o planeara cautelosamente e descreveu as
circunstâncias em que se devia vir a encontrar o cadáver do faroleiro,
acrescentando pormenores interessantes da tragédia. Daí a 15 dias confirmaram-se as suposições de M.
Jacques quanto à descoberta do cadáver e o misterioso assassino do faroleiro
foi preso devido simplesmente ao acaso pela polícia de Scraton,
no estado na Pensilvânia. Pergunta-se: 1º – Como concluiu o "detective"
francês que houvera crime? 2º – Como se chegou o assassino à ilha? 3º – Como se desembaraçou do cadáver do faroleiro? 4º – Como deixou a ilha depois do crime? 5º – Quais as probabilidades a admitir a
propósito da descoberta do corpo do faroleiro Williams? L. FIGUEIREDO * * * SOLUÇÃO DO
PROBLEMA: 1º – Duas únicas formas havia para e-plicar o
desaparecimento do faroleiro Williams; desertara ou fora vítima de cri-me. M.
Jacques inclinou-se para a hipótese de crime, justificando a sua opinião com
facto manifesto de que, quem vier da ilha na baixa-mar, tinha
propositadamente feito desaparecer as pegadas da areia arrastando sobre elas
uma tábua. Esta suposição era ainda confirmada porque se a tábua tivesse sido
levada casualmente devia haver pegadas de quem a trouxera e, não aparecendo
estas, era sinal de que se pretendera fazê-las desaparecer. Como o escaler
estava na ilha, era certo que não fora utilizado pelo faroleiro para se
ausentar e, não tendo este sido visto no povoado, não desaparecendo por esse
lado. Tratava-se, pois, de crime, vendo-se (adiante como o assassino se
desfez do corpo e corno desapareceu. 2º – O assassino devia ter chegado à ilha num
bote no começo da praia-mar quando o nevoeiro já estava cerrado e, com todas
as probabilidades, pouco antes das 11 horas. 3º – O assassino desembaraçou-se do cadáver do
faroleiro abandonando-o dentro do barco em que se transportara à ilha a remos
e na baixa-mar para que fosse levado para o largo. Planeara talvez levá-lo
consigo no bote para o deitar ao mar, mas desistiu por recear perder-se no
nevoeiro. 4º – O assassino foi da ilha a pé pela restinga
de areia aproveitando a baixa-mar, arrastando a tábua atrás de si para
desfazer as pegadas e não ser descoberta a direcção
que levava. Era a única forma de não se perder devido ao nevoeiro. 5º – O corpo do faroleiro deveria ser encontrado
no barco por qualquer navio ou ao longo da costa pelos pescadores. Passados
15 dias sobre o assassínio assim sucedeu, tendo-o recolhido o vapor de carga
"Water Nymph",
verificando-se que a morte fora provocada por tiro no coração. O bote tinha o
nome cuidadosamente coberto por uma camada de tinta que a polícia fez
desaparecer, descobrindo a palavra "Dodger".
Este nome pouco vulgar permitiu encontrar o dono. Veio a saber-se que este
era o marinheiro Jacobs, que navegara há mais de 12
anos sob as ordens do faroleiro, nesta ocasião oficial da marinha mercante,
sendo então sido cabeça de uma sublevação a bordo que William dominou
energicamente. Jacobs fora preso nessa ocasião a
ferros e cumprira dez anos de prisão. Confessou, quando interrogado, que, desde o momento em que fora preso, jurara vingança no seu
íntimo, pensando sempre na libertação para liquidar quem julgava que o
perseguira. A morte do faroleiro William levou-o à cadeira eléctrica.
Fontes: Secção Correio
Policial, 3 de Setembro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 31 de Janeiro de 2026 | Luís Rodrigues |
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