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22 de Março de 1957. É
publicado, na revista “Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”,
orientada por Jartur – curiosamente, por lapso
tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos Cabral, com 15 anos completados
recentemente, responde ao problema naquela inserido
– “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o “namoro” que à
modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto com a Secção do
“Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo, por isso, que era habitual o uso de
pseudónimo, e perante a dificuldade que sentiu na escolha, rápida, de um,
acabou, por associação, por perfilhar o “Inspector
Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias), concebido
pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube do Aranhiço”. Escolha pouco feliz,
de facto, já que ninguém inicia a construção de um edifício pelo telhado e o
principiante começava, nada modestamente, por se designar “Inspector”… De qualquer forma, iniciou–se,
assim, um longo caminho… In Mundo dos
Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 10 de Setembro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA
POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL (do livro com o mesmo título, a
editar) 53 2º PARTE – CICLO L. FIGUEIREDO SECÇÃO “O LEITOR É
SHERLOCK HOLMES?” 8º PROBLEMA: QUEM
ASSASSINOU O INGLÊS WHITE? Corria ameno Setembro de 1926 na Figueira da Foz.
Entre os arbustos de um jardim, não longe dos Casinos, foi encontrado o
cadáver do súbdito inglês Edward White, jogador
profissional que há semanas estava hospedado num dos principais hotéis. O sub-inspector de
saúde que examinou o corpo de White verificou que
fora vitimado há seis horas pelo menos, por uma bala de pistola que lhe
entrara pelas costas em direcção ao coração,
dando-lhe morte quase instantânea e sem que o fato se apresentasse chamuscado.
Nas algibeiras, que tinham evidentemente sido rebuscadas, achava-se a
carteira com bastante dinheiro e um valioso relógio de oiro. Não houve forma
de encontrar a pistola. Junto de um maciço de verdura havia muitas
pegadas que condiziam com a de White, indicara que
andara ali durante bastante tempo para trás e para diante. No chão havia três
pontas de cigarro "Gold Flake", iguais
aos que estavam na cigarreira de White. Não restava
dúvida de que esperava ali alguém durante tempo apreciável. No local do crime
havia ainda um fósforo queimado, uma caixa de fósforos vazia, um bocado de
cartão fino quase completamente queimado e com letras legíveis, como se vê no
desenho. Os agentes encarregados da investigação
concluíram que aqueles objectos tinham pertencido
ao assassino. White não usava fósforos por não se
encontrar a respectiva caixa, mas sim um luxuoso
isqueiro, que mostrava ter bastante uso. Como a noite do crime fora muito escura e o local
era pouco iluminado, os agentes admitiram que, para a busca nas algibeiras,
teria sido preciso luz. O gatuno acendera o último fósforo da caixa e como
este não chegara alumiou-se com o cartão, cuja proveniência se tornara em
importante questão em resolver. Estaria na sua algibeira, de onde o tirou por
não encontrar na ocasião outra coisa que ardesse? Tendo o assassino abandonado os restos
carbonizados não lhe podia fazer supor que deixava perigoso rasto. Sem que na ocasião calculassem o valor a dar ao
cartão queimado os agentes fizeram buscas ao quarto do hotel em que White estava hospedado. Daqui resultou a apreensão de uma
carta que viera de manhã dirigida à vítima e que fora deitada na noite
anterior no correio. Via-se que fora escrita precipitadamente em
inglês por mão de mulher e dizia: Meu querido Edward Esperei até à última ir ter contigo. Não te apoquentes, tudo se há-de arranjar. Por motivo imprevisto ele veio do jogo
muito cedo e disse-me que fizesse as malas imediatamente. Partimos dentro de
uma hora. É qualquer negócio de bolsa. Conto voltar dentro de cinco ou seis
dias e então iremos para longe, muito longe, para a Índia, África ou Brasil,
para onde quiseres. Vou experimentar mandar-te esta por um “groom”, mas se
for perigoso vai pelo correio. Abraça-te a tua para sempre M. Apresentava-se agora ao agente a dificuldade de
dar com uma mulher que escrevesse inglês cujo nome começasse por M. e
pertencendo a uma família onde houvesse um homem que a tivesse levado para
qualquer parte na noite anterior. O movimento de banhistas era grande e entre
bastantes dezenas que naquela noite tinham partido, de quais se trataria e
para onde tinham ido? O exame das saídas nos registos dos hotéis não permitia
claramente identificar, só por si, quem escrevera a carta, pelo que os
agentes anotaram como principais suspeitos:
2 – Mary Freeman e Fred
Freeman, mulher e marido, de Búfalo, N. Y.,
partiram para Paris; 3 – Manuela Alba Foster
e William Foster, ela de origem espanhola e ele
inglês, casados, partiram para Barcelona; 4 – A família De Ruyter,
de Roterdam, Holanda, composta de pai Andreas De Ruyter, duas filhas,
Miriam De Ruyter e Louisa
De Ruyter e filho Simon De Ruyter,
que partiram para Roma. Todos tinham partido na noite anterior, mas as
informações colhidas nos hotéis pouco mais adiantaram. Das portuguesas que saíram nessa noite não
constava que qualquer escrevesse inglês. A família De Ruyter,
como em geral as pessoas da boa sociedade holandesa, falavam correctamente inglês. O pai era idoso e doente e
permanecera no quarto nessa noite até abandonar o hotel. Simon era descrito
pelas criadas como rapaz pouco corpulento, magro, irrequieto e folgazão.
Estivera no Casino e regressara cedo, tendo dito a um criado que mais uma vez
fora infeliz. Depois de visitar os aposentos da família, tornou a sair sem
que se soubesse mais nada. As informações que se referiam às restantes
famílias foram também difíceis de obter. Os hóspedes do hotel em que tinham
estado descreviam Maud Rhond
como muito elegante e bonita, mas muito sossegada e reservada e o pai como
severo e carrancudo, débil, baixo e coxeando da perna esquerda, cabelo e
bigode grisalhos, deixando perceber que tinham sido loiros. Os Freeman eram dois
jovens americanos aparentemente ricos. A mulher, de feições correctas, viva e alegre que, de pequena estatura,
tornava-se pela sua linda cabeleira de loira. O marido, insinuante, mas pouco falador, era alto
e forte, apresentando-se como todos os anglo-saxões irrepreensivelmente
barbeado. Deveriam ter pouco mais de vinte anos. Sobre os Rhond e Freemans não foi possível apurar o que tinham feito antes
da partida. Manuela Alba Foster era
uma espanhola, que não desmerecia da fama justamente adquirida pelas suas
patrícias. Alegria esfusiante, talhe mediano e de linhas académicas, feições
de beleza pouco vulgar. O marido William era inglês, comerciante, taciturno,
bebedor impenitente de cerveja, gordo fora do vulgar, obeso mesmo, e de uma
corpulência a que bem poderíamos fazer emparceirar com a do nosso querido actor Chaby. Pouco saía durante
a noite, passando os dias na esplanada a contemplar o mar. Os agentes não sabiam que expediente tomar.
Deveriam seguir todas as famílias suspeitas até ao seu destino? Era
trabalhoso e talvez inútil. Tornava-se preciso limitar as investigações. Foi
o que fizeram seguindo o conselho de um “detective”
muito viajado na Inglaterra e na América. Dos lados que o leitor já está de posse deduziu
em que família figurava o assassino que, tendo sido perseguido, foi preso e
perante a reconstituição completa do crime acabou por confessar o assassinato
de Edward White. 1º – Qual das famílias perseguiria o leitor? 2º – Quem assassinou Edward White? 3º – Como o deduziu o “detective”? * * * SOLUÇÃO DO
PROBLEMA: 1º – A família Freeman. 2º – Fred Freeman, o
americano, marido de Mary Freeman foi o assassino
do White. 3º – O “detective”
descobriu-o pelo pedaço de cartão queimado, que reconheceu como parte de um
bilhete de pesagem da Farmácia Barral, em Lisboa, e que nós acima
reproduzimos. A polícia que primeiro tratou do caso concluiu
logo que o assassino tinha tirado da algibeira o que primeiramente lhe viera
à mão para acender no último fósforo que possuía e deduziu da descrição de Freeman que ele devia ter os 98,400 de peso. Das famílias
suspeitas ele era o único homem que se ajustava àquele. Simon Ruyter e Mr. Rhond foram descritos como magos e baixos. Foster, corno exageradamente
corpulento e, portanto, pesado, mais que os 98,400 quilos. Era, pois, mais
lógico seguir os Freemans para Paris que as
restantes famílias. Soube-se depois que Freeman
suspeitava que a mulher mantinha correspondência com Edward White e conseguira apoderar-se de uma carta que este lhe
dirigira. Abriu o sobrescrito com uma faca quente, leu a carta, fechando-a
novamente para que a mulher nada suspeitasse. A carta era a que marcava a entrevista para aquela
noite no jardim para resolverem a fuga e tinha combinado às 9 horas e 30, por
ser a hora a que Freeman estava habitualmente no
Casino. Freeman não se deu por achado, foi para o
Casino como, de costume, mas saiu mais cedo indo dizer à mulher que um negócio
urgente ia requerer a sua apresentação num Banco de Paris, o mais depressa
possível. Acrescentou que pouco se demoraria e ela, para não levantar
suspeitas, acedeu, começando logo a arranjar as malas para a partida. Foi Freeman que se apresentou na entrevista matando White a sangue-frio. Procurou depois rapidamente nas
algibeiras do morto as cartas da mulher que calculava que ele teria consigo,
encontrando três que ajudaram a confirmar a sua culpabilidade. Mary Freeman preferira
enviar a carta pelo correio em vez de a mandar pelo "groom" do
hotel com receio de se comprometer.
Fontes: Secção
Correio Policial, 10 de Setembro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 15 de Fevereiro de 2026 | Luís Rodrigues |
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© DANIEL FALCÃO |
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