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22 de Março de 1957. É
publicado, na revista “Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”,
orientada por Jartur – curiosamente, por lapso
tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos Cabral, com 15 anos completados
recentemente, responde ao problema naquela inserido
– “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o “namoro” que à
modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto com a Secção do
“Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo, por isso, que era habitual o uso de
pseudónimo, e perante a dificuldade que sentiu na escolha, rápida, de um,
acabou, por associação, por perfilhar o “Inspector
Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias), concebido
pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube do Aranhiço”. Escolha pouco feliz,
de facto, já que ninguém inicia a construção de um edifício pelo telhado e o
principiante começava, nada modestamente, por se designar “Inspector”… De qualquer forma, iniciou–se,
assim, um longo caminho… In Mundo dos
Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 24 de Setembro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA
POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL (do livro com o mesmo título, a
editar) 55 2º PARTE – CICLO L. FIGUEIREDO SECÇÃO “O LEITOR É
SHERLOCK HOLMES?” 10º PROBLEMA:
COMO MORREU BARNABÉ LEÃO? Barnabé Leão, velho industrial retirado do
negócio, foi encontrado morto na sua biblioteca com o crânio atravessado por uma
bala de revólver. Teria sido um crime? Se de um crime se trata, quem o
praticou e em que circunstâncias? As respostas a estas perguntas podem
obter-se dos factos que se seguem e do esboço do cenário do crime. Às 9 e 25 da noite de 12 de Janeiro a polícia de
Lisboa recebeu uma chamada telefónica de um homem que falava numa voz
bastante angustiosa: “Daqui fala o criado do sr.
Barnabé Leão. O meu patrão acaba de se suicidar. Encontro-me sozinho em casa. Venham depressa.
Como? 237 da Avenida da República, Sim, senhor. Eu
espero. João Silva, o criado!”. A polícia quando chegou à residência indicada
encontrou o criado e a cozinheira Maria da Conceição esperando ansiosamente à
porta; a criada da cozinha tinha nesse momento acabado de chegar da rua e
apenas há dois minutos que sabia do triste acontecimento. No escritório foram
encontrar o industrial enterrado numa poltrona, morto com uma bala que lhe
tinha penetrado no crânio pelo meio do frontal. Um revólver que mais tarde
foi identificado como pertencendo ao morto foi encontrado no assento da
cadeira de braços entre um dos lados e a coxa esquerda do cadáver, como se
tivesse caído da sua mão. Abaixo da ferida e nas costas dos dedos das duas
mãos do morto havia sinais de pólvora e no revólver foram depois examinadas
as impressões dactiloscópicas que coincidiam com as de Barnabé! Apenas uma bala tinha sido disparada, aquela que
tinha vitimado o industrial, cujo corpo se verificou não ter sido roubado dos
objectos ou dinheiro que possuía. Enquanto a esposa de Barnabé Leão não chegou do
teatro, onde tinham ido chamá-la apressadamente, a polícia interrogou o
criado e a cozinheira. O criado contou a seguinte história: “Não era segredo para ninguém que o seu patrão
perdia actualmente bastante dinheiro na Bolsa,
especulação a que também não era alheia sua mulher. Nas semanas anteriores
ouviu-o ele muitas vezes discutir com sua esposa, invectivando-a
pelas suas extravagâncias e negligência. Ela retorquia-lhe ser ele o único
culpado do desequilíbrio das suas finanças, e acontecia azedarem-se os ânimos
a ponto de não se falarem durante as refeições. Fora o que sucedera nesse
dia. “Madame Leão saiu para o teatro às 8 e 30 e seu
esposo foi para o seu gabinete de trabalho, dois minutos mais tarde, fechando
a porta atrás de si como habitualmente fazia. Levei-lhe o vinho do Porto,
como de costume, apenas ele entrou e saí imediatamente. Permaneci na copa e
na cozinha durante algum tempo esperando que ele me chamasse para qualquer
coisa e, cerca das 9 horas, a cozinheira saiu para ir ver um incêndio no
fundo da Avenida. Ouvia as bombas de incêndio rolarem pela rua com grande
ruído ao mesmo tempo que as buzinas lançavam no espaço um estridor aflitivo.
Durante um quarto de hora ou vinte minutos que este barulho se prolongou,
visto tratar-se de um fogo considerável. Foi então que me lembrei que o sr. Leão podia ter tocado a campainha e que eu não
tivesse ouvido. A campainha está colocada na copa e eu tinha estado a ver o
fogo da janela da cozinha. Entrei na copa e bati na porta do escritório. Não
obtive resposta. Entreabri a porta, espreitei e vi o meu patrão caído no
"fauteuil" como os senhores acabaram de o encontrar, sangrando da
cabeça. Cheguei-me junto dele, tomei-lhe o pulso e vi que estava morto, o que
me levou a sair imediatamente sem que tocasse em qualquer objecto
e telefonando a seguir para a esquadra da polícia. E tudo quanto eu vi. Com
certeza que ele se suicidou durante a passagem das bombas de incêndio, razão
porque não ouvi o tiro”. A antiga serva de confiança da família Leão
afirmou ter estado de facto com o criado João na copa e na cozinha até cerca
das 9 horas. Assegurava que o seu patrão estava vivo até perto das 9 horas,
porque antes de ter deixado a casa para ir ver o fogo ouviu-o tossir no escritório
bem como distintamente, quando ela se encontrava na copa, ter sentido o ruído
que o industrial fizera quando assentara o copo na pequena mesa ao lado da
cadeira onde se sentava. O criado - garantia a cozinheira - estava nessa
ocasião na cozinha. Foi momentos depois que ele ouviu as sirenes do incêndio
e saiu apressadamente para a rua, dizendo ao João que se demoraria uma meia
hora se o fogo fosse grande. Dez minutos mais tarde ouviu-se um segundo
alar-me e fronteiras à casa passaram mais bombas para o incêndio.
Estaria o criado dizendo a verdade? A polícia examinou minuciosamente a superfície
recentemente polida e encerada do sobrado do escritório e verificou que tudo
parecia corroborar o que ele contara. As marcas dos saltos dos sapatos do
industrial iam da porta do vestíbulo à cadeira de braços onde fora encontrado
morto e terminavam aí. Era certo que ele costumava dirigir-se para o escritório
depois do jantar, fechava a porta atrás de si e, muitas vezes, ali se sentava
lendo durante bastante tempo. A porta em questão foi encontrada fechada por
dentro pela polícia. Da porta da copa e na direcção
do corpo do industrial e da pequena mesa havia duas ordens de pegadas para lá
e duas para cá, as quais se ajustavam perfeitamente com os sapatos do criado,
concordando, portanto, com o depoimento que fizera onde disse que apenas duas
vezes tinha penetrado no escritório: a primeira para servir o vinho, e a
última para examinar o corpo. Um exame cuidadoso ao “parquet”
do escritório não revelou outras pegadas, mas os "detectives"
pelas experiências a que procederam, afirmavam que uma pessoa podia ter
palmilhado o chão, descalço e com meias, seio deixar qualquer marca. Madame Leão quando chegou à cena do crime vinda
do teatro confirmou o que o criado dissera à polícia sobre a discussão que
tivera com seu marido, mas negou veementemente que fosse possível ele ter-se
suicidado devido a fracassos financeiros com especulações na Bolsa. Por outro
lado, não havia qualquer outra razão para que alguém lhe desejasse a morte.
Tanto ela como a criada recusaram-se a acreditar que João Silva, o criado,
tivesse conseguido um assassinato na pessoa de seu patrão, dando-se os dois
admiravelmente apesar do criado se encontrar ao serviço da casa há apenas
dois meses. A investigação a que se procedeu mostrou que a
viúva tinha estado no teatro desde as 9 horas até ser chamada quando a
tragédia e que a criada Maria da Conceição tinha efectivamente
estado a ver o incêndio durante o espaço de tempo que afirmara. João Silva
negou abertamente saber outros pormenores da tragédia. Quando lhe perguntaram
se durante o tempo em que esteve na cozinha alguém poderia ter estado em casa
e assassinado o patrão, negou essa possibilidade. Assegurou à polícia que a
porta do vestíbulo e todas as janelas estavam na ocasião fechadas por dentro.
A polícia confirmou este facto. Tem, portanto, o leitor na sua posse todos os
elementos que a própria polícia utilizou na descoberta da morte misteriosa de
Barnabé Leão. O que é que se deduz do mistério? Três dias mais tarde fez-se mais alguma luz sobre
o caso, pela descoberta de certos papéis nos arquivos do falecido e de que o
leitor terá conhecimento quando for publicada a solução. Entretanto, as
perguntas a responder são: 1º – Às mãos de quem Barnabé Leão encontrou a
morte? 2º – Como o deduziu o leitor? * * * Nota: Por falta de espaço, a publicação da
solução deste problema só ocorrerá na próxima semana.
Fontes: Secção
Correio Policial, 24 de Setembro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 7 de Março de 2026 | Luís Rodrigues |
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