|
|
||||||
|
22 de Março de 1957. É publicado, na revista
“Flama”, o 1º número da Secção “O Gosto do Mistério…”, orientada por Jartur –
curiosamente, por lapso tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos Cabral, com 15 anos completados
recentemente, responde ao problema naquela inserido – “O Táxi Misterioso”,
transformando, assim, em “casamento” o “namoro” que à modalidade vinha
fazendo há algum tempo, através do contacto com a Secção do “Mundo de
Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo, por isso, que era habitual o uso de
pseudónimo, e perante a dificuldade que sentiu na escolha, rápida, de um,
acabou, por associação, por perfilhar o “Inspector Aranha”. É que, naquele
problema, o investigador (Marcos Dias), concebido pelo Autor (Jartur), após
resolver o caso, dirige–se para o “Clube do Aranhiço”. Escolha pouco feliz,
de facto, já que ninguém inicia a construção de um edifício pelo telhado e o
principiante começava, nada modestamente, por se designar “Inspector”… De
qualquer forma, iniciou–se, assim, um longo caminho… In Mundo dos
Passatempos, 1 de Setembro de 2007 Correio Policial, 17 de Setembro de 2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA
POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL (do livro com o mesmo título, a
editar) 54 2º PARTE – CICLO L. FIGUEIREDO SECÇÃO “O LEITOR É
SHERLOCK HOLMES?” 9º PROBLEMA:
UM MISTÉRIO NA ÍNDIA Nenhuma terra oferece crimes mais bizarros e
engenhosos do que na Índia. O espírito oriental, quando arquiteta e pratica um
crime, procura algumas vezes desorientar habilmente as autoridades e
embaraçá-las deveras nos processos de que lança mão para o ocultar. O seguinte problema policial é um extracto do
livro de chefe de polícia de Bombaim, Mr. Hardesty Mainwarning, que mais
tarde dirigiu os serviços policiais de Londres. Na sua obra intitulada
“Loking Banckward”, o famoso “detective” escreve: “Nos fins do verão de 1879, pouco depois de eu
ter tomado posse do meu lugar em Bombaim, foi pedida a minha assistência por
um oficial indígena de Banoorah, para o aconselhar a decifrar um caso
misterioso que estava preocupando deveras a opinião pública daquela
localidade. “Cerca de dez dias atraz um benquisto comerciante
de Banoorah tinha, certa noite, desaparecido misteriosamente quando
transportava uma invejável quantia em rupias. Desde a manhã seguinte ao seu
afastamento que nunca mais o comerciante deu sinal de vida, pelo que a viúva
aflita e alarmada pediu a intervenção da polícia local. Havia razão de sobra
para suspeitar que ele tivesse sido assassinado visto o comerciante ser
considerado uma presa preciosa para os envenenadores de profissão que nesse
tempo infestavam a região. “Entre outros em quem recaíam as suspeitas
figurava um antigo servo do mercador indiano, conhecido pelo nome de Haji Lal
Deb. Havia mezes que ele tinha sido despedido sob a acusação de se apoderar
de géneros alimentícios e embora as autoridades nada tivessem apurado da
culpabilidade do servo instintivamente asseguravam que ele alguma coisa sabia
da questão. “Na Índia, mais do que em qualquer outra parte,
não bastava desconfiar de um criminoso, era preciso provar a sua
culpabilidade. Haji era, na presença das autoridades, uma autêntica rocha granítica
donde não era possível arrancar a mais pequena informação sobre o paradeiro
do mercador, quanto mais a confissão. O ex-servo convenceu, pela sua atitude,
o oficial indígena não ter a menor ideia do que se tinha passado e, no que
dizia respeito a outras investigações, nada mais se pode adiantar ao
misterioso desaparecimento do rico comerciante. “Mas, no dia da minha chegada a Banoorah – umas
duas semanas após o acontecimento – uma mulher indígena da mesma cidade, veio
com a seguinte história para o oficial investigador. Primeiramente quis
explicar os motivos porque não viera mais cedo, dizendo ter estado doente e
nada até aí lhe ter constado do crime. “Na manhã seguinte, muito cedo, a seguir ao
desaparecimento do comerciante, ela recordava-se de rer encontrado Haji Lal
Deb caminhar apressadamente de um certo ponto isolado dos subúrbios da cidade
e afirmava tê-lo visto transportar aos ombros uma enxada. A mulherzita dizia
que, nessa ocasião, caminhava ela também com bastante pressa porque a mãe se
encontrava doente com uma epidemia que então assolava o distrito e que, por
esse motivo, não ligara importância de maior ao incidente. Haji Lal Deb –
lembrava-se muito bem – caminhava em direcção à sua cabana localizada fora
das portas da povoação. “Após esta narração um lampejo de triunfo brilhou
nos nossos olhos e tanto eu como o polícia Investigador dirigimo-nos
imediatamente para a cabana referida e aí fomos encontrar no meio de uma
calma, impassível e aparentemente inocente o antigo criado desaparecido. “Com grande espanto da nossa parte ele confessou
efectivamente ter percorrido o local onde a mulher o vira e ter-se servido de
facto de uma enxada que ele transportava com o fim simplesmente de abrir a
sepultura de um primo da sua mulher, um pobre velho que na noite antecedente
morrera vitimado pela peste e cujo nome era Sahid. Se não acreditassem
poderiam ir com ele junto do coval para se certificarem do que acabava de
afirmar. “Podia muito bem ser que Haji Lal Deb estivesse a
dizer a verdade visto que as mortes dos indígenas nessa época eram em número
assustador e era costume enterrarem-se os mortos rapidamente como medida
profiláctica. Informámo-nos do sucedido e averiguou-se ter efectivamente
morrido de peste um primo da mulher de Haji Lal Deb, de nome Sahid, pouco
mais ou menos na mesma altura em que o mercador desaparecera. “Contudo, pareceu-nos prudente não abandonar por
aqui a questão e, acompanhados de Haji Lal Deb, dirigimo-nos para o local da
sepultura onde de facto os cavadores de que nós nos servimos ainda não tinham
cavado numa profundidade de quarenta centímetros quando apareceu o cadáver do
velho Sahib. “Eu, por minha parte, encontrava-me profundamente
envergonhado com o fracasso das minhas investigações e, acompanhado do
polícia, retirámo-nos pedindo perdão a Haji Lal Deb, gratificando-o pelo
vexame sofrido. Pensámos então ir procurar noutro ponto a solução do
mistério. “Além de Haji Lal Deb figuravam outros suspeitos
e tencionávamos investigá-los, servindo-nos de uns dados insignificantes que
possuíamos, quando nos chegou uma informação que para nós foi de grande
importância. Foi-nos fornecido por um filho de um vizinho de Haji a quem
contara as nossas lamentações pelo fracasso das nossas investigações. “O primo da mulher de Haji Lal Deb – era a
informação – tinha falecido no dia anterior ao desaparecimento do
comerciante. A maneira como Mainwarning descobriu o mistério e
culpou Haji Lal Deb é um dos casos mais interessantes da polícia de Bombaim. As perguntas a fazer são as seguintes: 1ª – Como suspeitou Mainwarning que Haji era
culpado? 2ª – De que maneira "provou" ele que o
servo do mercador era o único assassino? L.
FIGUEIREDO * * * SOLUÇÃO DO
PROBLEMA: 1º – Mainwarning definiu que Haji Lal Deb era o culpado
pela mistificação de que ele se serviu quando da morte do primo da sua
mulher, o velho Sahid. Para Mainwarning só um forte motivo levaria o antigo
servo do mercador a conservar em casa, durante quase dois dias, o cadáver de
uma pessoa atacada de peste. A coincidência de reter o cadáver sem o enterrar
e o desaparecimento do rico comerciante era um facto de grande importância
para suspeitar de Haji; evidentemente que o criado tinha retardado o
enterramento do parente com o fim de se aproveitar dessa circunstância para
mascarar qualquer outra operação tenebrosa e tanto assim foi que ele que ele
mentiu dizendo que o velho tinha morrido na própria noite do desaparecimento
do comerciante. 2º – Mainwarning provou a culpabilidade de Haji
Lal Deb cavando directamente por baixo da sepultura de Sahid. Aí, uns quatro
pés abaixo do corpo do velho, lá se encontrava o cadáver do mercador… A autópsia revelou que o rico índio tinha sido
envenenado com uma erva chamada "datura", que cresce nos campos da
Índia e da qual uma pequena dose de vinho que com ela se fabrica é o bastante
para rapidamente fazer perder a memória a quem a beba. Uma dose elevada é
fulminante.
Fontes: Secção
Correio Policial, 17 de Setembro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 28 de Fevereiro de 2026 | Luís Rodrigues |
|||||
|
© DANIEL FALCÃO |
||||||
|
|
|
|||||