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22 de Março de 1957. É publicado, na revista “Flama”, o 1º
número da Secção “O Gosto do Mistério…”, orientada por Jartur – curiosamente,
por lapso tipográfico, identificado como “Mr. Dartur”. Domingos
Cabral, com 15 anos completados recentemente, responde ao problema naquela
inserido – “O Táxi Misterioso”, transformando, assim, em “casamento” o
“namoro” que à modalidade vinha fazendo há algum tempo, através do contacto
com a Secção do “Mundo de Aventuras”, de que era leitor há alguns anos. Sabendo,
por isso, que era habitual o uso de pseudónimo, e perante a dificuldade que
sentiu na escolha, rápida, de um, acabou, por associação, por perfilhar o
“Inspector Aranha”. É que, naquele problema, o investigador (Marcos Dias),
concebido pelo Autor (Jartur), após resolver o caso, dirige–se para o “Clube
do Aranhiço”. Escolha pouco feliz, de facto, já que ninguém inicia a
construção de um edifício pelo telhado e o principiante começava, nada
modestamente, por se designar “Inspector”… De
qualquer forma, iniciou–se, assim, um longo caminho… In Mundo dos Passatempos, 1 de Setembro
de 2007 Correio Policial, 3 de Dezembro de
2021 |
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA por DOMINGOS CABRAL
(do livro com o mesmo título, a editar) 64 3º PARTE – CICLO SECÇÃO “PROBLEMA
POLICIAL” – DE A. ARAÚJO PEREIRA SEMANÁRIO JUVENIL “O MOSQUITO”
Problema n° 11 Lembram-se da viagem que
o nosso Inspector Rosan fez? Aquela em que se esqueceu da chave do
receptáculo postal? Pois quando regressou dessa viagem, a esposa de Rosan
comemorou o facto com um chá para o qual convidou alguns amigos. Entre estes
estava o velho Pigmalião, que regressara de África há pouco tempo e que não
resistiu à tentação de descrever algumas das suas façanhas. – Uma tarde, – disse ele
– durante uma caçada aconteceu-me a mais extraordinária aventura que podem
imaginar. Estava numa das margens de um rio, quando, ao ouvir um ruído,
deparei com um tigre que furioso avançava para mim. Aperrei a arma, mas não
tive tempo de disparar porque o tigre saltou sobre mim. Rápido, como um
relâmpago, deitei-me no chão e a fera, com a velocidade adquirida, foi cair
na boca dum crocodilo que se encontrava no rio, perto da margem. Eu então… – Basta!,
gritou Rosan, interrompendo-o, – o nosso amigo Pigmalião está a intrujar-nos. Problema n° 12 1° – O senhor Malgon
vive numa graciosa vivenda isolada, em companhia de um criado, o fiel João,
ao qual uma tarde dá ordem de lhe arranjar a mala, pois tenciona fazer uma
pequena viagem. 2° – João, ao fazer a
limpeza, encontra uma ponta de cigarro, que o senhor Malgon, por inadvertência,
deitou no tapete. 3° – No relógio
eléctrico, que funciona ligado à corrente central da vivenda, são
precisamente 8 horas e um quarto, quando ambos saem. No momento de sair, João
corta no quadro geral a corrente eléctrica. 4° – Malgon, porém, não
vai muito longe, dá a volta e entra cautelosamente em casa. A vivenda está no
seguro e ele pretende incendiá-la para o receber. 5° – Acende um fósforo,
ensopa em benzina alguns trapos e incendeia-os. Ninguém o observou. Alguns momentos
depois, os transeuntes, vendo o fumo que sai das janelas, dão o alarme. Os
bombeiros acorrem rapidamente e extinguem o fogo, que apenas causou pequenos
estragos. 6° – Quando João
regressa encontra à porta da vivenda, o nosso célebre Inspector Rosan.
Entraram e ao ser interrogado João declara estar convencido de que o incêndio
pode ter sido provocado por qualquer ponta de cigarro caída no chão, e que
saíram ambos às 8 e um quarto. 7º – Malgon, que se
julga a coberto de todas as suspeitas, regressa tranquilamente a casa. E é
enorme o seu espanto quando Rosan lhe diz: – Por que razão voltou a
casa depois de ter saído com o seu criado? Não tendo o criado João
dito mais nada e não tendo sido Malgon observado por ninguém, o que terá
induzido o Inspector Rosan a crer que Malgon voltara a casa? * * * Explicação
necessária: Os problemas que hoje
inserimos foram originalmente divulgados com ilustrações – como a maior parte
dos que integraram esta série do “MOSQUITO”; o n° 11 com uma gravura, da
autoria de “Stuart”, e o n° 12 com seis – que lastimamos não poder também
reproduzir porque as cópias que possuímos não reunirem as condições para o
efeito. De resto, já na publicação inicial a qualidade era bastante má… Amenizará esta
impossibilidade o facto de, quer num quer no outro caso, essas ilustrações
não serem indispensáveis de todo à resolução dos problemas, razão porque
decidimos manter a sua publicação. E assim, vamos às soluções: Solução do nº
11 Pigmalião estava a
mentir porque… em África não há tigres… Solução do nº
12 O que induziu o
Inspector Rosan a crer que Malgon tinha voltado a casa, foi o relógio. Quando
saíram, às 8 e um quarto, a corrente foi fechada e o relógio parou. Quando
Malgon entrou em casa para a incendiar, abriu o quadro geral da
electricidade, tendo o relógio continuado a trabalhar. A hora declarada por
João não condizia com a que o relógio marcava quando Rosan entrou na vivenda. * * * POLICIAL ou POLICIÁRIO? A questão é-nos colocada
por um leitor: porque, nesta modalidade, usamos o vocábulo policiário em vez
de policial? Embora já
muitas vezes abordada – e esclarecida – transcrevemos seguidamente o que o
reputado linguista Raul Machado publicou, em Abril
de 1954, no Boletim Mensal da Sociedade de Língua Portuguesa: “– Digamos desde já que
pode ser policial e policiário, porque um e outro estão bem formados, como
estão também os adjectivos judiciais e judiciários, ao passo que os outros
dois, trazidos aqui ao tribunal da crítica, não gozam de avançada idade. O adjectivo policial só
aparece registado a primeira vez na 2ª edição do dicionário de Morais (a 1ª,
de 1813, não inclui o termo); encontra-se ele depois em todas as edições até
à 9ª (a 10ª ainda não chegou a essa palavra, nem sequer à letra P). Os
dicionários de Cândido de Figueiredo e o de Caldas Aulete, muito posteriores
ao de Morais, registam igualmente o termo policial. Não custa nada afirmar
que todos os dicionários e vocabulários de maior ou menor categoria (foram
manuseados para este fim doze léxicos diferentes, além dos referidos acima),
todos, sem excepção, arquivam o termo policial. A Enciclopédia
Portuguesa e Brasileira é a primeira publicação lexical portuguesa que
regista o termo policiário, em data bastante recente. Mas note-se que o
vocábulo policiário não vem anotado ali como adjectivo, mas como substantivo,
para significar “instituição restritiva das liberdades sociais ou humanas”; e
cita-se, como abonação para a palavra policiário, um passo de Silva Bastos,
pág. 42, da História da Censura Intelectual em Portugal: “… a Inquisição e o
Jesuitismo, os dois famosos policiários de Contra-Reforma”. É, pois, lícito inferir
que, pela consulta dos registos vocabulares existentes no País, o adjectivo
policiário é um neologismo de criação recente, ainda não incluído nos léxicos
nacionais. Quem terá criado esse
neologismo? Parece que o
termo policiário, como adjectivo, saiu a primeira vez da mão de Fernando
Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro. No dia 13 de Janeiro de 1935, e publicada na “Antologia de Autores
Portugueses e Estrangeiros - Poesia - Fernando Pessoa”, segundo volume, pág.
10, onde se lê a seguinte expressão: “novela policiária”. Criado, esse objectivo
novo tem proliferado largamente em múltiplas expressões, como “problema
policiário”, “colecção policiária”. Formou-se, a par, o substantivo
policiário, que entra em frases como as seguintes: - “uma sátira ao
policiário de concepções americanas?” “O policiário tinha sido desenvolvido
em Portugal com e por Reinaldo Ferreira”; “havia os bons e os maus romances,
como no policiário havia bons e maus autores”, etc. As expressões e frases
agora citadas, com o termo policiário, adjectivo e substantivo, respigaram-se
na Separata n.° 4 (vol. 30) da Colecção XIS. Nesta mesma separata se
observa que, a propósito de uma festa do semanário “Cartaz”, alguém usou, ao
microfone e na representação, dezenas de vezes o termo policial e nem uma só
o policiário. Em outro local, na “História do Conto Policial”, de Vítor
Palla, empregando-se com largueza a palavra policial, acrescenta-se
policiário, dizia Fernando Pessoa. O aparecimento do vocábulo na carta do
poeta da “Mensagem” para Casais Monteiro, a paternidade do termo atribuída a
Fernando Pessoa, o uso recente e abundante da palavra, dão-nos a convicção de
que antes de 1935 não havia penetrado no léxico em Portugal o adjectivo
policiário. Perguntar-se-á agora se
o termo policiário, adjectivo e substantivo, fazia ou faz falta na língua
portuguesa, onde vive, há mais de cem anos, a palavra policial. Notemos,
antes de mais nada, o facto palpável da existência actual de um género novo
de literatura de ficção em que abundam os termos de carácter policial. Notemos, ao mesmo tempo,
que o organismo policial, incumbido oficialmente e legalmente da investigação
policial não intervém nem directa nem directamente na descoberta desses
crimes de fantasia, nem na sua análise, na prisão dos seus autores, nem na
organização dos seus projectos e julgamentos. Tais crimes fictícios
praticados e expostos para matar ócios e para aguçar a perspiscácia policial
dos leitores, existem apenas como imitação e elaboração romanceada de casos
que poderiam, infelizmente, ter acontecido, mas, felizmente, só acontecem na
fantasia. Não são, em suma, a exposição da triste realidade como a lemos e
vemos em livros, jornais e revistas, com narrações pormenorizadas de casos
vividos, que deixam a humanidade consternada e perplexa. Boas descrições
minuciosas e circunstanciadas como enigmas a puxar à subtileza e à argúcia,
ou como charadas para desalentar a paciência de Job, reduzem-se, em última
análise, à pura literatura romanesca. Parece-me, por isso, que
à existência recente desse género literário, ou desta tendência de literatura
de ficção, em livros, jornais e revistas, lhe quadra bem o adjectivo
policiário, recém-criado. Adapta-se perfeitamente essa finalidade literária e
serve para separar dos termos fictícios, romanceados, confirmados à
literatura, o aspecto oficial, legal ou jurídico dos casos reais. Assim,
diríamos “história policiária”, “problema policiário”, “matéria policiária”,
enfim, “literatura policiária”, etc. Isto quanto ao adjectivo. Quanto ao substantivo… Julgo que este deveria empregar-se, não sob a forma
substantivada do adjectivo, masculino (o policiário), mas sob a forma do
feminino (a policiária); e englobaria a (matéria) policiária, a (técnica)
policiária, a (questão) policiária, a (literatura) policiária, etc. É, assim,
que nós empregamos no feminino, segundo a tradição linguística, muitos outros
termos literários e científicos provenientes dos adjectivos femininos; a
gramática, a técnica, a ética, a dinâmica, a acústica, a balística, a
política, etc. O substantivo policiário, no masculino, parece que cheira um
pouco, embora não tresande muito, a francesismo (le policier). Ou talvez não… Seja, porém, como for,
eu por mim inclino-me para o adjectivo biforme, policiário/a, e para o
substantivo a policiária. Mas nas coisas linguísticas quem manda é o uso, que
não a inclinação. Pode dar-se aqui também o que acontece às vezes na moda; a
extravagância e o exagero impõem-se e sobrepõem-se ao gosto.
Fontes: Secção Correio Policial, 3 de Dezembro de 2021 | Domingos Cabral Blogue Repórter de
Ocasião, 31 de Julho de 2026 |
Luís Rodrigues |
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