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CAPÍTULO 3. ESVAÍDO NUM MAR DE SANGUE Detective Jeremias
Tempicos acordou entre uma onda de calor que lhe
atormentava o corpo e um suor frio fininho que lhe percorria a espinha.
“Salvo pelo rádio despertador…” suspirou. As noites dos
últimos dias tinham sido povoadas por uma onírica dança fandanga, em que o
sono era perturbado por um conjunto recorrente de imagens. O mesmo argumento
base, mas com um guião sempre diferente, como os remakes dum filme. Tudo começava
com um vislumbre da Nelinha, ou da Mary Lou, num
transporte público – eléctrico, metro, cacilheiro
ou alfa pendular. Depois de uma curta cena secundária, variável, o sonho
evoluía para o melhor take: Tempicos rodeado de
beldades semi nuas, sempre num tórrido ambiente
escaldante, quer fosse uma paradisíaca praia tropical ou um gélido lago
nórdico. Por fim vinha
a parte do pesadelo que atormentava Tempicos. Uma
voz acordava-o, dizendo que estava a sonhar. Tempicos,
aquecido pelo sonho, virava-se na cama para propor uma sessão de sexo matinal
ao amor da sua vida, e dava de caras com algumas aberrações – uma mulher
barbada de um circo itinerante, uma obesa de 370 quilos com uma imensa lingerie púrpura e até um marinheiro musculoso com o corpo
tatuado. Eram estas as figuras que depois se instalavam em permanência na sua
cabeça, sem lhe darem direito a descanso. Tempicos estava no limite. Todas as noites, um sonho
dentro de um sonho, ou melhor, um pesadelo dentro de um sonho. Era demais!
Isto já para não falar que desde que se conhecia sempre fora namoradeiro, mas
só de mulheres bonitas e fugia de compromissos como o diabo da cruz. Levantou-se,
decidido a pôr um ponto final no assunto. “Hoje não vai ser mais um dia igual
aos outros”– anunciou com determinação. Vagueou
horas sem fim por Lisboa, com o cérebro em permanente efervescência: era
imperioso encontrar uma solução, um novo projecto
de vida. Estava farto de viver de lembranças, dos engates de viúvas – mesmo
as ricas - e das férias nas praias algarvias. “Afinal, o que é que tu queres Tempicos?” – perguntou em voz
alta, espantando os pombos do jardim. Fechou os olhos, reflectiu,
respirou fundo e concluiu sem hesitar: “Quero voltar à investigação, quero as
células cinzentas activas de novo, quero ver sangue
com um leve cheirinho a pólvora, quero …” Chegou à “A Ginjinha” do Largo de São Domingos, num ritual
sagrado que cumpria sempre que estava em Lisboa. E foi aqui que lhe
entregaram a folha cor-de-rosa, “Deixaram cá isto, ontem p’ra
ti”. No papel, uma
letra feminina pedia “Sexta-feira, 20 horas nos Goliardos à Praça da Alegria”
Seguia-se um suplicante “Por Favor” sublinhado três vezes e terminava
assinado por um enigmático “H”. Tempicos consultou o relógio, eram quase sete e meia.
Atirou o dinheiro para o balcão e saiu apressado. “Goliardos…
Goliardos… sugeria uma sociedade secreta”. Tempicos
cravou as unhas na palma da mão. A dor que sentiu deu- lhe a garantia que não
estava a sonhar. Chegou ofegante à Praça da Alegria onde um anacrónico piano
branco estava afogado no lago. Céptico, perguntou a
uma velhota, que passeava um cão, se conhecia os goliardos e, surpreendido
por obter uma resposta rápida, ficou a saber que eram “já aí, logo à sua
esquerda, ao subir a Mãe d’ Água”. Entrou nos Goliardos – Bar garrafeira e
ficou bem impressionado, não era uma tasca manhosa, nem um bar fino para
intelectuais. Um espaço pequeno e agradável acolhia apenas duas ou três
mesas. Um homem com ar de proprietário saiu detrás do balcão e disse com um
leve sotaque: “Estávamos à sua espera. Tenho a mesa preparada ali ao fundo,
no pátio”. Tempicos viu-se sentado na companhia de uma tábua de
queijos e enchidos, um prato com fatias de pão caseiro, dois copos de pé alto
e uma garrafa de vinho tinto. No rótulo “um final de boca persistente e
prolongado…” Pressionou com força o polegar esquerdo sobre a serrilha da faca
dos queijos até sentir dor e ver surgir uma linha de sangue vivo. Safa!
Estava acordado e o “final de boca” dos sonhos era uma premonição. Tempicos nem deu pela chegada da mulher. E que mulher!
Uma amazona! Uma deusa! Um toque de ficção científica dado pelos largos
óculos escuros e pelo fato de cabedal preto colado ao corpo. Só a palidez do
rosto destoava do conjunto, ou talvez não… A mulher, num
agradecimento genuíno, cingiu as mãos (e o polegar enguardanapado
por causa do corte recente) de um Tempicos
embasbacado. “Obrigada,
muito obrigada! Tinha a certeza que viria! Sabe, primeiro foi a minha grande
amiga Mary Lou – que Deus a tenha em descanso – que
me apareceu, em sonhos, despida e com uma bola de luz na mão direita e me
disse, só o Tempicos te poderá ajudar. Nem liguei
muito, porque sou pouco dada a estas coisas dos sonhos. Mas ontem recebi um
telefonema da Lilly, que está a par de toda a minha
vida, e também ela me disse que o senhor era a única pessoa no mundo com
capacidade para resolver os meus problemas. Foi ela que me deu as indicações
para o poder contactar”. A mulher
falava de rajada, enquanto Tempicos beliscava
repetidamente a barriga da perna direita para garantir que estava acordado. “O meu marido
foi assassinado em Janeiro, na nossa casa em Cascais. Morreu degolado,
esvaído num mar de sangue. A Judiciária não encontrou ainda respostas.
Ajude-me, ajude-me, suplico-lhe! Tenho dinheiro. Posso pagar. Pagar tudo
aquilo que quiser. Tenho aqui comigo todos os dados do crime e da
investigação feita até agora.” Finalmente a
mulher fez uma pausa, para abrir uma pasta repleta de folhas e fotos. Tempicos pousou os olhos sobre a primeira foto: um homem
boiava de bruços, numa piscina interior, a água era vermelha. Tempicos beliscou, uma vez mais, a perna e torceu.
Estava, também ele, mergulhado num crime com sangue, muito sangue… “Ai…, Senhor Tempicos, mas que falta de educação a minha! Nem sequer
me apresentei. Chamo-me H… Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 3 de Maio de 2026 TRIÂNGULO
EQUILÁTERO – Uma História de Faca e Alguidar, Edições Fora da Lei, Ano de
2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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