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NUM MAR DE SANGUE | Detective Jeremias Capítulo
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QUANTOS
LADOS TEM UM TRIÂNGULO | Detective
Jeremias |
CAPÍTULO 4. O CASO DO BANQUEIRO DEGOLADO Onaírda
No hall saudou o vigilante/recepcionista,
parou um pouco e deu uma mirada pela porta, à direita, entreaberta para a
sala ampla do sector administrativo. Viram-no e chamaram-no. Quem o fez foi
uma funcionária, que tinha uma certa consideração por ele (e se calhar alguma
paixão secreta, mas Tempicos não misturava assuntos
in love com colegas da instituição). Foi-lhe
entregue um envelope tipo A4 com o seu nome, mas não indicando a procedência.
Mas Tempicos sabia de quem vinha. O envelope foi
rotulado assim: “O caso do banqueiro degolado e atirado para a piscina”.
Investigador Inspector Tempicos.
Solicitar superiormente para que este caso lhe seja distribuído…Tempicos escreveu isto com dificuldade porque na véspera
a faca de cortar queijos tinha feito mossa no seu polegar direito. Tempicos lembrou-se perfeitamente das palavras que lhe
foram dirigidas dois dias antes por madame H no bar “Os Goliardos”da
Praça da Alegria. “O meu marido foi assassinado em Janeiro,
na nossa casa em Cascais. Morreu degolado, esvaído num mar de sangue. A
Judiciária não encontrou ainda respostas. Ajude-me, ajude-me, suplico-lhe!
Tenho dinheiro. Posso pagar. Pagar tudo aquilo que quiser. Tenho aqui comigo
todos os dados do crime e da investigação feita até agora.” Passada uma
hora, e por intervenção do seu colega António Garçôa,
(o teórico Onaírda, só para alguns amigos) o
processo foi posto ao seu dispor, podendo prosseguir com a investigação. Para
a brigada que tinha o processo em seu poder foi um alívio do
“caraças”. Era um rosário de ilicitudes financeiras e havia muitos
envolvidos – cúmplices - e assim seria um trabalhão para se obterem certidões
a fim de se esclarecer os ambages da rede. Tempicos demorou cerca de três dias a pôr na memória os
acontecimentos e a enquadrá-los analiticamente. Já tinha os neurónios
cansados e as células cinzentas a esboroarem-se. As três mulheres do clã
Purificação tinham feitos estragos na sua psique. E curioso é que foi
comparando, de cada uma por sua vez, as mulheres envolvidas no caso e
encontrou mais semelhanças do que diferenças com o clã feminino dos
Purificação. J. era um banqueiro
bem-sucedido na sua vida profissional e particular. De modesto empregado de
uma entidade bancária, devido à sua esperteza e facilidade de transformar o
difícil e imprevisível em fácil e realizável, foi subindo a pulso, galgando
lugares até atingir o topo. Aos 50 anos alcançou o lugar de presidente do
conselho de administração. Na sua juventude morava com os pais num
rés-do-chão em São Vicente, nas Rua das Escolas
Gerais, em que o eléctrico 28 para a ida aos
Prazeres passava a meio metro da janela. Acabou por comprar anos mais tarde
um luxuoso apartamento de 5 assoalhadas e igual número de casas de banho nas
Laranjeiras. Tudo normal se no meio disto tudo não tivesse adquirido, novinha
a estrear, uma luxuosa moradia na Quinta da Bicuda em Cascais. Era uma
moradia de dois pisos com uma área verde envolvente muito significativa e uma
piscina rectangular. Quem trabalhava no Banco e
alguns conhecidos seus comentavam como foi possível arranjar tanto dinheiro
para tanto luxo. É que para além do que já referimos tinha dois Mercedes de
luxo, para além de um iate de 15 metros. E contas de rendimentos eram mais
que muitas. Diziam que a trabalhar e a viver dos ordenados não era possível.
Negócios eram o que eram! J. foi
assassinado na sua moradia de Cascais. A Polícia Judiciária chegou a uma
conclusão concreta, embora ainda não tivesse descoberto o homicida. J. estava
sentado numa cadeira à borda da piscina virado de frente para esta. O
assassino aproximou-se pelas suas costas, armou o braço com uma lâmina
cortante, de fino aço e nova em folha, passou-a pela garganta em golpe
deslizante e profundo e praticamente degolou-o. Quer a vítima se levantasse
ou não quando recebeu o corte fatal bastou ao assassino um pequeno empurrão
para o fazer cair de borco na piscina. Tempicos leu
tudo o que a madame H. lhe forneceu no dito envelope e posteriormente leu o
processo, retirado à outra brigada. Ficou, então como uma ideia de quem era
J., o marido da senhora que lhe pediu ajuda J. era um
pinga-amor e nos últimos tempos três mulheres alegavam que J. as tinha
ludibriado, bifando-lhe grandes quantidades de dinheiro. J. não só se
aproveitou das mulheres para, com promessas de dividendos elevados,
materializar ligações de cariz sexual com elas. Henriette, francesa. Divorciada de um diplomata, entregou
a J. muito dinheiro para ele o fazer multiplicar. J. não multiplicou, antes
dividiu, e depois negou que ela lhe tivesse entregue
o dinheiro. Henriette desesperou. Era uma das
suspeitas. Na semana anterior tinha feito uma viagem a Le
Limoges, França. De lá trouxe alguns souvenirs para ofertar a amigos. Mulher
trintona, perto dos quarenta, loira e de físico espectacular.
Tempicos nos seus pensamentos oníricos, comparou-a à Nelinha, de tão boa que esta era. Bons
tempos, sonhava ele. Margarida.
Espanhola. Sofreu por parte do J. as mesmas vigarices que a francesa. Também
desesperou. Na semana anterior tinha ido a Toledo e só teve dinheiro para
comprar um recuerdo típico da terra. Do melhor. Até lhe podia ser útil. Era
uma morena de estalo. Com um físico de se lhe tirar o chapéu. Claro que Tempicos comparou-a à Katinha
Vanessa e lembrou-se de muitas tardes que passou com ela. Mas o tempo não
volta para trás. Clara Broega, alentejana. Oriunda de um meio rural. Igualmente
foi enganada por J. Tinha sido amásia de um magnata de petróleo e sacou-lhe
muitos milhares de contos de reis, para os ir entregar de mão beijada ao J.
Coincidência ou não, na semana passada, tinha ido numa excursão a Ceuta e
depois fez uma incursão a Marraquexe. Num souk
(mercado) da Praça Jemaa-el-Fna
comprou uma túnica de algodão e uns artigos de couro, tais como um par de babouchas e especialmente um pouf para se sentar na borda
da piscina de J. A excursão depois de sair de Algeciras veio por aí acima e
pararam em Pegões, onde na Padaria do Fernando todos compraram pães
deliciosos tipo “Alentejo”. Clara gostava de cortar os bocadinhos de pão com
um canivete, curtinho, já muito velho, mas que cortava bem. Tempicos comparou-a com Mary Lou,
porque não era só tão boa como ela, mas, igualmente, dava ares de artista. Tempicos perguntou a Madame H. se estas três mulheres
tinham algo em comum que as relacionasse com o seu falecido marido – Tinham,
tinham! Agora me lembro que todas tinham um duplicado da chave do portão do
jardim da moradia de Cascais, para terem acesso à piscina e dela se servirem
quando quisessem. Passados dois
dias Onaírda perguntou a Tempicos
se já tinha descoberto quem foi o autor do crime. Este disse-lhe que ainda
não, apesar de já ter feito uma visita à moradia de Cascais e à piscina.
Visita acompanhada da viúva H. Aproveitaram e deram uns mergulhos. Nuzinhos
em pelota. * * * Tempicos tinha a fonte alagada em suor. Acordou
sobressaltado. Tivera um pesadelo. Olhou para a sua companheira, como sempre
ao seu lado. Pensou se não seria agradável pela manhãzinha realizar a dois
(claro) uma “onírica dança fandanga”… Ai Judiciária, Judiciária, que tanto me
fazes sonhar. Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 10 de Maio de 2026 TRIÂNGULO
EQUILÁTERO – Uma História de Faca e Alguidar, Edições Fora da Lei, Ano de
2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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