Regulamento

Capítulo 1

Capítulo 1 (propostas)

A. Raposo

Inspector Huga Booga

Inspector Moka

JPenatra

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 1

Proposta de JPenatra

Naquela cálida manhã de feriado, enleada numa doce madorna, saboreava o suave torpor de um lento acordar. A princípio, os ténues sons que chegavam até si pareciam integrar-se numa espécie de música que a embalava. Contudo, rapidamente, tornaram-se mais nítidos e contundentes, fazendo-a despertar para as coisas concretas da vida real. Alguém batia insistentemente à sua porta, gritando por ela: Drª Sofia!… Drª Sofia!… Estremunhada, consultou o relógio.

– Ó meu Deus, 6 horas da manhã!

Entretanto, o ritmo mais rápido e enérgico das pancadas na porta mostrava a urgência com que precisavam de si. Levantou-se imediatamente e dirigiu-se para a porta da rua, que abriu num ápice.

– Bom dia, dona Eufrásia! Então, algum problema?

– Bom dia, senhora doutora! Peço muitas desculpas de a ter incomodado tão cedo. Mas vou agora com a minha filha, na carreira que vai já sair para passar estes dias com a minha Clotilde, e já dentro do autocarro lembrei-me de que não tinha tomado os comprimidos para as ânsias. Ó minha rica senhora doutora! Se me quisesse fazer o favorzinho de me vender uma caixinha de 10 desses comprimidinhos, ficava-lhe muito agradecida. Se não puder ser, vou passar duas horas terríveis. A estrada tem bocados tão maus que, antes de atravessar o Guadiana, já me fartei de enjoar, com toda a certezinha. Tenha lá paciência, senhora doutora!

– Ora, dona Eufrásia. Agora, que remédio tenho eu?!

– Aqui os tem… Ó dona Eufrásia, então não tem dinheiro mais pequeno?

– Peço-lhe desculpa, mas não tenho notas mais pequenas. Saí de casa com dinheiro só a pensar na carreira e, quando me venderam os bilhetes, deram-me duas notas e uns trocos que não me chegam para lhe pagar os comprimidos.

– Está bem, dona Eufrásia. Ainda tenho aqui uns trocos na caixa que chegam para si. Faça boa viagem e dê cumprimentos à sua irmã, que já há muito tempo a não vejo aqui pelo povo.

 

Se aqui os dias de semana já custam a passar, que dizer dos feriados?! Mas a hora do jantar acaba por chegar.

 

– Senhora doutora, posso entrar? Ou já está na hora de fechar o dia?

– Olha! O senhor padre Ramalho! Bons olhos o vejam! Faça favor de entrar… aos feriados, não temos horário! Então o que o traz por cá?! Veio passar o feriado à aldeia? Ou melhor, à vila, pois, apesar de tudo, já fomos promovidos.

– É verdade! Vim passar o fim de semana com a minha irmã, que já não via há muito tempo.

– E a sua governanta, também veio?

– Não. Desta vez vim sozinho.

– Pois é, lá pelas suas bandas sempre é melhor do que estar aqui no povo, não é senhor padre?

– Não é bem assim! Como sabe, nós somos colocados onde acham que fazemos mais falta. Não interessa muito a nossa vontade. Mas eu não me queixo. Temos muitos conterrâneos ali imigrados pelo que sempre dá para matarmos as saudades e revivermos um pouco as coisas da nossa terra.

– É verdade, senhor padre! Parece que há mais pessoas daqui por esse mundo fora do que aquelas que cá vivem. Dizem que, há uns anos, esta era a maior aldeia de país, mas hoje muitas das casas estão fechadas ou a cair de velhas e grande parte da população são pessoas de idade. Em compensação, já cá temos também emigrantes, principalmente vindos do leste. Ainda antes de almoço aqui esteve um. É um rapaz que era veterinário lá na terra dele. Aqui faz o que lhe aparece. Trabalha no campo, vai aos recados e, agora que descobriram que é veterinário, chamam-no quando têm problemas com os animais, e não lhe pagam mais por isso.

– Pois é, Drª Sofia! Não há fome que não dê em fartura, como diz o nosso povo. Mas dizem que é preciso cuidado porque, juntamente com gente boa, tem vindo para aí muita gente má.

– Por enquanto não temos razão de queixa, senhor padre. O problema é que este rapaz não sabe as leis portuguesas. Ainda há bocado, queria uma vacina da raiva para o gato da vizinha Eufémia e não tinha receita, nem as pode passar… Mas ainda bem que ele aqui estava, pois valeu-me para fazer o troco à Rosinda cigana, não sei se o senhor padre se lembra dela? Anda sempre cá e lá, de um lado para o outro da fronteira: "quando a coisa está má", passa-se para Espanha, "quando as coisas acalmam", aparece por aí outra vez. Veja lá, que até me pagou só com “dinheiro espanhol”, mas eu dei-lhe o troco todo em “dinheiro português”. Apareceu-me aqui a chorar-se que tinha a filha "cheia" de dores de cabeça. Estive a observá-la, mas ela vê tão mal que lhe recomendei que fosse ao hospital para uma consulta de oftalmologia. Dispensei-lhe uma caixa de comprimidos paracetamol que, no fundo, era aquilo que ela queria.

– E a doutora acha que ela vai ser atendida?

– Lá isso não sei, senhor padre. Mas falemos do que o traz a esta casa. Em que o posso ajudar?

– Bom, a questão é que a minha irmã deixou acabar os pingos para o glaucoma e como tinha esta receita para os aviar, resolvi vir eu, tanto mais que ela já tem alguma dificuldade em deslocar-se até aqui acima. Como deve saber, ela tem, também, problemas de outro tipo e está , até, a aguardar que a chamem para ser operada.

– De facto, isso não sabia. Talvez a chamem muito em breve.

– Não creio, doutora. Como deve ter sabido, o Sr. Pereira… o governo, falam muito em acabar com as listas de espera, disseram que estavam uns 100 mil pacientes a aguardar a sua vez para serem operados, mas o programa só prevê financiar 70 mil operações nos próximos 2 anos. O pior é que a lista, provavelmente, não vai parar de aumentar e, quando estiver a meio do programa, já haverá outros tantos novos pacientes na fila. Como é que podemos esperar que ela vá ser chamada, se não conhecemos ninguém importante nem temos dinheiro para pagar?!

– Ó senhor padre… O senhor, hoje, parece pouco crente! Aqui tem as duas embalagens de pingos, como pede na receita.

– Muito obrigado. Já agora, agradecia-lhe que me aviasse uma embalagem de insulina para a minha diabetes. Veja lá como a minha cabeça já me vai atraiçoando! A ter de tomar todos os dias a minha dose e logo me fui esquecer de a trazer comigo. Felizmente, tenho sempre uma receita sem data para estas emergências.

– Pois é, senhor padre. Nestes dias de feriado, isso aqui é o pão nosso de cada dia! Deixe-me ver, se faz favor. Não se percebe muito bem a letra. O senhor padre conhece esta caixa? É esta que usa habitualmente?

– Exactamente, é essa mesma!

– Então, é só um momento…

– … Ora, aqui temos!… Mas voltando aos esquecimentos, ainda hoje, logo depois do almoço, me apareceu aqui um senhor muito aflito, indisposto, com uma tensão arterial de 24. Já tinha vindo ontem à noite de Lisboa, de boleia, segundo me disse, para visitar o Sr. Cabo Madeira, e não trouxe os medicamentos. Ainda por cima, já ontem se tinha esquecido de tomar os comprimidos para a tensão. O homem não tinha sido tão previdente como o senhor padre e, por isso, não tinha receita para uma emergência. Veja lá a minha posição. Para aqui estamos hoje sem médicos e sem transportes e o homem aí sentado muito aflito. Lá lhe vendi uma embalagem do medicamento que usa habitualmente. E, assim, fiquei de bem comigo, mas de mal com a lei, a qual me proíbe totalmente a venda deste medicamento sem receita médica.

– … E pronto, aqui tem as suas receitas aviadas, senhor padre.

– Muito obrigado, Drª Sofia. Tive muito gosto em conversar consigo. Queira desculpar-me tê-la feito fechar mais tarde. Até uma próxima oportunidade e que Deus a proteja.

– Muito obrigada, padre Ramalho, e as melhoras para vocês.

 

Uf! Finalmente o dia chega ao fim! Um dia inteiro para atender cinco pessoas!…

 

– Bom dia, Drª Sofia, pedimos desculpa pela maçada que estamos a dar-lhe. Sabemos que estas situações são muito desagradáveis e lamentamos ter de lhe comunicar que uma das notas do depósito que ontem, feriado, efectuou através do nosso cofre noturno é falsa.

– O quê?! Falsa?! Depois da morte repentina do padre Ramalho, era mesmo o que me faltava! Não posso acreditar!

– Mas, é verdade. Está a ver? A nota é muito bonita e o trabalho foi muito bem feito. Mas, para além de outros pormenores, se a colocarmos contra a luz não se vê a marca de água. Aqui a tem! Não vale nada… é quase um palmo de papel sem qualquer valor!

– Que hei-de fazer, então, senhor gerente? E pensar eu que ontem dei por ela um dinheirão em notas e em moedas autênticas, para já não falar do valor do medicamento.

– Eu acho que o melhor é a Drª Sofia apresentar queixa no posto da guarda. Hoje vão ter um dia de grande trabalho, pois só iguais a esta já detectámos outras quatro.

– Está bem, vou seguir o seu conselho, mas de que me vai valer? A esta hora já o um dinheirinho deve estar bem longe!

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Outubro de 2003

© DANIEL FALCÃO