|
Capítulo 4
(propostas) A. Raposo |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 4 Proposta de A. Raposo O jovem inspector Lopes, da Judiciária, sentou-se confortavelmente na sua cadeira, respirou fundo e gozou, por breves instantes, o prazer do seu primeiro caso, depois do estágio. Este era o “seu” primeiro caso ao serviço da corporação. O relatório que lhe tinha sido distribuído não era muito extenso e resumido constava de … «vários indivíduos do sexo masculino tinham aparecido mortos, de uma forma semelhante, dentro da bagageira dos seus carros e com um intervalo de poucos meses. A causa da morte tinha sido sempre o envenenamento…» Lopes tinha aprendido uma máxima no seu curso: “Os assassinos tem tendência para repetirem os métodos que utilizam com bons resultados”. Este caso, eventualmente, teria a ver com isso. Quem aparecia, dentro da própria bagageira do seu carro eram sempre homens, de meia idade. Os locais eram sempre pouco frequentados. A situação económica sempre desafogada. As suas contas bancárias tinham sempre um levantamento razoável antes das respectivas mortes. Um valor elevado, mas não exorbitante. Sobre as vidas dos 3 homens aparecidos mortos, nos últimos dois anos, pouco haveria a juntar. Dois tinham sido casados, mas já separados, ou em vias de. O terceiro fora advogado. O traço que os unia era frágil, mas comum. Todos viviam na capital ou nos arredores. Os três vinham regularmente ao centro da cidade para trabalho ou lazer. Frequentavam um triângulo: Largo do Rato, Av. da Liberdade, Assembleia Nacional. As investigações sobre as suas vidas particulares ainda mal tinham começado. Era esse o trabalho que competia ao inspector Lopes. Um trabalho feito com minúcia, perserverança e bom senso. Sobretudo muito bom senso. “O homem é um animal de hábitos”. Esta era a máxima sempre batalhada pelos seus professores de criminologia. “Pela boca morre o peixe” tinha Lopes colectado igualmente para juntar à frase emblemática. E Lopes costumava arrematar dizendo: “quantos tipos não vão alegremente fazer dezenas de quilómetros só para comer uma bela sardinha assada?” Lopes acabara de receber, desta vez da polícia castelhana, através da Interpol, sobre um caso sucedido há pouco numa localidade do sul de Espanha, Oropesa Del Mar. Um casal dormira na localidade. Na manhã seguinte o homem acordou sozinho. O carro, e o dinheiro que levantara na véspera tinham desaparecido. A mulher sumira! O dono da pensão jurava que eram portugueses. Eram esses os B.I.´s que tinham exibido. Mas, toda a gente sabia que bilhetes de identidade falsificados eram mais que muitos… Para mais o homem teve que se dirigir com urgência ao hospital local para uma lavagem ao estômago. Desconfiava que tinha simplesmente sido envenenado. No hospital fizeram um trabalho impecável. Lopes conseguira o telefone do homem. Tinha por nome António Rosa. Advogado. Trabalhava para vários serviços na Assembleia da República. António acabou encontrando-se com Lopes e pô-lo ao corrente de toda a história, tintim por tintim. Numa bela manhã, passados oito dias, Lopes ocupava na Pastelaria Pão de Canela na Praça das Flores, o lugar que em tempos, António usava regularmente, lendo o Notícias. Com um passinho nervoso e miudinho, Madalena entrou no café e sentou-se largando na mesa o Público e pedindo à empregada um croissant com manteiga, com pouca manteiga, insistia e um chá verde. Madalena olhou à volta e admirou-se de ver um cliente novo ainda por cima relativamente jovem, pedindo um “bretzel” e meia de leite. “Diacho de coincidências” – pensou, olhando o homem, fingindo desinteresse. Lopes após mordiscar o “bretzel” – cabe aqui dizer que nunca tinha na vida provado aquela especialidade – dirigiu-se ao balcão para pagar a despesa. Meteu o jornal debaixo do braço e dirigiu-se à saída, passando pela mesa de Madalena, tendo sussurrado, de forma que só ela pôde ouvir: A senhora, por favor, queira-me acompanhar. Com um gesto rápido tirou do bolso o crachat da Judite. Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Janeiro de 2004 |
|
© DANIEL FALCÃO |
|
|
|
|