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Capítulo 4
(propostas) Inspector Huga Booga |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 4 Proposta de Inspector Huga Booga Madalena chorou copiosa e desalmadamente que nem uma arrependida quando desencarnou o monstro que transporta dentro de si e voltou a ser a bela mulher terna e delicada, sensível às coisas do espírito, das artes e das letras, sempre disponível para as grandes causas sociais e humanitárias, de uma fidelidade quase canina aos seus amores enquanto estes duram e desde sempre assolapadamente apaixonada pela vida. Os olhos marejados de lágrimas e os espasmos causados pelo choro convulsivo obrigaram-na a encostar o carro à berma da estrada que a levará até Paris, cidade luz e capital da moda cosmopolita, onde há muito tempo aspira exibir as suas criações. Para Madalena, António Rosa jaz morto num quarto de hotel em Oropesa del Mar. Na noite anterior, a “outra” que há em si preparou com todo o cuidado e rigor mais um dos seus muitos crimes. Levou o seu António, o único dos Antónios que verdadeiramente amou – descobriu ela agora – para uma noite de muita música, fumo e álcool, numa discoteca “rasca” das imediações de Castellón. Na sua malinha de mão, um pó infalível, mortal, que trouxera de Colômbia, tinha como destino certo o copo da bebida de António Rosa. Ao terceiro uísque e depois de algumas danças próprias para “constituir família”, com longos, ardentes e apaixonados beijos, nos olhos, no pescoço, na boca, à mistura com juras mútuas de amor eterno, havia chegado a hora de levar à prática o crime premeditado. As mãos tremeram-se-lhe, a pulsação começou a bater forte e o seu peito gerou um nó que lhe impedia a respiração. A bela e o monstro pareciam lutar entre si, nas entranhas de Madalena, e no calor da luta o pó quase se derramou por inteiro no chão. Dentro do copo acabou, no entanto, por ficar uma boa parte do “produto” fatal. Bastava então que António Rosa bebesse o que lhe restava do seu terceiro uísque, quando regressasse da casa de banho, para cair redondo num sono profundo e definitivo que o levaria até ao paraíso dos céus. Ele voltou alegre e agitado, talvez imaginando já a noite de delírio e prazer que o esperaria nos braços de Madalena, na cama daquele hotel onde em boa hora decidiram pernoitar na segunda pausa da longa jornada que os levaria até Capri. Sorrindo, lânguido e amável, sentou-se ao lado de Madalena, pegou-lhe na mão, beijando-a ternamente, e, sempre a sorrir, levou o copo à boca e bebeu o que restava do seu último uísque. Ele era o quinto António que caía na cilada de Madalena. Onde houvesse um António por perto de um domingo de Páscoa a morte espreitava afoita e ligeira, com as suas ferozes e temíveis garras de fora, pronta a desferir um golpe mortal na sua presa incauta. Primeiro foi o António José, um jovem cabeleireiro de orientação sexual duvidosa que mereceu os favores de Madalena, e com quem esta passou longas noites de luxúria a par de acesas discussões sobre cortes de cabelo e de penteados que mais se ajustavam às suas criações para a moda Primavera/Verão do ano seguinte. O corpo foi descoberto no sábado de aleluia, por volta das dez da noite, à porta do Salão de Cabeleireiro onde trabalhava, com dois tiros no peito. Na Páscoa de 2001, a vítima chamava-se António Pires, tinha pouco mais de vinte e cinco anos, era jogador de futebol de primeira num clube de segunda e conheceu Madalena num desfile de encerramento da Moda Lisboa. O seu corpo apareceu a boiar no rio Tejo numa manhã quente e soalheira de Abril, junto às Docas de Alcântara. Nesse mesmo ano, a “sorte” coube também a António Raposo, um homem maduro já aposentado, pequeno, simpático e anafado, de cabelo bem cuidado e grisalho, membro bastante activo de uma Tertúlia que animava todas as últimas quartas-feiras de cada mês uma certa Esplanada da Avenida da Liberdade, em Lisboa, num concorrido almoço onde se discutiam crimes, polícias e ladrões. Deram com ele em casa, debruçado sobre a sua secretária pejada de livros de Agatha Christie, Edgar Alan Poe, Arthur Conan Doyle, Ross Macdonald, Dashiell Hammet, Júlio Conrado, Scott Turrow, Rex Stout, Patrícia Highsmith e Dick Haskins, morto com uma faca enfiada nas costas. Em 2002, a morte escolheu António Neto, engenheiro mecânico, homem sem paradeiro certo na vida e ao que se julga saber de muitas e pouco duradouras paixões, que se perdeu de amores por Madalena e acabou os seus dias na mala de um Rover 414, sem nunca ter percebido que Mozart, Haendel e Gilbert Becaud são pouco compatíveis e que barbitúricos com álcool não dão saúde a ninguém!… A fome do monstro continuava insaciável. Era preciso mais. Mais dor, mais morte, mais sofrimento, e António Rosa foi o eleito. Madalena desatou novamente num pranto. Ela tinha amado todos, à sua maneira é certo, mas António Rosa foi um caso muito, muito especial. O namoro durou meses e meses, por entre dezenas e dezenas de meias de leite e chás verdes, “bretzels” e “croissaints”, primeiro com alguma timidez mal disfarçada em leituras apressadas dos matutinos de cada dia e depois com mais desenvoltura e arrojo graças a Malaparte e ao seu “Kaputt”. Aos poucos foram descobrindo o muito que havia em comum entre eles. Não fosse a “outra” e Madalena e António Rosa decerto chegariam a Capri… juntos e felizes. De súbito, um automobilista abrandou a marcha do carro e quase parou para ver o que se passava com a jovem debruçada sobre o volante da sua viatura, chorando desalentada. Madalena tremeu. Lembrou-se então que daqui a nada a polícia estaria no encalço de um Laguna cinzento de matrícula portuguesa registado em nome de António Rosa. Era preciso rapidamente abandonar o carro algures numa povoação vizinha. Por outro lado, o seu cabelo castanho escuro de corte curto seria coberto por uma longa cabeleira loira e os “jeans” que usara no hotel, onde não foi identificada, seriam substituídos por uma roupa mais feminina. Depois era preciso alugar um automóvel que a levasse até Paris. Mais de dois mil quilómetros a separavam do destino. Tentaria perder o menos tempo possível na viagem. Faria apenas breves pausas para desentorpecer as pernas, relaxar os músculos e tomar alguma coisa, aqui e ali, e dormir muito pouco. A pressa neste caso é amiga da perfeição e do sucesso… do crime. Chegando a Paris tinha muito que fazer. Monique e Antoine esperavam-na no apartamento/atelier que dividiam há já alguns anos no Quartier Latin. São ambos estilistas, de algum renome em Paris e em Roma, e “ouviram falar” do trabalho de Madalena numa revista especializada em moda emergente. Tinham muita curiosidade em conhecê-la e dispunham-se ajudá-la a entrar no complexo e difícil mundo da moda parisiense. Longe vão os tempos em que os emigrantes portugueses entravam em França “a salto”, com uma pequena mala de cartão onde transportavam os seus parcos haveres. Madalena chegaria a Paris ao volante de um automóvel de média cilindrada, levando na bagagem, para além de muitos sonhos, um grande malão onde guarda o melhor das suas “toilletes” e duas malas de madeira onde carrega dezenas de figurinos e algumas peças de sua criação, já confeccionadas, para um primeiro desfile. Ela tinha tudo planeado até ao mais ínfimo pormenor. Nada foi deixado ao acaso. Para começar, antes de tudo o mais e assim que chegar a Paris, tem de fazer um importante telefonema. … E o telefone tocou em Troino. Quando Sónia, a jovem estudante-trabalhadora prima de Madalena, atendeu, ouviu do outro lado da linha: “Boa tarde. Daqui fala o Inspector António Jorge, da Polícia Judiciária…” Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Janeiro de 2004 |
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© DANIEL FALCÃO |
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