|
Capítulo 4
(propostas) Inspector Moka |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 4 Proposta de Inspector Moka Reflectindo sobre o romance policial e abordando-o no seu aspecto sociológico e político, Ernest Mandel não deixou de constatar que “para além da distracção pura e simples, o serviço que o romance policial podia propor era um conhecimento especializado, condensado e standardizado de um dos inúmeros domínios da actividade humana.” E, arrolando múltiplas e variadas demonstrações desta ideia, não deixaria de incluir, entre todas, a referência à cultura das orquídeas e à alta-cozinha, personificadas por Rex Stout. A ligação da literatura policial à boa mesa (e, em menor grau, ao fru-fru das alcovas) já vem, aliás, de longe. Se o espartano de Baker Street, com ressalva para o ajudante, insinua hábitos moderados e se Poe era reconhecidamente um exagerado, em termos líquidos, o entrecho policial acompanhou nesse prisma a literatura dita formal, do fim da “belle époque” à época heroica dos anos 40-50. O fenómeno continuaria perceptível em trânsitos mais recentes. Prosseguindo no sec. XX, não apenas com Fritz Brenner, o cozinheiro suíço de Nero Wolfe, trazido pelo já referido Stout, tornar-se-ia de todo saliente nos belgas Poirot (este anglo-belga, do lado da “mãe”) e Maigret, ou belgas não fossem eles. Aliás Simenon reparte com Maigret as honras de um livro de receitas, demonstando que a mesa existia, afirmava-se, triclinava-se como na literatura dita “de linha” e, disso mercê, é hoje possível montar “prândios policiais” como se fazem outros “menus literários”, exemplificados, para lusitano uso, nos repastos queirozianos, ramalhais ágapes ou camilianos festins. Na própria era do “fast food”, em que o sábio equilíbrio literário entre cama e mesa (e crime, para o que nos interessa) se desloca claramente para a primeira componente, existem ainda fabulosos “resistentes” que ocupam as páginas dos “polars” sem renunciarem à sua qualidade de “gourmets”. Cite-se Pepe Carvalho, por cujo “pai” ainda estamos de luto, e o ítalo comissário Salvo Montalbano, saído da imaginação de Andrea Camilleri. Mas ao que vem isto? Isto vem da clara necessidade de uma ruptura, no desenrolar da nossa história, introduzindo um interlúdio suavizante e lúdico, um “tinir de pratos e talheres”. Vem isto também a propósito de algumas incursões que António Rosa, quando em Castelló, tentativamente arriscou nesse particular mas sempre promissor domínio. Restabelecido um mínimo de dignidade, esperando a ansiada “luz verde” para voltar à Pátria após pacientemente explicar à polícia espanhola e ao surpreendido funcionário consular que naquilo tudo era uma estranha vítima e jamais um autor ou um fautor do desaparecimento de Madalena, mas sentindo-se no entanto vigiado, nada perderia em melhor identificar-se com o ambiente local, cedendo nomeadamente aos atractivos da cozinha levantina, com os seus pratos essencialmente de peixe, olentes, vistosos, temperados com muito alho e simpaticamente apresentados naquele dizer cantado e doce que tanto contrasta com o gutural castelhano. Há que constatar que António Rosa foi meticuloso ao ponto de comprar um caderno pautado num dos “shoppings” locais, claramente vazios e a cheirar a tinta fresca como convém a um “hors de saison” de uma estância de veraneio. Para além de registar alguns factos que ia recordando, juntava notas soltas quanto ao que, de início sem vontade e depois, gradualmente, lhe ia caindo no goto – o que lhe permitia reconquistar alguma calma e antecipar as acrescidas tormentas que, apesar de toda a discrição procurada, em Lisboa certamente poderia prever. Desse caderno, que pouco interessará para as indagações policiais mas que contribui para a definição da pessoa, poder-se-ia destacar o seguinte apontamento: “Fideuá É um prato levantino típico, de que já me começo a fartar aqui. Pedi esta receitas à mulher do Alonso – ambos (e também o Francisco, que é o colega dele) sempre incansáveis em resolver todos os problemas e incomodidades que lhes trouxe. Das muitas variantes é, para mim, das mais saborosas. Vi-me grego para a traduzir, mas certo é que, em Lisboa, vou procurar a primeira oportunidade para reencontrar uma das poucas coisas positivas que ficou deste sarilho todo. Aí vai… para 6 pessoas! 1 pacote de esparguete (500 gramas); 1 porção pequena de cabeça de tamboril; 6 caranguejos pequenos; meio quilo de peixes pequenos, para fazer o caldo (podem ser carapaus); meio quilo de gambas descascadas (podem ser das que se vendem congeladas); 6 tomates maduros; 1 cebola de tamanho médio; 3 dentes de alho; 3 colheres de sopa de erva doce; 1 copo de azeite; açafrão (ou outro condimento amarelo; vg. massa de pimentão), q.b.; umas folhas de aneto (creio que é o nosso funcho, mas pode ser também usada outra erva aromática, como o perrexil ou funcho-do-mar), q.b.; sal, q.b. Colocar, numa panela alta, a porção de cabeça de tamboril, os carapaus e os caranguejos limpos, um tomate cortado ao meio, a cebola cortada em quatro, a erva doce, o aneto, metade do azeite, sal e água suficiente, como para a preparação de um caldo abundante. Cozer a fogo forte durante 5 minutos e depois a fogo lento, pelo menos durante uma hora. Passado esse tempo, coar, recolhendo o caldo num recipiente e desprezando o resto (no entanto, ver adiante). Despelar os tomates, e esmagá-los em polpa, num recipiente aparte. Picar os alhos em porções muito pequenas. Por ao fogo uma panela em barro, larga e pouco alta (aqui chamam-lhe “paella”), com o restante azeite e, quando este esteja bem quente, deitar os alhos picados. Antes que estes estejam muito alourados, juntar o tomate em polpa. Refogar durante dois ou três minutos e juntar imediatamente o esparguete, revolvendo sempre com uma colher de pau e mantendo a fogo lento, durante cinco minutos. Seguidamente, juntar o caldo até que recubra a massa com a altura de um dedo transverso. Passados que sejam 10 minutos, juntam-se as gambas descascadas e deixa-se ferver, até que o caldo se consuma e a massa fique “al dente”. Repousar 5 minutos, sem tapar e servir na própria panela de barro. Pode acompanhar-se com “alioli” (ver abaixo). Nota: em alguns locais do Levante, para reforçar o gosto a pescado, parte da massa de peixe e marisco que se utiliza na preparação do caldo inicial é reintroduzida, em pasta, na fase final da preparação, quando se está a cozer a massa. Também é frequente juntar, para além das gambas, um ou dois lagostins. Alioli: É um molho que muitas vezes acompanha o fideuà. 6 dentes de alho; meio litro de azeite virgem; sal q.b. Moer, em almofariz, o sal e os alhos até obter uma pasta homogénea. Prosseguir a mistura, adicionando muito lentamente o azeite (gota a gota) e movendo o pilão do almofariz sempre no mesmo sentido, até que seja possível voltar o almofariz sem que o molho caia.” Assim, nestes exactos termos, contribuía António Rosa para que esta história não ficasse inteiramente desprovida de uma componente gastronómica! O negociado regresso a Lisboa, já em Maio, não foi uma experiência agradável. Nem certamente poderia ter sido. Pouco parecia significar, mesmo para a sobrinha, o desaparecimento de uma jovem “designer” de moda em Espanha, com automóvel e tudo, que até nem era dela. No caminho da tanga, havia muita coisa a preocupar muita gente, para que muita gente estivesse preocupada. A pedido das autoridades espanholas e acompanhado já do colega a quem, em Lisboa, confiara o assunto e as inevitáveis sequelas familiares, António voltaria a passar a fronteira, semanas depois. Havia que reconhecer um carro achado num “embalse”, local quase inacessível de uma velha e abandonada barragem mineira das muitas que ponteiam aquela zona serrana do Andévalo que, ainda sem passagem, vai de Ayamonte ao Rosal de la Frontera. O carro estava totalmente descaracterizado, mas o seu reconhecimento não oferecia dúvidas e sugeria mesmo, pela proximidade da fronteira, uma tentativa de retorno a Portugal. Bateram-se as proximidades à procura de quaisquer indícios significativos e que, muito especialmente, dessem novas quaisquer da procurada Madalena: nada. As caixas, as bagagens, os papeis continuavam em manifesta sumidura. Duas chapas de matrícula encontradas próximo, ambas de Barcelona, tinham a singular característica de terem pertencido a veículos diferentes, ambos há bastante tempo sinistrados, vendidos como sucata e abatidos no registo. 1 ERNEST MANDEL, "Cadáveres Esquesitos – Uma História Social do Romance Policial", Ed. Cotovia, Lisboa, 1984 2 COURTINE, "As Boas Receitas de Simenon e Maigret", Ed. Asa, Porto, 1994 Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Janeiro de 2004 |
|
© DANIEL FALCÃO |
|
|
|
|