Regulamento

Capítulo 4

Capítulo 5 (propostas)

A. Raposo

Inspector Huga Booga

Inspector Moka

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 5

Proposta de A. Raposo

(Aviso para os leitores mais distraídos)

 

O Autor destas linhas sofreu um traiçoeiro ataque pelas costas, com arma branca. Uma facada, quando se encontrava em casa, a terminar uma solução do seu problema policial, recentemente publicado no Público.

O golpe desferido, por acaso – mas só por mero acaso – como adiante se verá, não lhe causou a morte. O suposto assassino desapareceu sem ser visto bem como o original da solução, exemplar único.

Quem segue as linhas tortuosas desta incrível história sabe que a mesma é escrita a várias mãos e algumas cabeças. Também sabe – suponho – que o final é insuspeito, desconhecido, mas eventualmente triste.

Neste caso será um drama. Como sou optimista acho que antes isso que uma perna partida ou pior ainda um herpes labial.

Feito este necessário reparo quero aqui deixar o testemunho do que se passou.

Tinha acabado de fazer, à mão, pois é assim que escrevo, o original e único exemplar da solução do problema que o Público apresentara, quando senti um golpe frio de uma faca a entrar-me pelas costas dentro.

Lembro-me ainda de ter dado com os queixos na secretária e depois só acordei a caminho do hospital. Talvez com o “noninoni” da ambulância do 112.

Vim, a saber, depois, que por mero acaso a minha casa foi invadida pela polícia, com arrombamento de porta, oficiais de diligências e quejandos. Há males que vêem por bem. Foi isso que acabou por acontecer e que concorreu para me salvar.

O pessoal do Tribunal vinha fazer um arresto dos meus parcos bens. Uma colecção quase completa da Vampiro. Umas centenas de livros de outras antigas colecções policiais que escrevi, com pseudónimos ingleses, que tiveram um êxito relativo e que só levaram para me tentar aborrecer.

E isto porque nos cinco anos anteriores não entreguei a minha declaração de IRS, por lamentável esquecimento.

E assim foi. O pessoal arrombou-me a porta porque eu como estava não a poderia ter ido abrir. Foram dar comigo agonizante na secretária, com uma faca enfiada nas costas.

Levaram-me, bem como os livros. A mim para o Hospital. Deixaram-me na sala de espera e seguiram a sua vida, com os livritos.

O meu caso não devia ser muito urgente, pois só esperei três horas.

Por fim deitaram-me de bruços numa maca – de costas não dava por causa da faca – e fizeram-me uns raios-X, num aparelho muito bonito, com cromados que tinha uma chapa onde se lia “...aparelho oferecido por W.K. Roentgen, em 1905, quando da sua vinda a Portugal a convite de D. Carlos...”

Um médico ensonado, porque entretanto já seriam umas três horas da manhã, retirou-me a faca com um puxão brusco, deu-me uma Aspirina e com um sorriso, olhando a chapa de raios-X, disse-me: “teve sorte, porque o senhor tem o coração do lado direito! Isto agora passa. Tome lá a sua faca, tem alta. Leve mais três pensos rápidos.”

Saí do hospital apesar de tudo satisfeito. Não tinha morrido. Praticamente não tinha dores, e vim para casa assobiando uma melodia da canção francesa “… et maintenant..

Salvo erro de Bécaud.

A meio da calçada, começou a doer-me um bocadinho mais a ferida, junto à clavícula direita.

Nesse momento veio-me à cabeça a frase do médico, dizendo que eu tinha o coração do lado direito. Que disparate. O que se passara é que eu fizera os raios-X de bruços, por causa da faca ainda espetada e o médico pensou que a fizera de costas!

Estas coisas, às vezes, acontecem aos melhores.

Poderíamos dizer que o coração fica do lado direito de quem entra e do lado esquerdo de quem sai, mas, não gosto de me perder com filosofias.

Ainda vinha longe de casa e deu-me para começar a pensar quem seria que me deu a punhalada, com uma faca da minha própria cozinha, para trinchar perus?

A Madalena não poderia ser. Da última vez que estivera com ela – já há mais de duas semanas – ela tinha-me dito que encontrara um indivíduo que lhe ia pôr casa. Um tal capitão com um nome esquisito que estava babadinho por ela. Já não era novo, mas, para Madalena seria um bom partido.

Tirando a Madalena, quem mais estaria interessado em matar-me para ficar com o romance Pão de Canela só para ele?

Pensei logo num tipo que na verdade não conheço, e, ainda por cima tem um pseudónimo herdado de alguma ilha do oceano pacífico: Huga Booga!

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 20 de Fevereiro de 2004

© DANIEL FALCÃO