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Capítulo 5
(propostas) Inpector Moka |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 5 Proposta de Inspector
Moka Joaquim Narciso Filipe, mais conhecido nesta terra pelo “Pinguinhas”, escreveu ao Presidente da Câmara local uma pungente carta. Recebido de urgência nos Paços do Concelho com outros dois colegas, representando assim 60% da força de trabalho da falida “Resineira de Santa Leocádia”, veio em cansado fato domingueiro e tom solene, relatar como os trabalhadores da mesma, reunidos após vicissitudes diversas, vencimentos perdidos, deserção do patronato, mal-sucedida recuperação de empresa e explicação confusa de procedimentos, se sentiam finalmente espoliados do pouco que ainda restava antes das portas serem definitivamente fechadas e o terreno desocupado para fins imobiliários. Ouvia-o o atento presidente, atrás dos óculos de armação em titânio, novidade na época, aro fino e preço alto, solene o homem como convém, penteado a preceito de apresentação mediática próxima, instalado entre a bandeira nacional e um busto da República, generosamente patriota. Certo era que, de há muito, os negócios não andavam bem e que, tanto clientes, como matérias primas, como facturações iam sucessivamente rareando e deixavam mesmo de levantar a mercadoria, os tais falados standoiles, com base em não se cumprirem as especificações de fabrico. Quanto à “massa” em caixa, então nem se fala! Os donos italianos e também o gerente espanhol, o tal que tinha vindo de Barcelona, não punham os pés no estabelecimento e a zona de produção só se manteve menos mal enquanto por ali andou o Eng. Lobato. Este, farto de promessas por cumprir, várias vezes tinha ameaçado de ir-se embora, até que deu mesmo de frosque. Veio então outro engenheiro, um tal António Ferreira Neto, que logo mostrou preocupar-se com o reactor grande ao ponto de pedir ao José da Costa que, daquele amontoado chamado arquivo, destacasse todos os desenhos, especificações e correspondência que respeitassem aquele equipamento e aos respectivos acessórios, comprados anos antes em Itália, no mercado de segunda mão. Nessa altura, já no início de Janeiro, o processo de recuperação dava já o que tinha a dar. Os credores continuavam a ser muitos e o dinheiro nenhum. Continuavam a não pagar vencimentos, primeiro em partes, depois no todo. Os principais credores entenderam-se bem quanto ao espaço e nada quanto à viabilização industrial. Criaram-se duas sociedades, a imobiliária e a outra, remetendo para esta o pessoal. À espera de melhores dias, tínham-lhes proposto algumas formas de saída, todas abaixo do que pensavam poder esperar. Os fabricos continuavam parados, a falência da empresa industrial tornava-se um facto. Como um abutre, um reaparecido António Neto dizia desempenhar pouco claras funções a mando ou em relação com o desenrolar de um processo que parecia não mais ter fim. Vigiavam o ambiente que fora também deles, já que não tinham outro sítio ou esperança para onde ir. Assim, foi com dificuldade e veemência que o regressado engenheiro lá os convenceu, naquele fim de ano de 2001, a abandonarem os portões entre o Natal e o dia de Reis com o argumento de que, findas essas duas semanas, estaria a tempo de os readmitir e de reatar a produção com um rentável fabrico a feitio que ele iria contratar, matérias primas da conta do cliente, produto a levantar contra dinheiro fresco e certo, deixando-os então imediatamente compensados de tudo o que por agora se lhes ficara a dever. Trigo limpo, a deixar de haver devidos logo que viessem buscar a mercadoria. Entretanto, durante as festas, a fábrica ficaria mesmo fechada a cadeado, ninguém se chatearia por isso e pronto! Não foi sem surpresa e revolta que, quando regressado em Janeiro, o pessoal apercebeu-se da saída do reactor grande e seus pertences, o condensador, os sistemas de agitação, aquecimento e controle. Um vizinho da fábrica contou que, no fim de uma daquelas tardes de festa, tinha chegado um camião coberto, de matrícula espanhola, que entrara às arrecuas no pátio e que só saíra na manhã seguinte. Um gajo mal encarado aparecera a perguntar onde poderia comer algo e, em provocada conversa, disse que tinham vindo trazer uns bidons de matérias-primas para o novo fabrico. Confortara-os com isso, a ponto de não deixar passar vozes de alarme. E de facto os bidons lá estavam, mas usados, amolgados e vazios, verdadeiramente de para português ver. De adquirentes da firma nem notícia, do Eng. Neto muito menos, só tinha aparecido por ali o advogado da imobiliária a verificar se o espaço estava já liberto. Apertado com perguntas foi bastante evasivo: o processo de falência estava concluído, os trabalhadores teriam os seus direitos certamente acautelados. Quanto ao reactor, fez-se mesmo de novas e disse que de nada sabia, arriscando que poderia ter sido vendido como sucata ou até devolvido aos seus legítimos proprietários pois constara-lhe que, quer o equipamento, quer licenças de fabrico, nem sequer tinham sido totalmente pagas. Assunto entre o tribunal e os credores e de disposição da massa falida, em extensão que não sabia o falante precisar. Logo a seguir à constatação do despojamento, Narciso “Pinguinhas” e colegas tinham conseguido aceder ao escritório e arquivo para ver se ainda lá estavam as coisas que o José da Costa em tempos coleccionara a pedido do Eng. António Neto. Faltava tudo, isso e não só! Como sucedeu em muitas empresas portuguesas falidas ou intervencionadas, o desaparecimento dos arquivos roubara-as à História, num verdadeiro “vae victis” de que, em tempos futuros, se irá certamente apanhar os cacos. Ficava a memória: o José da Costa lembrava-se do que colocara na e junto da secretária do interessado engenheiro, de todos os desenhos dos reactores, agitadores e condensadores, em envelopes azuis entretelados, dos dossiers de correspondência, de duas ou três pesadas caixas de madeira que continham os manuais técnicos e os livros diários de fabrico E agora, amigo presidente, já que somos do mesmo partido e votamos em si, aqui estamos para lhe narrar isto, pedir as providências da Câmara e para que nos aconselhe sobre o que devemos fazer?! Só me saem duques do baralho, pensou o presidente! E começou o discurso-modelo três dos momentos desgraçados de crise. Sabem, meus amigos, não há muito que a Câmara possa fazer nestes casos. Falem já com o vosso sindicato e com o vosso advogado, aquele que o sindicato designou e que acompanhou o processo e expliquem-lhes tudo tim-tim por tim-tim. Recordem-se os elementos que puderem sobre isso do reactor, do camião e dos documentos pois pode ser preciso ir ao tribunal ou à guarda falar-lhes nisso ou, sei lá, formalizar mesmo uma queixa, no caso da saída ter sido irregular. Mas, sem dúvida, comecem e já pelo sindicato e pelo vosso advogado. Hoje mesmo! E só por curiosidade, qual é o tamanho daquilo? Pois é, não se evapora assim! E o material, qual é? Ah, um inox especial... está bem de ver! Há sucateiros por aí que adoram inoxes! Mas vocês acham mesmo que poderia interessar a alguém tal como está? Pois é verdade, vocês até disseram que tinha vindo para cá de Itália, em segunda mão. E para que poderia aquilo servir? E a quem? Dizem vocês que daria para fazer quase tudo como se fosse uma panela de pressão ou uma chocolateira… essa é boa! Digam isso também ao advogado e, se for preciso, ao delegado e à guarda! E à direcção regional do ministério da economia, já agora. E aos rapazes do ambiente, que são muito sensíveis a essas coisas… E é isso o que poderão fazer por ora. Não vejo outra solução. Sindicato e advogado já! Nisto de crises, os principais pagadores acabam sempre por ser os mesmos… como na história do mexilhão, pois é… Agora desculpem, tenho de ir inaugurar o espaço para o futebol de salão no Abelhense. Não tem as medidas, mas serve. Obra asseada! Entramos com um subsídio para aquilo… promessas eleitorais a cumprir, como convém! Digam-me coisas, depois das vossas diligências. Esses gajos todos, desde que compraram a Resineira, nunca me pareceram de boa pinta! Saltou para o carro, democraticamente ao lado do “Narigudo”, arvorado em motorista da presidência após as eleições e, deixando-os a olhar, o carro afastou-se rápido. Não eram muitos. Não eram novos. Não tinham mais a que se agarrar. Poderiam fazer uns cartazes e chamar ali a SIC ou a Quatro. A fábrica eram só paredes. O futuro era, mais uma vez, incerto. A estrada, à frente, enchia-se de angústia. Fonte: Blogue Local do Crime, 20 de Fevereiro de 2004 |
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© DANIEL FALCÃO |
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