Regulamento

Capítulo 4

Capítulo 5 (propostas)

A. Raposo

Inpector Huga Booga

Inspector Moka

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 5

Proposta de Inspector Huga Booga

Sónia não sabe absolutamente nada da prima Madalena vai já para três semanas e havia prometido não abrir o bico para ninguém sobre o destino da sua recente viagem. Fosse para quem fosse! Nem mesmo para a mestra-costureira que dirige o seu atelier e que há dois dias lhe bateu à porta de tesoura quase em riste, de língua afiada e de falas cortantes, exigindo saber o paradeiro de Madalena. Sónia não se descose. Ela sabe muito bem que a prima não dá ponto sem nó e que o silêncio por ela reclamado tem razão escondida em verdades insofismáveis, embora desconheça por completo os motivos do mutismo imposto. Desconfia que há mouro na costa, isto é, que há homem na história, mas nunca se atreveu a perguntar fosse o que fosse sobre o assunto. Até porque Madalena não é mulher de badalar muito sobre a sua vida afectiva.

Ela conheceu a prima há meia dúzia de anos na festa da aldeia transmontana onde ambas nasceram em épocas distintas, separadas por cerca de dez anos. Sónia é filha de um primo do pai de Madalena, o António da Mula, um homem de maus fígados que fazia a vida negra a toda a gente que se atravessasse no seu caminho, sujeito capaz de virar tudo do avesso quando os azeites estavam com ele e pouco dado a grandes intimidades. Ficou conhecido por Mula porque era assim que tratava a mulher sempre que a ela se referia, quer estivesse são como um pero e lúcido como um sábio ou ébrio a cair da tripeça. Bom, na verdade, quando estava bêbedo que nem um cacho, ou a mostarda lhe subia ao nariz, a coisa fiava mais fino no tear da sua maldade congénita fermentada em (muito) vinho e aí não era só a sua santa e sacrificada mulher que era Mula. Toda a gente da aldeia e arredores que vestisse saias ficava alcunhada de fêmea de Macho e, pior ainda, dos nomes mais ordinários que o homem gozava e abusava do seu vernáculo vocabulário.

Até à morte do pai, abatido por uma rápida e implacável cirrose alcoólica, Madalena experimentou o pão que o diabo amassou. E aqui o diabo não é figura de estilo. É mesmo o demo, o belzebu, o homem mau de cornos afiados e de língua viperina, personificado no progenitor, no pai que quis ser tutor, patrão e amante. O pão, esse, era duro como pedra e amargo como fel. E não se pense que foi fácil digeri-lo. Noite após noite, depois de uma primeira investida quando ela tinha apenas catorze anos, o António da Mula metia-se por entre os lençóis da cama da filha e castigava-a sexualmente. Um dia a mãe acordou sobressaltada e gritou “António, onde estás?” Aquele nome, António, ainda hoje ecoa na sua cabeça como se viesse das profundezas do inferno, onde ele deve estar cumprindo penitência dolorosa, decerto tão dolorosa quanto foram (e quiçá ainda são) as dores de que fez Madalena padecer.

Ao telefone, o Inspector António Jorge insistia: “mas não faz mesmo ideia onde e com quem possa estar neste momento a sua prima?” Que não, continuou Sónia. E até jurou. Falso, mas jurou: “não sei, juro que não sei”. O inspector não acreditou, mas optou por não forçar a confissão. Preferiu mudar de estratégia e disparou: “o número de telefone 977081006 diz-lhe alguma coisa, sabe de quem é?” Sónia vacilou: “sim, sei” – balbuciou – “é o número de telemóvel da Vanessa, a empregada brasileira da confeitaria da Praça das Flores”. Curioso, muito curioso – pensou António Jorge… – “e o nome António Neto é-lhe familiar?” Não, Sónia nunca tinha ouvido aquele nome. Não sabe quem seja, jura que não faz mesmo a mínima ideia. Quanto a Vanessa, apenas sabe que ela está em Portugal há pouco mais de três anos e que assim que chegou ao nosso país foi logo trabalhar para a confeitaria “Pão de Canela”, onde Madalena toma habitualmente o seu pequeno-almoço antes de ir para o atelier.

Não havia inauguração de exposição, acontecimento social, desfile de moda, estreia de filme, concerto ou peça de teatro que Madalena e Vanessa perdessem. O “Frágil” no Bairro Alto ou os Bares mais “in” das docas de Alcântara eram o ponto de abrigo de quase todas as noites para as duas amigas, que raramente caíam na cama antes das três da madrugada, quase sempre sós ou mal acompanhadas. E cinco horas depois lá estavam elas de olhos e sorriso abertos na Praça das Flores para iniciarem mais um dia de trabalho igual a todos os outros: Vanessa a servir bebidas e pastelaria variada na confeitaria; Madalena a cortar e a costurar roupa dos mais diversos modelos e feitos no atelier - até que o lusco-fusco do fim de tarde viesse, qual príncipe encantado, despertar as suas “príncezinhas” para mais uma noite de entretenimento, cultura, convívio, copos e prazer.

Durante perto de ano e meio, Vanessa e Madalena foram assim uma espécie de “roque e amiga – por onde vais tu vou eu”, tão ou mais unidas do que “unha com carne”, tão fiéis confidentes como beata e sacerdote na sacristia ou no altar do Senhor, companheiras inseparáveis de todos os dias quer fizesse chuva, sol ou vento. Mais irmãs do que gémeas nascidas do mesmo ventre, mais solidárias do que união feita de sangue e lágrimas, elas não existiam uma sem a outra. Porém, um certo dia, ou noite, vá-se lá saber porquê, as duas amigas desentenderam-se e agora não podem ver-se nem pintadas. Há quem diga que a zanga ficou a dever-se a um conflito que teve origem na disputa pelos amores de um jovem e promissor treinador de futebol de uma equipa de segunda linha na zona de Cascais, por quem ambas se apaixonaram perdidamente, mas Sónia jura que não sabe.

O inspector António Jorge não quis ouvir absolutamente mais nada. Fartou-se de “juras” de quem com toda a certeza omite factos ou mente descaradamente e, irritado, antes de desligar o telefone, intimou Sónia a comparecer na sede da Judiciária no dia seguinte às nove da manhã para prestar declarações. Entretanto, e sem mais delongas, meteu os pés a caminho até ao Príncipe Real, desceu à Praça das Flores e foi experimentar um “bretzel” no “Pão de Canela”…

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 20 de Fevereiro de 2004

© DANIEL FALCÃO