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Capítulo 6
(propostas) A. Raposo |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 6 Proposta de A. Raposo (A triste história de Madalena no estafado romance PÃO DE CANELA Manuscrito ao computador por A RAPOSO .......................... De como a Madalena Passa a ser tratada por Nelinha E outras ninharias .............................) Madalena resolveu fazer uma mudança radical na sua vida. Após ter sofrido dois anos de prisão na cadeia de Tires e, paga a sua dívida à sociedade, decidiu começar do zero e partir para outra. Para cortar com o passado mas, ao mesmo tempo não lhe voltar as costas, resolveu, logo que saiu da prisão ir tomar um lauto pequeno almoço à Confeitaria Pão de Canela, de outras recordações, na Praça das Flores. Meia dúzia de Bretzels e um galão cheio, escuro, sem açúcar. Madalena pensou como o poeta que o mundo é feito de mudança. Estava ela sossegadinha no seu cantinho do café quando entrou inopinadamente, um homem já grisalho, com o aspecto de irlandês abastardado mas ainda com una laivos de ruivo nos cabelos. Era bem apessoado, como soe dizer-se. Dirigiu-se ao balcão e pediu uma amarguinha. Madalena (Nelinha) sentiu um baque no coração. Algo havia naquele homem que a obrigava a segui-lo com os olhos. Um fascínio. Um encantamento. Um mistério. Madalena engoliu em seco o último bretzel e ficou como que engasgada. Aquele era finalmente o homem da sua vida. O marinheiro por quem sempre sonhou, e ela estava ali por fim à sua espera. O homem virou-se e deitou-lhe um olhar que a deixou de rastos. Era um verdadeiro lobo de mar. Espelhava na face os muitos invernos e temporais mas tinha uns olhos meigos de gato siamês. Um consumo exagerado de amarguinhas deixava-lhe um bafo um tanto enervante mas no seu largo sorriso poucos seriam os dentes que perdera nas viagens de longo curso. Naquela mesma tarde, Madalena veio a saber que ele se chamava Syiderollando, nome muito comum na Gália antiga e era capitão de mar e guerra de um vaso atracado no Tejo. Madalena lá foi atracada ao marinheiro, mudar de vida. Syiderollando tinha mais vinte ou trinta primaveras que a nossa Nelinha e digamos alguns invernos, mas era um homem de muitos e vastos conhecimentos. A vida ao ar livre e a dieta de peixe dera-lhe um andar nobre e gingão, como é mester dos embarcadiços. Tinha sempre uma enorme rigidez matinal fruto das muitas humidades e das travessias constantes do equador. Um exagerado consumo de anfetaminas e ultimamente de umas pastilhas coloridas compradas num bar do cais do sodré, mantinha-o quase cem por cento operacional. Felizmente que nunca sofrera da próstata. “Aprosta” para os menos letrados. Confessou uma noite a Nelinha que o comprimido azul que engolia à noite não era aspirina para as dores de cabeça como se queixava mas, simplesmente Viagra. Madalena tudo esquecia e vivia feliz que nem camaleão rodeado de moscas. Mas estas coisas da vida tem sempre um lado imprevisível e até aos mais exagerados contadores de histórias falha muitas vezes o cálculo e o domínio das ideias, no turbilhão das palavras. E foi o que sucedeu. Madalena – Nelinha para os amigos – vivia numa agradável vivenda do Bairro de Madre de Deus. Syiderollando desembarcara e dedicara-se à columbofilia. A casa tinha um pequeno quintaleco onde Madalena criava uns poucos galos capões, para a ceia de Natal. Um dia um indivíduo de etnia cigana saltou o muro com vista a resolver uns problemas culinários inadiáveis. Quando se dirigia para o galinheiro, vislumbrou através da janela a Nelinha espreguiçando-se no aconchego da sua cama. Estava sozinha em casa. O capitão tinha ido a um concurso de pombos na Bobadela E só voltaria à noite. Juanito de Ortega y Gasset, – é este o ciganito da história – parente bastante afastado do pensador espanhol, vinha de uma nobre família com antepassados famosos que a guerra civil destroçara. Seus pais e avós ainda venderam burros no Alentejo durante décadas mas com o advento da União Europeia e a motorização generalizada, voltaram-se para as roupas de marca, apesar da pouca colaboração da GNR. Mas até isso estava a ser posto em causa pelas lojas chinesas de roupa. Juanito não teve alternativa senão entrar no sector das ervas não aromáticas, sabendo como o seu afastado parente que o homem é “o eu e as circunstâncias”; naquele momento fez também ele a opção da sua vida. Em vez de alinhar pelo galinheiro resolveu entrar no leito quente de Nelinha. Ao princípio estranha-se e depois entranha-se – diria Fernando Pessoa a propósito deste caso, se entrasse na história. Porém, foi mesmo o caso. Una meses depois e a Nelinha estava completamente e inexoravelmente grávida. O capitão ficou feliz e ao princípio pensou ir pôr uma velinha ao São Viagra, na Igreja da Madre Deus… A verdade porém era outra, mas a vida tem destas coisas. Nelinha criou o filho, que se fez homem sempre insistindo teimosamente que o seu pai fora o capitão, não obstante a grande diferença de pigmentação e a cor do cabelo não ter nada a ver com o arruivado capitão de mar e guerra. Madalena guardou o segredo toda a vida. Juanito cresceu e foi para a escola primária. No liceu começou por ser um aluno sofrível, mas Nelinha jurara que lhe havia de lhe proporcionar um curso – um futuro. Ele porém tinha alguma dificuldade em obter notas na escola que lhe dessem acesso ao Curso de Engenheiro Civil que Madalena insistia em dar ao seu rebento. Uma Universidade privada resolveu o problema e apesar do custo lá foi singrando. Depois seguiu-se um mestrado em Londres e seguidamente um doutoramento em Silicon Valley – Califórnia, numa Universidade que estava a dar enorme “status”. Voltou a Portugal e mais precisamente a Lisboa ou seja ao Bairro Madre Deus com o canudo e a necessidade urgente de um emprego. Como chegou já no ano de 2003, o que ele desejava faltava e a maioria dos engenheiros que se diplomavam, nem para o ensino já tinham vaga. Resolveu ir tirar um curso de teatro, daqueles da União Europeia que demoram cerca de três meses e que são dados pelas sucessivas gerações de actores que saem do Conservatório e que sofrem dos mesmos problemas de trabalho. Com esse curso e uma boa cunha amiga obteve lugar para fazer figuração numa novela da SIC, onde verificou que era o actor mais qualificado do elenco não obstante o seu cursilho ter demorado só três magros mesitos. O trabalho que teve foi o de dizer uma única e curta frase que acabou no fim da novela por ser eliminada na montagem final. Teve por isso um enorme desgosto e resolveu mudar de canal televisivo. Arranjou um lugar de batedor de palmas num concurso de perguntas. O trabalho não era mau e além do mais aquecia as mãos, como costumava contar aos amigos. Um dia resolveu subir na vida e na falta dum concorrente e do respectivo suplente ofereceu-se para ser ele próprio concorrente. Mas, nestas coisas a falta de prática e a descontracção contam muito. Na primeira pergunta “Qual foi o cognome do primeiro Rei de Portugal” enervou-se e disse “o navegador”. A cultura geral, não era o seu forte, lamentava-se Juanito, que apesar de “barrosista” ferrenho não tinha sorte; ao contrário de muitos outros falhados. A mãe, no lar onde estava a viver, tentando recuperar de uma trombose, viu-o através da tv e, a partir daí, só choramingava e maldizia a hora em que fizera o que fizera ao velho capitão (que Deus tenha) e metera na cama o fogoso pilha-galinhas cigano. – Este País não tem futuro – gritou Madalena na sala do lar, desesperada, e, podemos dizer com toda a razão! A velhice sempre foi uma grande fonte de conhecimento desde as mais ancestrais sociedades. Felizmente Madalena teve mais uma trombose e o resto Deus misericordioso tratou. Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Março de 2004 |
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© DANIEL FALCÃO |
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