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Capítulo 6
(propostas) Inspector Moka |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 6 Proposta de Inspector Moka Certo pois das mentiras ou omissões da prima Sónia, já que lhe tinha estendido a armadilha do 977081006 e ela infantilmente a “mordera” – identificando-o com um número de telefone quando não era número de telefone algum – António Jorge relembrou o inesperado cruzamento que a investigação que lhe coubera tinha já tido com um conjunto de factos da vida real produzidos na simples busca sobre “António Ferreira Neto” nas memórias informáticas da “Judite”. Para além do achamento do cadáver e das pertinentes circunstâncias, registara uma outra pista que começava pela cópia da pungente carta que um tal Narciso Filipe, o “Pinguinhas”, tinha escrito meses antes ao Presidente da Câmara de um ridente concelho estremenho. Recebido nos Paços do Concelho com outros dois colegas e representando assim 60% da força de trabalho da falida “Resineira de Santa Leocádia”, relatara como os trabalhadores da mesma, reunidos após vicissitudes diversas, vencimentos perdidos, deserção do patronato, mal sucedida recuperação de empresa e explicação confusa de procedimentos, se sentiam espoliados do pouco que ainda restava antes das portas serem definitivamente fechadas e o terreno desocupado para fins imobiliários. Ouviu-o o atento presidente, solene como convinha, instalado entre a bandeira nacional e um busto da República, generosamente patriota. Certo era que, de há muito, os negócios daquela empresa não andavam bem e que, tanto clientes, como matérias-primas, como facturações iam sucessivamente rareando e deixavam mesmo de levantar a mercadoria, os falados “standoiles”, com base em não cumprirem as especificações de uso. Quanto à “massa” em caixa, então nem se fala! Os donos italianos e também o gerente espanhol, vindo de Tarragona, não punham os pés no estabelecimento e a zona de produção só se manteve menosmalmente enquanto por ali andou o Eng. Lobato. Farto de promessas por cumprir, este várias vezes tinha ameaçado ir de frosque, até que de frosque finalmente foi… Veio então outro engenheiro, António Ferreira Neto, que logo mostrou preocupar-se muito com o reactor grande e respectivos acessórios, comprados em Itália, num mercado de equipamento químico em segunda mão. Mediu-o, fotografou-o e pediu ao José da Costa que, daquele amontoado chamado arquivo, destacasse todos os desenhos e documentação que lhe respeitassem. O processo de recuperação dera já o que tinha a dar. Continuavam a não pagar vencimentos, primeiro em partes, depois no todo. O dinheiro mantinha-se em “nenhum” e os credores “em muitos”. Destes, os principais, tinham-se entendido bem quanto ao espaço e nada quanto à viabilização industrial. Criaram-se duas sociedades, a imobiliária e a outra, remetendo para esta o pessoal. Recusando formas de saída claramente abaixo do que pensavam poder esperar, os trabalhadores continuavam parados e vigiavam o ambiente que fora também deles já que não tinham outro sítio ou esperança para onde ir. A falência da empresa industrial tornara-se um facto e um reaparecido António Neto viera desempenhar pouco claras funções dentro de um processo que parecia não mais ter fim. Assim, foi com dificuldade que o regressado engenheiro lá os convenceu, naquele fim de ano de 2001, a abandonar os portões entre o Natal e o dia de Reis com o argumento de que, findas essas duas semanas, estaria a tempo de os readmitir e de reatar a produção com um rentável fabrico a feitio que iria contratar, matérias primas da conta do cliente, produto a levantar contra dinheiro fresco e certo, deixando-os então imediatamente compensados de tudo o que por agora se lhes ficara a dever. Entretanto, durante as festas, a fábrica ficaria fechada a cadeado, ninguém se chatearia por isso e pronto! Foi com surpresa e revolta que, regressado em Janeiro, o pessoal se apercebeu da ardilosa saída do reactor grande e pertences directos. Um vizinho da fábrica contou que, no fim de uma daquelas tardes de festa, tinha chegado um camião coberto, de matrícula espanhola, que entrara às arrecuas no pátio e que só saira na manhã seguinte. Um tipo mal encarado apareceu na venda, comprou conservas e cerveja e, em provocada conversa, disse terem vindo trazer uns bidons de matérias-primas para o novo fabrico. Confortou os presentes com isso, a ponto de gerar um passa-palavra tranquilizador. E de facto os bidons lá estavam, mas usados, amolgados e vazios, verdadeiramente de “para português ver”. Dos adquirentes da firma nem notícia, do Eng. Neto muito menos, só tinha aparecido por ali o advogado da imobiliária a verificar se o espaço estava já liberto. Apertado com perguntas foi evasivo: o processo de falência estava concluído, os trabalhadores teriam direitos certamente acautelados. Quanto ao reactor, fez-se de novas e disse que de nada sabia, arriscando que poderia ter sido vendido como sucata ou até devolvido aos seus legítimos proprietários pois constara-lhe que tal equipamento nem sequer tinha sido totalmente pago. Assunto entre o tribunal e os credores e de disposição da massa falida, em extensão que não sabia o falante precisar. Logo a seguir à constatação do despojamento, Narciso “Pinguinhas” e colegas subiram ao escritório e arquivo para ver se ainda lá estavam as coisas que o José da Costa coleccionara para o António Neto. Faltava tudo isso e não só! Como sucedeu em muitas empresas portuguesas, falidas ou intervencionadas, o desaparecimento dos arquivos roubara-as à História, num verdadeiro “vae victis” de que, em tempos futuros, se irá certamente apanhar a cacaria. Ficava a memória: o José da Costa lembrava-se do que colocara junto da secretária do interessado engenheiro, dos desenhos do reactor, enfiados em envelopes entretelados e azuis, dos dossiers de correspondência, de duas ou três pesadas caixas de madeira que continham os manuais técnicos e os livros diários de fabrico. E agora, senhor presidente, aqui estamos para lhe narrar isto, pedir-lhe as providências da Câmara e um aconselho sobre o que devemos fazer?! Só me saem duques do baralho, pensou o presidente! E começou o “discurso-modelo três” dos momentos desgraçados de crise. Sabem, meus amigos, não há muito que a Câmara possa fazer nestes casos. Falem já com o vosso sindicato e com o vosso advogado, aquele que o sindicato designou e que acompanhou o processo e expliquem-lhes tudo tim-tim por tim-tim. Recordem os elementos que puderem sobre isso do reactor, do camião e dos documentos pois pode ser preciso ir ao tribunal ou à guarda falar-lhes nisso ou, sei lá, formalizar mesmo uma queixa, no caso da saída ter sido irregular. Mas, sem dúvida, comecem é já pelo sindicato e pelo vosso advogado. Hoje mesmo! E só por curiosidade, qual é o tamanho daquilo? E o material, qual é? Ah, um inox especial… está bem de ver! Há sucateiros por aí que adoram inox! Poderia aquilo interessar a alguém tal como está? Dizem vocês que daria para fazer quase tudo… essa é boa! Digam isso também ao advogado e, se for preciso, ao delegado, à guarda, à direcção regional do ministério da economia, já agora, e aos rapazes do ambiente, que são muito sensíveis a essas coisas… Por ora, não vos vejo outra solução. Sindicato e advogado já! Nisto de crises, os principais pagadores acabam sempre por ser os mesmos… como na história do mexilhão! Agora desculpem, tenho de ir inaugurar o espaço para o futesal no Abelhense. Obra asseada! Entramos com um subsídio para aquilo… E digam-me coisas do que resultar! Sempre à vossa disposição! Mexeram-se bem os rapazes, como lhes tinha sido dito. Ou pelo sindicato, pelo tribunal ou pela guarda, a verdade é que parecia ter havido um descaminho de património em processo pendente. O nome de António Ferreira Neto vinha-lhe enrolado e o computador dera com ele. Curioso! Os desenhos encontrados no “carro do morto” pareciam ser do tal panelão fabril algures desviado. O 977081006 era um “número não atribuído” que o complicado negócio de desaparecimentos, caixotes e saias em Oropesa del Mar tornava reincidente no maldito computador. Talvez que a Sónia dissesse algo de interessante! Ou talvez não! Parecia-lhe ser do tipo “acagaça-se um bocadinho e canta tudo”. Mas cheirava-lhe haver ali algo de mais fundo! Descendo a Rua do Monte Olivete, concluiu que um “bretzel” lhe não iria chegar! Talvez fosse melhor escolher uma almofada de requeijão com uma bojeca, para acompanhar! Fonte: Blogue Local do Crime, 21 de Março de 2004 |
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© DANIEL FALCÃO |
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