Regulamento

Capítulo 6

Capítulo 6 (propostas)

A. Raposo

Ma(r)ta Hari

Inspector Moka

 

 

 

 

 

 

 

 

PASSATEMPO DE ESCRITA POLICIAL

CAPÍTULO 6

Proposta de Ma(r)ta Hari

Exactamente à mesma hora em que António Jorge chegava à alfacinha Praça das Flores para experimentar a especialidade da pastelaria alemã que fazia furor na confeitaria “Pão de Canela” e conhecer de perto a intrigante brasileira Vanessa, Madalena procurava estacionar numa das mais conhecidas ruas do parisiense Quartier Latin o carro que havia alugado há dias numa “salerosa” cidade raiana, e António Rosa voltava finalmente à sua amada Lisboa que o viu nascer, a ele e aos seus dois filhos, e à casa onde sempre viveu com Maria Otília após o seu casamento de mais de quinze anos que a partir de agora conheceria dias cruelmente difíceis e decerto insuportáveis por via da sua inesperada incursão por terras castelhanas atrás de um sonho colorido, ou de uma negra ilusão, que por pouco não terminou de forma trágica para ele.

As mesas da confeitaria estavam quase totalmente ocupadas pela clientela do lanche das cinco. Um casal de velhotes, de idade a roçar os oitenta, ele de bigode branco e farto e de calvície acentuada, ela de rosto lavado e de sombra discreta nos olhos azuis cor-do-céu-claro, trocava dois dedos de conversa enquanto partilhava chá e torradas à mistura com muita ternura e alguma brejeirice. Um jovem com pouco mais de vinte anos, só e embrenhado num livro de Biologia que fazia companhia a mais três calhamaços de Química, Psicologia e Ciências da Educação, mordiscava uma chamuça estaladiça enquanto a bica arrefecia em chávena aquecida. Duas mulheres, tias solteironas decerto, já para lá dos cinquenta, depenicavam uma duchesse e um russo, acompanhados a leite morno, enquanto desfiavam intrigas sobre a vizinhança ausente. Dois namorados, ainda adolescentes, de mãos entrelaçadas, repetiam promessas de amor, de olhos lânguidos e vidrados, alheios a tudo e a todos, como se o mundo tivesse parado para contemplar a felicidade de ambos. Um vagabundo, talvez poeta, escritor ou artista, de olhar profundo e visionário, olhava a Praça através da vidraça da montra, de beata perdida entre os dedos amarelecidos pelo tabaco enquanto a cinza caía sobre o jornal do dia anterior dobrado em quarto sobre a mesa. António Jorge ficou-se pelo balcão. Vanessa, a empregada brasileira, morena clara, de cabelo cor de amora, olhos de amêndoa, de seios generosos e bunda saliente, como o orgulho macho de António Jorge tanto apreciava, sorriu docemente para ele, que só conseguiu balbuciar: um bretzel e um chá verde, por favor.

O Boulevard Saint Michele estava apinhado de carros. Não havia um só “buraco” onde Madalena pudesse deixar o seu Opel rent-a-car enquanto procurava a casa onde viviam os seus protectores parisienses, que ela ansiava conhecer pessoalmente. Tinham trocado inúmeros email’s e alguns telefonemas breves, para além de muitas mensagens por sms e de postais no natal e nos dias de aniversário, depois de conversas quase intermináveis num “chat” de moda onde marcavam presença diariamente, mas era a primeira vez que ela ia estar cara a cara com Monique e Antoine. Não havia quase nada sobre os dois que ela não soubesse, tal fora a sua laboriosa pesquisa na net e em jornais e revistas, onde recolheu praticamente toda a vida de ambos, através de entrevistas, comentários, notícias breves e notas de rodapé ou legendas de fotografias, que tinham como enfoque aqueles dois reputados nomes do estilismo europeu. Numa publicação especializada em alta costura, Madalena ficou a saber que Antoine e Monique tinham reparado no seu trabalho e que nutriam alguma admiração pela forma como ela vinha impondo aos poucos a sua marca de estilista na corrente conservadora que imperava em Portugal. Foi este o ponto de partida para uma bela amizade que ganhava agora novos contornos com a sua ida para Paris, onde procurava afirmar definitivamente o seu inegável valor de criadora de moda. Do seu país ela queria esquecer tudo, apagar todas as memórias. Antes, porém, queria ajustar umas pequenas contas com alguém em Lisboa e ia fazê-lo já… pelo telefone.

António Rosa regressou a casa para sossego dos filhos, mas para seu desconforto. Os miúdos reencontravam a tranquilidade e a segurança que haviam sido ameaçadas com a sua partida, mas ele sentia-se perdido em terreno movediço e perigoso. Havia agora que explicar muito bem perante a mulher, os sócios e… a polícia, as verdadeiras razões da sua estada em Oropesa del Mar, o motivo do seu internamento hospitalar e do estranho desaparecimento da sua roupa e demais pertences pessoais, para os quais apenas tinha uma resposta: a vida é uma viagem em permanente mutação, num perpétuo e indomável movimento, que não comandamos de facto, muito menos com a razão. Por mais que queiramos racionalizar todas as nossas atitudes, acabamos sempre por esbarrar em sentimentos e vontades que não controlamos. Ele, que desfrutava de uma estabilidade profissional e financeira invejável, que sempre entendeu a família como uma instituição sólida e inabalável, que tinha os filhos como um elo inquebrável de uma relação imune a todas as tentações, acabou por não resistir aos encantos daquela misteriosa e bela mulher. Ainda agora, depois de ter escapado por sorte a uma terrível experiência que quase o matou, António Rosa não conseguia esquecer Madalena. Como ele a amava, Santo Deus!

O telefone da confeitaria interrompeu a interessante conversa que António Jorge havia iniciado com Vanessa, tendo por tema o Bretzel e as suas origens, as suas propriedades e valores energéticos, as suas vantagens dietéticas e os seus poderes afrodisíacos, mais bla, bla, bla, bla, enfim, conversa mole de macho latino mais interessado em “carne fresca” do que em pastelaria fina. A brasileira pediu muita desculpa e foi atender o telefone. Por deformação ou interesse profissional, o “nosso” inspector ficou atento à conversa. “É você ?” – dizia ela. “Mas onde é que você está?”… “Em Paris?” … “E ele, que é feito dele?” … “Meu Deus” … “Sim” … “Tudo tem o seu tempo”… “Você não deve agir sozinha”… “O improviso pode deitar tudo a perder”… “Nada, não ouvi dizer nada, acredite” … “Preciso de ter a certeza primeiro”… De súbito, o telemóvel de António Jorge resolveu marcar presença. Era Abílio Mata-Moscas, o seu assistente:

– Chefe. Temo-la na mão. Foi localizada.

– Como?

– Ela usou novamente o telemóvel do Neto.

– Bingo! Eu sabia. A parva havia de cair de novo no erro. Onde está ela?

– Em Paris.

– Óptimo. Mete o Jeff em campo. Tu, mantém o Rosa debaixo de olho e vigia a Sónia.

– E a brasileira?

– Eu trato da Vanessa. Encontramo-nos logo à noite, na sede. Até já.

A empregada brasileira continuava ao telefone. “Está bem, você é que sabe. Eu falo com Sónia e deixo com ela o envelope”… “Não, descanse, eu tomo cuidado”… “Não, espere… espere… espere”. António Jorge sorriu quando ela desligou. Vanessa retribuiu com um sorriso amarelo, de sobrolho carregado. O inspector ganhou alento, segurança. Tinha na sua frente uma mulher fragilizada, desguarnecida, sem defesas, mais facilmente disponível para novas “amizades”. O convite para um “copo” após o emprego não tardou. A brasileira não reagiu bem. Com quem pensava ele que estava a falar?!... António Jorge pediu que não o interpretasse mal. Ele apenas queria ajudar. Pareceu-lhe que ela precisava de algum conforto, de espairecer, desanuviar, ou até mesmo desabafar. Mas tudo bem. Fica para a próxima.

Na despedida, ele estendeu-lhe a mão: “O meu nome é António Jorge. Voltaremos a ver-nos em breve, tenho a certeza” – disse-lhe o “nosso” inspector, sorrindo. “Espere… António, António… Jorge. Pensando melhor, se o convite ainda estiver de pé, podemos encontrar-nos logo à noite, nas Docas, em Alcântara. Acha bem?” – reagiu Vanessa. “Não prefere que a vá buscar a algum sítio?” – disse-lhe António Jorge, ao mesmo tempo que lhe pegava, com ternura, na mão. “Está bem. Aqui, no Pão de Canela, ás 10 e meia, pode ser?” Combinado.

“O Mata-Moscas que se dane. Falo com ele amanhã de manhã” – pensou António Jorge.

 

Fonte:

Blogue Local do Crime, 21 de Março de 2004

© DANIEL FALCÃO