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Capítulo 2
(propostas) A. Raposo |
PASSATEMPO DE
ESCRITA POLICIAL CAPÍTULO 2 Proposta de A. Raposo O carro rodava veloz pela planície alentejana. A primeira paragem seria Faro, onde já tinham marcado hotel. Entre António e Madalena reinava ainda uma certa frieza. Toda a intimidade não passara ainda de um vulgar aperto de mão, mas já de certo modo prolongado. E era imperativo algum avanço na intimidade porque se esperava que ambos dormissem no mesmo quarto em Faro. A meio do percurso resolveram fazer uma paragem para uma bica e respectivo estender de pernas. Eventualmente um chichizinho que sempre aparece no meio destas coisas. O corpo obriga. Já no hotel, na recepção, Madalena insistiu em camas separadas. António foi o primeiro a concordar apressadamente. Sabia que tinha que avançar por etapas. Começou por regar o jantar com um saboroso e deslizante “rosé” da região de insuspeita graduação alcoólica: 12,5% vol. A receita de António resultava sempre. Madalena quando regressava ao quarto já passava da meia noite, depois da passagem pela boîte do hotel, vinha meio anestesiada. A maresia da Marina, a lua cheia e a ausência de macho desde um derriço na Amadora, com um comando, nos anos 90, levou Madalena a entregar os pontos. António sempre muito correcto, provou e gostou. Madalena também não ficou arrependida. Adormeceram ambos nus, apesar do tempo fresco de Maio. No Algarve, sempre as noites são menos frias, sobretudo se forem passadas a dois. No dia seguinte era preciso rumar a Málaga e havia muitos quilómetros pela frente. O Volkswagen Golf de António, apesar de alguns anitos, estava afinado e respondia bem. Sempre apostara nas revisões na altura indicadas. Isso estava provado, dava uma certa confiança. Madalena por seu lado não era muito interessada em mecânica. Tirara a carta, mas raramente conduzia. Sentia-se outra com aquela viagem. Como se cortasse as amarras consigo própria e desejasse fazer todas as loucuras que o coração ordenasse. Logo cedinho prepararam-se para a partida lamentando-se ambos de não haver naquele hotel, apesar das várias estrelas, os seus preferidos “bretzel” e mesmo os croissants eram de pacote, não prestavam. Limitaram-se a café com leite e torradas precedido de um sumo de laranja, mas daqueles que são um milagre da química e nunca cheiraram qualquer pé de laranjeira. São os custos das multinacionais dos sumos. Já na estrada, a viagem continuou, através da planície andaluza. O cheiro a azeite começava a sentir-se forte. Cerrados olivais seguiam a estrada a perder de vista. O tempo estava excelente para aquela época do ano. Pela janela semiaberta do carro entrava uma brisa fresca, agradável, que ia desatando o torpor da noite; miríades de oliveiras alinhadinhas como soldados em formatura enchiam todo o horizonte, para onde quer que se olhasse. E esse espectáculo monótono, levava a que os pensamentos de Manuela vogassem por outros caminhos, fixando-se na sua relação com o companheiro de viagem e aventura. Para ela, António não era bonito. Nada do boneco galã de cinema. Mas sempre ouvira dizer que a maioria desses galãs era mais apreciada por homens… Só os “gays” gostam de homens bonitos, desculpou-se. Lembrou-se de uma passagem de um dos livros de Margarida Rebelo Pinto, que ela lia no intervalo de cada Camillo ou Eça. Não lhe passava pela cabeça informar António dessas leituras. Sabia que a literatura dela era descafeínada. Não enchia nem vazava, mas ajudava a sonhar. Era uma espécie de comprimido para as dores de cabeça. Reconhecia que era uma literatura fútil, mas, o que tinha sido a sua vida? Lembrou-se que António – que seguia atento ao volante – lhe sugerira os “cus de Judas” para começar a digerir o Lobo Antunes, mas arranjou uma forma simpática de rejeitar porque o Lobo Antunes era dose para cavalo! Além disso, parecia uma morgue ambulante. Tinha lido as primeiras cinquenta páginas de um dos seus últimos que lhe emprestaram e desistiu. Não se lembrava nem do título. Era muito mórbido e pesadão. Eram livros só para pensar. – Vamos parar na próxima bomba de gasolina, já não tenho tabaco. – Exclamou António como se falasse consigo próprio. Madalena fez um hum…hum, afirmativo. Ela própria já estava com sede. O suor da refrega da noite anterior tinha como resultado uma perda de líquidos, recordou ela e deixou ficar um leve sorriso malandro ao canto da boca. Fonte: Blogue Local do Crime, 20 de Novembro de 2003 |
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© DANIEL FALCÃO |
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