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Capítulo
anterior: 1. – MALANDRICES
NO CASTELO DE CHAMBORG | A. Raposo & Lena Capítulo
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Jeremias |
CAPÍTULO 2. O PARAÍSO NUM FERRARI Zé Joseph d'Ambrosio nasceu José (Zé, para os
amigos), numa vila (agora cidade) plantada no coração do E foi por aí, entre loucas florestais cheias de
adrenalina e agitados momentos musicados pelas ondas, naquela “catedral verde
e sussurrante… aonde se alonga e se prolonga a longa voz do mar” (no dizer do
poeta, dono da Casa-Nau), que o Zé se fizera gente de paixões. O
cosmopolitismo de Coimbra, pujante de juventude, de ideias e ideais, fez o
resto! No fim dos estudos, entre a voz da razão (uma
calma vida de professor) e a voz do coração, seguiu as emoções e foi
trabalhar para a grande fábrica de Maranello, onde o “cavallino rampante” lhe
entrou nos genes para sempre. Aí conheceu os senhores de Chamborg, numa
demonstração de um carro de sonho. O Marquês encolheu-se e ficou no stand.
Madame foi… e ficou … apaixonada pelo carro!!! Lilly pediu e Mendés comprou o
Ferrari, que José trouxe para o castelo, com D. Lilly no banco do lado.
Mendés, achacado, veio de comboio, com Frau Jeremein, cujo contrato de
assistência médica tinha sido assinado em Itália. Sobre as viagens dos quatro nada se encontrou
registado. Mas José ficou no castelo, como motorista. Madame exigiu mudança
de nome para Joseph e acrescentou-lhe o sobrenome d'Ambrosio, talvez
inspirado por um anúncio de bombons de chocolate. É que Madame insistia com
Joseph: - apetece-me algo! E o motorista, com o pretendido sempre a jeito,
dava-lho… A partir desse momento entrou num mundo
esquisito. À semelhança dos Luíses de França, Mendés tinha o dinheiro, mas
não tinha nenhum poder e todos giravam à sua volta, a ver quem lhe tirava
mais, defendendo, intransigentemente a sua posição contra os rivais,
alimentando intrigas e forjando traições e armadilhas. O Marquês caçava,
caía, magoava-se e lá vinha pedir tratamentos à sua enfermeira. Esta tinha
muito poder, pois a saúde física do Senhor estava nas suas mãos e na agulha da
sua seringa… O Cardeal Richelieu (perdão, perdão, o cónego
Novenat) era, para Joseph, uma figura sinistra, pois tinha na mão a parte
espiritual do Marquês, cada vez mais Frau Jeremein, que ia controlando o estado de
todos (mais intimamente, do Marquês), aconselhou Joseph a pisar menos o acelerador
e mais o travão, porque estava magro e por outras coisas. Joseph aceitou a
magreza, mas aconselhou Frau a preocupar-se mais consigo própria, mesmo não
ligando a outras coisas que (também) se diziam pelo castelo. Mas Jeremein era
fixe e Joseph sempre lidou bem com ela. Com ela e com Anardá, por quem ia
sabendo o que se passava e o que se dizia por ali. Criado e sacristão… sabia
o que se passava na casa e na capela… E como poderia Joseph não emagrecer, se a sua
vida era uma permanente correria, quase sem tempo para descansar? O Ferrari
era para Madame, mas o Alfa GT alternava entre as idas às compras com Arnéss
(a doce) e os passeios sem destino com Kátinha Vanessa (a louca). Joseph
adorava ambas. Que belas patuscadas com a cozinheira, cheias de enchidos e um
polvinho que só ela sabia fazer. E que loucos raides com Kátinha Vanessa,
cabelos ao vento e roupas leves em turbilhão de túnel de vento… Em tudo pensava Joseph, enquanto esperava Madame
Point, sentando ao volante do Ferrari. Como ele adorava aquela mulher, cujo
rosto os leitores conhecem do capítulo anterior. Os seus traços lembravam-lhe
algumas figuras femininas de Hugo Pratt, um dos seus autores de culto. Como
poderia Madame, após tantos anos e noites de Paris, manter aquele rosto?
Joseph ficou um admirador dos milagres da estética… Finalmente, a porta do carro abriu-se. Lilly
serpenteou para o banco do lado. Fechou a porta e sussurrou, apenas, quatro
palavras: – Joseph, leva-me ao paraíso… Ao toque no start, o motor V 12 uivou, como o
lobo-chefe convocando toda a matilha para a caça. Um uivo sublime, rouco,
longo, longo, até o Ferrari desaparecer, mergulhando no azul forte de uma
tarde francesa… Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 28 de Junho de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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