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MAXIMUM EST SOLATIUM | Onaírda |
CAPÍTULO 3. VIER AUGEN SEHEN MEHRS ALS ZWEI Detective Jeremias
Quase sempre, por onde ela passa as conversas de
café, os mexericos das senhoras vizinhas, as bisbilhotices do chá das cinco,
as colunas sociais do jornal da terra ou as páginas das revistas cor-de-rosa
inventam-lhe um passado, um presente e até lhe profetizam um futuro. Não
passam de delírios mirabolantes, ou seja, de chorrilho de mentiras. Uma coisa posso eu garantir ao leitor, tudo o
aqui vier a ler é a mais pura verdade, sem ficções, invenções, disfarces ou
fingimentos. Para começar, FJ é tão alemã como a Padeira de Aljubarrota.
Sabe-se que é portuguesa, mas o local exacto do seu
nascimento, um lugarejo sem nome, permanece no segredo dos deuses. Cedo
verificou que o seu futuro profissional iria passar pela polivalência e,
talvez por isso, na faculdade, em vez da frequência às aulas, optou por
adquirir competências no grupo cénico universitário, onde só não foi cabeça
de cartaz porque imperava a democracia e eram todos iguais. O espírito
aventureiro, a capacidade para encarnar diferentes personagens e uma certa
facilidade para falar idiomas levaram FJ a mudar de profissão como quem muda
de camisa e a percorrer todo o mundo. FJ tudo falsificava, identidades, currículo,
credenciais, diplomas e até boas referências de entidades empregadoras. Mas
no fundo era uma mulher cumpridora e honesta. Mantinha os problemas à
distância, primeiro porque a sua cabeça pragmática não lhe permitia simular
conhecimentos que não tinha, não a deixando ir além das suas competências;
segundo, a sua costela anarquista não a deixava envolver em intrigas
políticas ou religiosas; e, finalmente a sua veia sarcástica impedia-a de se
enrolar de amores com patrões, camaradas de trabalho e homens que fossem
“colas” ou pés de chumbo. E quando se fartava do trabalho, das pessoas, ou
do local onde estava, despedia-se e partia para outra. Falta
apenas esclarecer o leitor que FJ, cujo verdadeiro nome se desconhece, tem
escolhido E para não perder mais tempo, passo já de
imediato ao que me traz aqui hoje: como e porquê FJ e o castelo de Chamborg aparecem ligados nesta história. FJ estava em Itália, mais precisamente em Siena
onde trabalhava em restauro de livros antigos, quando soube que o Marquês Mendés de Chamborziac procurava
uma enfermeira diplomada que lhe tratasse da saúde (sem ironia). Para a
Madame de Chamborg era condição essencial que tal
pessoa fosse alemã, nem precisava de ser, desde que desse injecções
e usasse estetoscópio – ficava bem nas fotos das revistas e por tabela,
provocava dor de cotovelo nas amigas. FJ frequentara o Goethe Institut
em Lisboa (não sabia nada de alemão, mas tinha um sotaque germânico perfeito
quando falava qualquer língua, tinha o curso de primeiros socorros e
trabalhara durante um ano na Argentina como auxiliar de um veterinário
especializado em cavalos. Investiu numa bata branca, numa maleta de
enfermeira e num estetoscópio garantindo assim ordenado chorudo e um emprego
numa zona da França que ainda não conhecia. Ao fim de uma semana a viver no castelo de Chamborg, FJ topou logo que andava mistério no ar. E do
grosso! Cheirava a tramóia mesmo com máscara
cirúrgica. E a nossa FJ não estava a considerar a rebaldaria de Joseph d´Ambrosio com a Madame Point no
Ferrari, nem nas práticas dominicais entre o Padre Novenat
e a Kátinha, nem outros jogos de lençóis que
pareciam ser o pão-nosso de cada dia, no Castelo de Xôborga
nas palavras de FJ. Talvez fosse por isso que FJ não se surpreendeu
quando, já depois do jantar, a chamaram ao telefone fixo e do outro lado
ouviu a voz inconfundível de Tempicos: “Um
informador meu transmitiu-me que havia por aí uma enfermeira diplomada
chamada Jeremein. Topei logo que devias ser tu.” –
atirou o Tempicos de rajada logo que ouviu o áspero
“Halô” germânico de FJ. Sem dar hipóteses ao
diálogo, Tempicos continuou: “Ouve bem com atenção!
Amanhã chego aí ao castelo. Fui contactado para deslindar um mistério.
Preciso da tua colaboração, porque duas cabeças pensam melhor que uma, mas
nada de meteres o bedelho.’Té ‘manhã.” E desligou. FJ suspirou alto e disse para o ar intrigado da
Madame especada no átrio: “Mein Gott.
Érrá enganô.” Abro aqui um parêntesis para esclarecer que a
linguagem desbragada do Tempicos para FJ se deve à
forma como se conheceram, no bas fond lisboeta. Tempicos
andava numa linha de música jazz e FJ vendia discos vinil numa cave
clandestina onde também havia música ao vivo e sessões de striptease. Três
meia-volta encontravam-se nos locais mais improváveis e mantinham a
cumplicidade dos bons malandros. Fecho aqui o parêntesis. À noite, no seu quarto numa das alas do imponente
castelo, FJ alinhava teorias. Qual seria o mistério? Um crime em fase de
planeamento? Um roubo? Ou um golpe mais obscuro? A Madame só queria “bem bom”
e revistas do jet set. Andaria de olho na fortuna do Marquês? O
Marquês andava achacado, cabisbaixo por causa do peso das traições da Madame.
Estaria ele a pensar tornar-se viúvo pela segunda vez? Joseph motorista
estava tão trinca-espinhas que se lhe contavam os ossinhos das costelas.
Estaria a engendrar alguma tramóia? Novenat, à pala das confissões obrigatórias, conhecia os
podres de toda a gente (excepto de Joseph e FJ).
Teria o padre armado um esquema de chantagem generalizado? Arnéss, a cozinheira, tinha como livro de cabeceira um
tratado de plantas com o subtítulo de “Venenos e Toxinas Naturais”. Seria
esta mulher uma psicopata à boa maneira da ficção policial? Anadrá, mesmo quando praticava nudismo, não largava os
potentes binóculos com bússola incorporada. Que segredo carrega este homem? E
Katinha Vanessa com o seu ar de Lolita lusitana
puritana, mas de comportamento duvidoso? FJ estava decidida. Iria colaborar com Tempicos, porque como diz o provérbio alemão Vier Augen sehen mehr
als zwei, ou seja, 4
olhos vêem melhor do que 2, em tradução literal, ou
ainda no equivalente em português: 2 cabeças pensam melhor do que 1. Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 5 de Julho de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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