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UM PASSADO NUNCA ESQUECIDO | Arnes |
CAPÍTULO 4. CULPA VACARE MAXIMUM EST SOLATIUM (QUE BOM NÃO
NOS SENTIRMOS CULPADOS) Onaírda Lembram-se das cenas iniciais do filme Amadeus, que
retratava a vida de Mozart? Pois essas cenas mostravam o maestro António
Salieri, grande rival de Mozart, internado num hospício de loucos em Viena a
confessar-se a um padre. Na sua confissão ele imortalizava o génio de Mozart,
ao mesmo tempo que se considerava a si próprio como um músico vulgar que
compôs umas musiquitas apenas. Não foi um inimigo
de Mozart apenas tinha ciúmes do músico de Viena. Pois, amigos leitores, façam um exercício virtual
e imaginem o sacristão Anarda deitado em transe na cama do seu quarto do
Castelo de Chamborg, a solicitar a presença do
cónego Novenat e a pedir-lhe que o ouvisse em
confissão. – Padre, quero confessar-me. – Filho, a misericórdia de Deus é infinita e
qualquer que seja o pecado que cometeste, desde que seja sincero o teu
arrependimento, Ele perdoar-te-á. – O padre sabe que no Castelo de Chamborg coabitam várias mulheres e eu, que devia
manter-me como um serviçal honesto, leal e fiel para com os meus amos,
procedi como um luxurioso e cúpido desejei aquelas mulheres, povoando os meus
pensamentos de sórdidos actos de erotismo bacoco e
de libidinosidade. Desde muito novo fui sempre um rapaz chanfalhão e
alegre, tipo conquistador do belo sexo. Tinha atributos físicos e jactância
suficiente para o efeito. Conheci a Madame de Chamborg
muito antes dos acontecimentos já descritos. Era ainda a portuguesinha beirã
Maria Pontes. Sem nos comprometer mantivermos uma relação licenciosa,
saudável e sensual.
Arranjei uns binóculos e constatei que o
motorista não avançava com o Ferrari para o caminho certo, pois não passava
de só lhe meter na boca os bombons achocolatados. Um dia passei-me e
disse-lhe na cara que “Deus dava nozes a quem não tinha dentes”. Ameaçou-me
de morte se eu contasse alguém o que era a relação dele com a Madame e o que
fazia com ela na intimidade. Melhor, o que ele não conseguia fazer. Depois da
ameaça que me dirigiu, sinto que posso ser alvo dalguma perfídia para com a
minha pessoa por parte do motorista. De certeza que ele desabafou com a
Marquesa porque imediatamente ela me promoveu a sacristão do castelo, só para
eu ter o sentido de ter uma vela (grossa) na mão quando eu acolitasse as
missas dominicais. Assim eu podia arranjar algum gosto esquisito e deixar de
pensar nela. Depois apareceu no Castelo a bela e doce Arnéss. Para mim foi uma estrela que despontou no meu
firmamento amoroso. Quase que lhe lambi os pés, mas ela deu-me com os mesmos
para trás. A causa era porque ela andava apaixonada pelo traste do John Travolta de volante nas mãos. Mas o John Travolta não tinha arcaboiço para a Madame muito menos
para a doce Arnéss. Os meus binóculos entraram em acção e o que eu via proporcionava-me dois sentimentos
díspares ao mesmo tempo. Por um lado, revoltava-me porque a Arnéss me fugia e por outro lado ria-me bastante porque o
John Travolta tinha um volante portátil e andava às
voltas no quarto a fingir que arrumava o Ferrari, mas nunca conseguia entrar
na garagem. A Arnéss meneava a cabeça de um lado
para o outro. Travolta duma figa que não sabia
meter as mudanças. Claro que dei com a língua nos dentes e novamente
o motorista ameaçou-me de morte, agora numa acção
concertada a dois. Ele e a Arnéss. Os meus devaneios amorosos falhados prosseguiram
agora na pessoa de Frau Jeremein.
Confesso que não fazia o meu tipo devido a que era uma intelectual que em
tudo punha um rigor que não se coadunava com aquilo que eu pretendia da sua
pessoa. E quando uma vez vi o marquês a fugir dela com as calças despidas na
mão e Frau Jeremein com
uma seringa para lhe espetar no “sim senhor”, seringa mais apropriada para
doses cavalares, tive medo e resolvi deixá-la em paz. Mas era curioso e os
meus binóculos começaram a espiá-la. E, tinha de ser, lá descobri que a “alta
senhoria” era íntima do John Travolta dos Ferraris. Ela bem se esforçava para que ele fizesse as
suas obrigações naturais, mas o magano estava sempre a consultar o…como se
estivesse a participar no Rally das Camélias. O John Travolta
dos piões e das ultrapassagens a 200 à hora andava desconfiado e foi
apanhar-me a espreitá-lo com os binóculos, com a agravante de eu estar todo
nu em local estratégico. Foi uma vergonha que me fez e novamente surgiu uma
ameaça de morte. Katinha Vanessa foi, para surpresa minha, aquela mulher residente no castelo
de Chamborg que realmente estava em condições para
me amar. Bonita, amorosa, solidária, despertava paixões em todos os homens
que com ela convivessem de perto. Nos meus pensamentos encarei a
possibilidade de ter um romance de amor com esta beldade. Depressa verifiquei
ser impossível. Eu não sabia a proveniência dela, mas ela sabia quem eu era.
Eu tinha um tio de nome Onaírda que tinha tido um
ardente envolvimento amoroso com sua mãe Nelinha da Purificação. Erotismo e
paixão nos seus encontros, regado muitas vezes com muitos copinhos de
jeropiga do Ti António da Corujeira – este magano está sempre a bater no
mesmo – com os olhares cúmplices de uns ratinhos anões, branquinhos, que
viviam naquela sua adega de Sintra. No entender de Katinha
Vanessa isto não causava estorvo à nossa ligação, mas o senhor Padre Novenat adivinhou as nossas intenções e ameaçou
excomungar-nos se as nossas intenções se materializassem. Depois verifiquei
que o senhor padre a queria confessar no seu quarto. Ostracizei-o deveras.
Que Deus me perdoe! E assim acabou desta forma a possibilidade de ter
este novo amor. Cheguei a apostrofá-lo a si senhor padre. Mas temente a Deus,
passei uma esponja sobre o assunto. Pensei em dar-lhe um fim, a si senhor
padre, para que desaparecesse do Castelo de Chamborg.
Mas não fui capaz de o fazer. Neste caso não pequei por actos,
mas por pensamentos iníquos para com um servo de Deus tão respeitado e tão
exímio em fazer confissões. Por tudo isto peço a sua absolvição dos meus
pecados para poder partir para outras paragens nas graças do Senhor. – Nada mais tenho a confessar, senhor padre. O cónego Novenat ouviu
todo este arrazoado em silêncio. Pensou para com os seus botões que sacristão
tão aparvalhado. A pensar que pode ser vítima de um crime violento, quando os
pecados dele são muitos pequeninos comparados com os dos restantes residentes
neste Castelo de Chamborg. Até eu tenho muito
maiores pecados do que ele e nem sei se não serei eu a vítima desse anunciado
crime E se houver um crime a ser cometido todos nós estamos sujeitos a ser o
alvo do criminoso. – Vai meu filho descansado, levanta-te desta
cama, volta aos teus afazeres no Castelo. Estás perdoado por Deus e por este
seu representante na terra. A propósito: prepara-me uma boa “sandocha” de torresmos e uma gasosa fresquinha. Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 12 de Julho de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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