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DE NOVENAT | Nove |
CAPÍTULO 5. REGRESSO DE UM PASSADO NUNCA ESQUECIDO Arnes
– Frau Jeremien, com esse sotaque arrastado, nem
és “chat” nem “chien”. Tu para mim vens de carrinho, já te topei faz tempo.
Dei-te uns copitos de Cabeça de Burro bem fresquinho, e foi ver-te a desfiar
as aventuras, nas Beiras e nos Centros. Até dançaste o corridinho e o tango
enquanto te arrastava para a cama. No dia seguinte só dor de cabeça, não te
lembravas de nada, mas tudo que me contaste… isso, isso ainda me há-de ser
útil um dia. Para começar, deixas esse ar de galinha emplumada sempre que te
diriges a mim e se queres o Joseph, procura-o, sou cozinheira, não sou cão
pisteiro de ninguém. F. J. conforme ia ouvindo, as faces iam ficando
rubras, os olhos iam inchando de raiva, mas manteve a postura, disse algo
inaudível aos ouvidos de Arnéss, virou costas e saiu tão rápida como entrou. Arnéss sentou-se e colocou a cabeça entre as
mãos. Tinha vindo para o castelo como cozinheira do Marquês, ao qual dedicava
verdadeiro afecto e dedicação. Era mais que a cozinheira, pois era na cozinha
entre um chá feito de ervas naturais, que o Marquês tirava a sua capa e
despia a alma. Mas o destino pode ser cruel, padrasto mesmo e reservou-lhe
uma surpresa, da qual não estava à espera. Quando voltou de umas merecidas
férias, encontrou o Marquês casado, com uma flausina que metia medo a um
susto. – Parabéns, que sejas muito feliz na tua nova
vida. Virou costas e afastou-se para que ele não visse
as grossas lágrimas que lhe corriam pelas faces. Ele nem tampouco a chamou,
deixou-a ir e foi a última vez que se cruzaram. Até ao dia que o viu chegar
ao volante daquele carro pequeno, com a patroa no banco ao lado... Não a reconhecera, muito embora achasse que lhe
lembrava alguém. Tinha-lhe falado uma vez na Lina, (nome pela qual ela era
tratada na juventude) enquanto comia um saboroso e tenro polvo à lagareiro,
feito com azeite dos planaltos de Portugal. Nesse dia dissera, que conheceu
na juventude, uma miúda que também o fazia magistralmente. Arnéss, ou melhor
Lina, tinha sido resumida a uma lembrança de tentáculos. – Arnéss, Arnéss, sentes-te bem? Arnéss levantou os olhos e à sua frente estava um
preocupado Anadrá. Sabia que ele tinha tido um fraquinho por ela, mas o seu
coração estava fechado a sete chaves. Seria melhor, não lhe criar nenhum tipo
de ilusão. Era um pouco mexeriqueiro e tinha a mania da perseguição, achando
sempre que todos tinham razões para lhe fazer mal, mas no fundo era um bom
homem se bem com uns hábitos um pouco estranhos e uma imaginação muito
fantasiosa. Muito prestável, o que em Portugal se chamava de pau para toda a
obra, também ele vivia amargurado pela recordação de um amor de juventude.
Tentou recompor-se e disse-lhe: – Tudo bem, é só uma dor de cabeça, mas ainda bem
que apareces, pois preciso pedir-te uma coisa, já que és um “expert” no
assunto. Amanhã ao almoço quero fazer bifes com o meu famoso molho de champignon.
Fazes-me o favor de ir ao bosque, apanhar uma cesta dos selvagens, pois
estamos na melhor altura para os colher. A Patroa, a Frau J e o Joseph, gostam tanto, que
até se esquecem dos bons modos e rapam o prato – continuou Arnéss quase como
se falasse para si própria – Para o Marquês e a Katinha, que não podem comer
cogumelos, farei um molho com umas ervas aromáticas que é uma delícia e assim
todos ficarão contentes. Anadrá com um estranho e pouco habitual brilho no
olhar respondeu: – Os teus desejos são ordens para mim e considera
feita a minha parte, para que amanhã o almoço seja um divinal repasto. Quanto
às tuas dores de cabeça, se calhar era melhor deixares de receber no quarto
quem só anda em círculos e não consegue meter a primeira, para entrar na
garagem. Sem lhe dar oportunidade de resposta, Anadrá saiu
entre risinhos abafados. O telemóvel de Arnéss tocou, ela olhou-o e
atendeu. – Estou, padre Novenat, a sua bênção. – Deus te abençoe minha filha, liguei para saber
se finalmente falaste com aquele pecador, desencaminhador de donzelas e
mestre em fornecer armações - perdoe-me Pai esta linguagem, mas aquele homem
tira-me da habitual Santidade - Disse o pároco entre dentes, coisa que Arnéss
por educação fingiu não ouvir. – Não. Ontem foi ao meu quarto como faz tantas
vezes e a cena repetiu-se. Anda por lá às voltas, senta-se, mais uma volta e
vai desfiando os seus problemas, as suas angústias. Vai dizendo que se sente
cada dia mais fraco, que não sabe se tomou a melhor atitude em vir para o
Castelo e lá me vai confessando o que nem a vossa excelência confessa. Conta
os passeios que dá com a Madame e as viagens às compras que faz com F.J. Diz
que se sente bem junto a mim, que sente uma paz muito grande quando está no
meu quarto, pois sou a única que não quer tirar-lhe “forças”. Mal sabe o
desgraçado que foi ele que me comeu o “file mignon” e me reduziu ao osso duro
de roer, que hoje sou… Vou adiando e começo a achar que nunca lhe contarei
Padre. Confesso ter um pouco de receio pela forma como reagirá. Lembro-me que
certo dia descobriu, que um amigo o tinha enganado num negócio de carrinhos
de colecção e não fosse, outros amigos segurá-lo, temo que nesse dia ele se
tivesse tornado um assassino. Vou continuar a ser sua confidente, assim
sempre vou observando os “apetites” que ainda possa ter, muito embora
enfraqueça de dia para dia. – Filha,
tens que lhe dizer, tens que lhe dizer, antes que uma tragédia muito maior se
abata na tua vida. Ou lhe dizes, ou o afastas para sempre seja de que modo
for. O Senhor vai ajudar-te nessa missão minha filha. Ah, e já agora também
te quero dizer, que conta comigo para almoçar amanhã. Arnéss ia dizer algo, mas uns braços pequenos e
quentes embrulharam-na num abraço, fazendo com que ela se despedisse
rapidamente e desligasse o telefone. Era Katinha, uma menina que veio passar
uns tempos ao castelo. Menina meiga e muito dada a afectos, por vezes mal
interpretados pelos “gabirus” que coabitavam no Castelo e pelas más-línguas
de quem por lá servia. Arnéss parecia ter sido inundada pelo sol e uma
doçura encheu-lhe as faces, levantou-se e retribuiu o abraço e beijou aquelas
faces rosadas e cheias de vida. Recomeçou as suas lides habituais enquanto
pelo canto do olho, observava Katinha, que estava com ar sonhador, a olhar
pela janela. Perguntou-lhe: – Então minha princesa, que vai fazer hoje? – Sabe, o Joseph, tem algo que me fascina. Estou
a pensar pedir-lhe que sele a égua Alfa e o cavalo Romeu e me leve a cavalgar
por entre os bosques, serpenteando o monte que se avista daqui. – Nãooooo!! – Gritou Arnéss deixando escapar de
entre as mãos o monte de pratos Limoges da colecção particular da “madame”
que tinha acabado de pegar para colocar na pia. Centenas de estilhaços
espalharam-se pelo chão da cozinha. Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 19 de Julho de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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