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CAPÍTULO 6. AS DÚVIDAS DE NOVENAT Nove
Espero ser um fiel tradutor do cónego. “… porque a Kátinha
me enfeitiça, Senhor. Quem lhe pode resistir? Aquela pele sedosa, aquela boca
sensual de onde se derrama um francês mais cativante do que o das francesas,
aqueles seios perfeitos. Perdoai-me! Sabeis bem quanto me contenho na azáfama
do roçagar dos paramentos e como me escandaliza a vontade do Anardá agarrar a pequena. Senhor, sabeis bem que o meu
maior pecado é do espírito espicaçado pelo meu pobre corpo que Vós não
quereis amansar. Sim, o mais que fiz foi tocar nos mamilos da Kátinha. …………………………………………………………………………………. Desde há quinze anos que digo missa no Castelo de
Chamborg e confessei toda a gente que por lá
pernoitou mais de um mês seguido. Pois posso garantir que de todos ouvi
mistificações para iludir fraquezas ou justificar gabarolices, embora mais de
uns do que de outros. Sim, também confessei o Joseph e a Frau
Jeremein, Nem me atrevo a escrever como. As pessoas
esquecem-se que, num meio tão restrito, me é dada a possibilidade de cruzar
informação. Se tivessem pensado um bocadinho, tinham procurado confessores
diferentes. Vou ser franco, a Madame Lilly
de Chamborg só tem relações verdadeiramente íntimas
comigo. O Joseph acha-a demasiado velha e estragada, mas, como bom empregado,
cumpre o papel que a Madame lhe destina, ou seja, o de fazer cenas que
provoquem ciúmes ao Marquês e sejam ampliadas pelos binóculos e a boca do Anardá, para conhecimento e inveja de toda a gente no
vale do Loire. O A cozinheira é sincera nos seus arroubos pelo
Joseph. Este, porém, não consegue desenvencilhar-se do papel que assumiu
para, enfim, lhe cair nos braços. Embora metido numa palhaçada, é talvez das
pessoas mais honestas que por aqui anda. Frau Jeremein tem feito crer que não se deixa
enrolar com patrões ou colegas de trabalho. Não consegue esconder, contudo,
uma ligação a Mendés, que vai para além dos deveres
de uma empregada bem paga. O nudista Anardá – na
verdade, o grande sonho dele era ter sido o Tarzan - apareceu-lhe uma vez
assim como nasceu. Ela fugiu a refugiar-se no quarto do Marquês e por lá
ficou tempo suficiente para dar mais de cem injecções
ao patrão, que de lá saiu meio trôpego e com um sorriso nos lábios. Disse-me
o Anardá, pesaroso, que lhe pareceu ter ela gostado
da cena de exibicionismo, mas que estranhamente lhe fugiu… Mendés-de-Chamborziac
disfarça mal as suas novas preferências por Arnéss
e Frau Jeremein. Por
outro lado, Lilly tenta enganar-nos dizendo que ele
está sofrendo de amores serôdios, quando aquilo que a consome é a
possibilidade do Marquês doar ou fazer testamento a favor das suas novas
amiguinhas. E ontem a Kátinha veio
mostrar-me, toda orgulhosa, uma carta de um tal Salvador Santi
a dizer-lhe que contava com ela para entrar numa peça a levar à cena no Ambassador, um teatro da Broadway, cuja acção decorreria no Castelo de Chamborg,
onde um horrendo crime haveria de acontecer. Tudo isto me preocupa sobremaneira. Algo de muito
grave se conspira por estes lados e não consigo ver muito bem o que é. …………………………………………………………………………………. Meu Deus, como me castigas! Porque me fizeste
tentar pela bela cozinheira Arnéss, desejá-la
ardentemente, ficar louco? Para correr à procura de Lilly
a fim de sossegar a carne? E Lilly, ao contrário do
costume, que se mostrou tão alheia, cismando noutra coisa, falando por
monossílabos. O que se passa? …………………………………………………………………………………. …matarem-me a mim? Mas para quê? A quem
aproveitaria o meu desaparecimento? Será que querem liquidar o Marquês? Se ele não
modificou o testamento, como creio, a grande beneficiária seria a Lilly. Mas se ele modificou o testamento poderá haver
outros beneficiários. O Marquês, meio tresloucado e atazanado por alguém,
poderá levar a sério as cenas de Joseph com a Lilly
e acabar com o motorista e a senhora. Só por causa da honra ferida e em
público exposta. Porque, quanto à Lilly, preferiria
que ela morresse de tédio. Será que os dois vão sucumbir a um golpe do velho fidalgo?
Ou desaparecerá apenas o motorista? Hoje, Frau Jeremein veio dizer-me, com um brilho nos olhos, que está
para chegar um tal Tempicosse, ou coisa parecida,
para investigar um ou mais homicídios aqui perpetrados. Ora, no Castelo de Chamborg, não ocorreu, até este momento, qualquer
homicídio. No entanto algum assassínio parece estar encomendado. A morte violenta anda por aí a rondar e não sei
que fazer para a afastar. …………………………………………………………………………………. Desconheço o que veio a suceder no Castelo de Chamborg, mas não há dúvida que o cónego Novenat estava muito intranquilo. Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 26 de Julho de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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