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PARA UM FINAL FELIZ | Cloriano M. Carvalho [… a
publicar no dia 9 de Agosto …] |
CAPÍTULO 7. SANTI DE REGRESSO AO PASSADO Inspector Boavida
Foram apenas dois anos de um amor fogoso e
ardente que acabou por degenerar num desgosto que ainda hoje perdura. Santi sofrera em silêncio durante todos estes anos a
terrível dor da traição. A ferida fora agora inesperadamente reaberta. Um
velho e maçador detective reformado da Polícia
Judiciária Portuguesa, que se assina simplesmente Tempicos
– estranho nome… –, um típico machão português que habitualmente se pavoneia
pelas praias do sul do país, convenceu-se de que tem dotes de escritor e
pediu-lhe uma oportunidade de mostrar os seus talentos na escrita teatral. Santi, para o despachar, disse-lhe que sim. Mas exigiu
que a peça estivesse pronta a tempo de estrear na próxima temporada teatral.
E mais: impôs que a trama fosse desenvolvida em registo policial e envolvesse
um crime. Tempicos rejubilou de alegria e
respondeu-lhe: «Terá notícias minhas em breve. Siga a Bancada Directa». Santi ficou curioso,
muito curioso. Ao princípio pensou que a tal Bancada Directa
teria alguma relação com o mundo do futebol, um desporto que ele abomina, por
não entender que prazer pode haver em assistir a um grupo de homens de
calções vestidos a correr e a chutar uma pobre e indefesa bola, o que,
segundo ele, só pode contribuir para a alienação do povo. Mas após uma
pesquisa rápida na internet, Santi percebeu tudo. O
incrível Tempicos havia engendrado um expediente
bastante original e criativo que lhe permitia produzir um guião teatral sem
qualquer esforço, explorando a boa-fé de sete notáveis escritores, sete
ilustres personalidades que ocupam os seus tempos de ócio escrevendo e
decifrando enigmas policiais. Tempicos desafiou-os
a escrever uma novela a várias mãos, definindo-lhes previamente as regras que
deviam cumprir, descrevendo-lhes as personagens e fixando o local de acção: Castelo de Chamborg. Ao
ler o nome do Castelo, Santi sofreu um forte abalo
que o remeteu para a memória dos tempos que havia reprimido e recalcado no
mais íntimo do seu ser. Fora naquele Castelo que ele vivera o seu grande
amor. Os nomes dos protagonistas não correspondiam aos das pessoas com quem
vivenciou o seu passado no Loire. Mas à medida que os capítulos iam sendo
publicados, as personagens foram-se tornando cada vez mais reais e Santi foi associando os protagonistas da novela à sua
história de amor. Só a personagem mais jovem, a tal Kátinha
que o cónego Novenat sustenta ter sido convidada
para ingressar no Teatro Ambassador, escapava ao
seu conhecimento. Ela ainda não havia nascido. Todos os outros, desde a Lilly ao Anarda, encaixam no perfil psicológico das
pessoas com quem partilhou aqueles adoráveis e, ao mesmo tempo, tenebrosos
tempos da sua juventude. Eram eles, só podiam ser eles. Santi
estava de regresso ao passado! Quando chegou ao Castelo, as pernas
tremiam-lhe. As mãos gelaram. Um fino suor frio correu-lhe pela espinha
abaixo. Conduziu o carro que havia alugado no aeroporto até uma zona próxima
do Castelo. Ninguém o viu. Não avistou vivalma. Nada indiciava que houvesse
gente no Castelo. Com cautelas, para que ninguém o visse, Santi
penetrou lentamente pelo Bosque dentro. Passaram largos minutos. No Castelo
continuava a reinar o silêncio. Nada, nenhum ruído. Apenas se ouviam, vindo
do Bosque, os sons dos pássaros. De repente, um sinistro silvo de cobra. Ou
seria de uma seta de caça? Um grito lancinante. Depois, passos pesados em correria
por entre a vegetação. Poças pisadas por desatino. Um homem sai do Bosque
correndo em direcção ao Castelo. Era Tempicos! Voz rouca e profunda. Algum tremor na garganta:
«Acudam, acudam! O Marquês está morto!! Mataram o Marquês!!!». Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 2 de Agosto de 2026 TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG, Edições Fora da
Lei, Ano de 2011 |
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© DANIEL FALCÃO |
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