INTRÓITO

Uma iniciativa inédita nas páginas do Código Secreto

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EPISÓDIO 5.

UMA REACÇÃO DIFERENTE

Samuel T.

– Porque não me explica antes o que quis dizer quando se referiu ao facto do lenço poder adensar ainda mais o mistério e inclusivamente envolver no assunto pessoas que lhe são alheias!?

– Não lhe posso dizer mais nada! Terá de confiar em mim! – foi a resposta, dita quase de um fôlego. Demasiado rápida até, pensei, como se tivesse sido estudada ou como se ela estivesse ali a repetir uma lição aprendida em algum lugar.

– Não sei porque hei-de confiar em si… a esse ponto, – acrescentei, sentindo agora uma estranha curiosidade em saber mais. De um lado, embora você pareça não partilhar desse ponto de vista, o seu irmão parece considerar que eu sou o único católico que não vai à missa neste país.

Depois, embora esse seu desacordo, é a primeira vez desde que para cá venho passar os fins de semana que se digna dirigir-me a palavra. Não acha que é pedir-me demais!? Que eu confie em si…! – e acentuei suficientemente o final da frase.

Normalmente, ela sentar-se-ia, torcendo as mãos. Eu não estranharia, até, algumas lágrimas ao canto dos olhos e ainda um suspiro fundo. Este seria o comportamento normal… mas ela não era dessas, ou melhor, era diferente.

Lançou-me um olhar irado, que eu pensava que não existisse nas pessoas que “ajudam” à missa, como ela fazia regularmente, e encaminhou-se para a porta, elevando a voz com um “Faça o que quiser, seu… seu…!!!

Sem terminar a frase, bateu a porta e deixou-me ali, especado, de cigarro ao canto da boca e pensando muito sinceramente na paz que tinha perdido. Começava a estar de acordo com o cabo da Guarda e pensava muito a sério que aquele gajo deveria ter ido morrer a outro lado. Abri aquela que deveria ser a vigésima lata de uma carne horrível que o sacana do taberneiro me tinha vendido em promoção e, disposto ao sacrifício, barrei o pão com aquela mistela.

 

Fontes:

Secção Código Secreto nº 220, 19 de Maio de 1988

Blogue Repórter de Ocasião, 6 de Maio de 2026

 

© DANIEL FALCÃO