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VI Convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade Informações Complementares aos Concorrentes Fase Preparatória do Futuro Grande Romance Capítulo
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SENHORES POLÍCIAS DE DOMINGO | Búfalos Associados |
CAPÍTULO 11. BASTA DE BRINCADEIRAS! Onaírda
Quem não os
leu não perdeu grande coisa. Esta história é escrita por vários policiaristas com a mania que são escritores. Para
começar temos o Tempicos uma espécie de engatatão, já fora de prazo. Depois vem a Mary Lou da Broadway – dizem que é actriz. Por cá vive a
sua sobrinha Kátinha, já a pedi-las… Depois
intromete-se o beato Novena de mãos pegajosas e de conselhos duvidosos. Onaírda anda sempre de gatas, atrás das gatas mas só
apanha copinhos de geropiga. Jeremias só
escreve heresias. Boavida está na maior, cremos que na praia. Por fim Zé do Rosso queria dar mais uma cambalhota mas faltou-lhe a
gasolina. Arnes toma conta da virgem Kátinha ali para os lados da Trofa. Perceberam o enredo?
Ainda bem! Vamos lá falar
a sério. Basta de brincadeiras! Onaírda saiu de casa para se ir encontrar com Mary Lou. Tinha um mau pressentimento, a coisa não iria sair
tão bem como no primeiro encontro. Mary Lou até lhe
prometeu que ele a acompanharia no seu regresso aos States.
Depois veriam se valia a pena juntarem os trapinhos e passarem a viver como
um casal normal, tal e qual como o amigo Cavaco gosta que sejam – apenas
normais. Sem desvios e desvarios anormais. Onaírda
transportava no pensamento o objectivo de se
relacionar intimamente com Mary Lou, enquanto ela
aguardasse o regresso às terras do Tio Sam. Coisas sem importância. Seriam
intimidades como se faz num teste a um Vinho do Porto – prova-se, se for bom,
saboroso e encorpado, continua-se. Em caso contrário deixa-se e muda-se. Foi,
é e será sempre assim a vida. Tempicos marcou o encontro com Mary Lou
no dia 25 de Abril. Onaírda encontra-se dois dias
depois com a beldade luso-americana, estrela brilhante da Broadway. Marcam
segundo encontro para quatro dias depois na Alameda, junto à Fonte Luminosa.
Coincidência era o 1º de Maio e Onaírda
esqueceu-se. Quando Mary Lou se aproximou dele,
encostado ao rebordo de uma fonte onde a água era mais castanha do que
límpida e azul, fê-lo em simultâneo com uma multidão ululante, bradando
gritos de revolta, querendo melhores salários, melhores condições e maior
segurança. Pois é, isso também Onaírda queria mas
tinha de se contentar com o que tinha e não ter inveja dos outros e dos seus
bens. Mary Lou foi logo directa ao
assunto. – Amigo (?) Onaírda. Aproximei-me de si, não para ter o grato prazer
de o conhecer ou louvar-lhe as boas intenções que diz que teve – e eu não
acredito - para com a minha extremosa mana Nelinha. Vim a Portugal para
esclarecer a sua participação na morte dela. Onaírda ficou preocupado e confirmou os receios que teve
quando saiu de casa. Mas deixou Mary Lou continuar
a falar – A minha
sobrinha Katinha Vanessa, que agora está a viver
comigo em New York, depois que conseguiu deixar
aquele lar opressivo de família adoptiva na Trofa,
contou-me que a sua mãe Nelinha foi assassinada no Museu do Teatro. Segundo o
que contaram à Katinha o suspeito número um era o Onaírda. Apesar de estarem presentes todos
os outros padrinhos
de sua mãe, as provas apontavam
todas para o Onaírda. O móbil do crime tinha sido
um violento ataque de ciúmes por causa de Tempicos
e do beirão dos aceleras, que resultou que o Onaírda
queria que a Nelinha o acompanhasse para a sua adega de Sintra (a boa
jeropiga faria com que ela o aceitasse de novo), e como ela resistiu, projectou-a do janela do 1º andar, que fez com que a dita
fosse cair em voo rasante para a mata, ali ao lado, do Museu do Traje. Tipo
irascível é que é o Onaírda se isto for verdade…. Mary Lou calou-se e aguardou as explicações do detective de Sintra – Cara Mary Lou! Esta conversa não permite que possamos conviver
daqui em diante. Conheci-a, gostei de si, mas acabou-se Siga a sua vida que
eu cá seguirei a minha. Mas quero contar o que aconteceu realmente no tocante
à morte de sua irmã. Fui realmente acusado da morte da Nelinha nas
circunstâncias que sabe. Estive detido na PJ (nem se ralaram que eu era um
antigo inspector credenciado e colega de Tempicos). Fui interrogado durante vários dias e
confessei o crime mais de cem vezes. Mas a PJ não se convenceu, disse que eu
estava a esconder a verdade e libertou-me. Segundo sei virou-se para outros
suspeitos, mas não obteve provas concludentes e o processo arrasta-se a
caminho da inexorável prescrição legal, que são 30 anos nestes casos. Nunca
contei a verdade. Omiti sempre quem devia ser o autor da morte da Nelinha,
mas hoje, e em face de estar perante uma mulher bonita e que quer ser
esclarecida, o que não acontecia com os inspectores
da Judite, sou obrigado, por imperativo de consciência a contar toda a
verdade e só a verdade. E Onaírda prosseguiu: – Não sei em
concreto quem matou a Nelinha. E nem seria justo da minha parte estar agora a
apontar, com subtileza, o autor do homicídio. Apenas sei que a Nelinha foi
atirada da janela de um primeiro andar para o exterior por alguém e que eu
não fui essa pessoa. Poder-lhe-à parecer, então,
estranho que eu tivesse confessado o crime na Judite, quando não tinha sido o
autor do mesmo. Onaírda passou a mão pela testa para limpar umas gotas
de suor e afagou os seus cabelos longos, louros e encaracolados. Parecia mais
magro do que realmente era. Na realidade pesava 60 quilos e agora parecia que
pesava 40. Continuou a sua narrativa. Mas percebia-se que Mary Lou não estava a embarcar na conversa de Onaírda. – Está provado que eu, Onaírda,
não compareci ao Convívio da Tertúlia da Liberdade que se realizou em 2006 no
Museu Nacional do Teatro em Lisboa. Andava com azia, tipo como aquela do
árbitro Jorge Coroado. A minha ausência foi tão notada que todos os presentes
ainda hoje se lembram e quando foram interrogados realçaram este facto. Nem
há fotos da sua presença ao lado dos confrades do Policiário, todos contentes
e de sorriso aberto, tipo Colgate. Entre os presentes estavam todos os padrinhos
da Nelinha sobejamente conhecidos, que se faziam amigos uns dos outros, mas
andavam todos ao mesmo, de per si, atrás da afilhada. Seria um deles o
assassino, mas quem? Francamente não sei. Porque confessei o crime? É fácil
de explicar. Uns dias antes tinha sido preso pela Policia por andar a dar
milho aos pombos no Rossio. Foi constituído arguido e o TIC já tinha ultimado
o processo para enviar ao Tribunal. Tempicos soube
do caso e tentou ajudar-me. Convenceu-me que eu arriscava uma pena entre os
15 e os 20 anos por aquele crime. Ele podia ajudar-me se eu confessasse que
tinha morto a Nelinha, porque a pena deste crime não ultrapassava os 2 anos.
Admirei-me e como vi que tinha vantagens com a situação, não me importei de
confessar que tinha morto a Nelinha e assim livrava-me do crime de dar milho
aos pombos. O Tempicos tinha influência no meio
judicial e arranjou as coisas a preceito. Na realidade Tempicos
foi um verdadeiro amigo. E Onaírda concluiu: – Já me
disseram que quem matou a Nelinha foi o Detective Tempicos. Mas eu não acredito. Ele é um santo, uma jóia de pessoa. Mas também já me disseram que se ele é um
santo, será de pau carunchoso. Mary Lou ouviu
este arrazoado, torceu o nariz, abriu a malinha de mão e sacou um pequeno
revólver para disparar sobre aquele que lhe tinha movido tão grande sede de
vingança. Mesmo que não fosse ele o assassino de sua irmã, ela faria justiça
"a direito por linhas tortas" (se calhar é melhor dizer "por
torto mas a linhas direitas"). E só matando alguém ela ficaria
descansada. E assim livre desta ideia, poderia dedicar-se á sua querida
sobrinha. Mas uma
pontinha de sorte beneficiou Onaírda. Os olhares de
mais de 50 mil pessoas estavam concentrados nele e na Mary Lou. Ele era elegante e ela era boa como o milho que dava
aos pombos. Estes 100 mil olhos deveriam estar concentrados naquele
sindicalista que bravamente no palco os incitava a irem para a luta pelos
seus direitos. Mas de conversa para boi dormir estavam eles fartos. E assim
preferiam estar a olhar para aquele casal. E Mary Lou
não teve outro remédio senão guardar o revolver no
interior da malinha. Se disparasse já não voltaria para a Broadway.
Testemunhas não haviam de faltar. Quando acabou de arrumar o revolver já não viu Onaírda.
Foge!… Fontes: Blogue Repórter de
Ocasião, 8 de Março de 2026 MARY LOU, MARY LOU
– Onde estavas tu?, Edições Fora da Lei, Ano de 2010 |
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© DANIEL FALCÃO |
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