INTRÓITO

VI Convívio da Tertúlia Policiária da Liberdade

Informações Complementares aos Concorrentes

Fase Preparatória do Futuro Grande Romance

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CAPÍTULO 13.

PELOS INTERSTÍCIOS DE UMA ALEGADA MODERNIDADE, O MALIGNO RENASCE EM TODO O SEU REPUGNANTE ESPLENDOR

Nove

 Foi com grande angústia que soube das últimas notícias da Kátinha, trazidas por um tal Andy Saaavedra. Chego mesmo a duvidar da existência desse suposto crítico de arte. E queira Deus que tudo não passe de uma invenção pois, caso contrário, a Katinha fica colada ao desenvolvimento de uma das mais graves heresias da história e ao início de uma trágica confusão.

É que o Demónio busca nova maneira de negar o mistério da Divina Encarnação e encontrou em Kátinha e no dito Saaavedra dois dóceis instrumentos. Reclamando-se ambos de ideias modernas e arejadas, mais não estão a fazer do que deixar-se envolver numa apostasia que incorpora e ultrapassará as velhas e condenadas doutrinas de docetas, gnósticos, arianos, nestorianos e monofisistas.

Vejamos como.

Pelo que nos contam – as lágrimas vem-me aos olhos só de pensar nestas coisas – a Kátinha já ensaiou a venda de uma criança que gerou. Agora propõe-se ser barriga de aluguer. E nada a impede de criar um embrião cujos progenitores sejam dela desconhecidos. Basta que lhe paguem, pois já vimos – a crer no relato do Saaavedra – que só não fechou negócio com um herdeiro de Lúcio Tomé Feteira porque o dinheiro podia tardar demasiado.

Além disso, se fosse virgem não ficaria excluída da possibilidade de ser barriga de aluguer. Mas, não o sendo, pode, em qualquer caso, fazer uma operação para recompor o hímen. Uma vez esta membrana restaurada, nada a impedirá de requerer exames periciais, antes do parto, para que seja testemunhada a sua virgindade.

Os meus leitores, na sua grande maioria argutos policiaristas, já começaram a ver a satânica trapaça em que isto pode desembocar.

Quer dizer, um poder oculto anda a manobrar estas duas pobres criaturas – Kátinha e Saaavedra – para as levar à demonstração inequívoca de que uma moça pode ser mãe sem acto sexual, sem se aproximar de esperma, sem dar um óvulo seu e, ainda, em sua perfeita virgindade, conforme testemunho médico.

Para compor o ramalhete desta calamitosa história constatamos, aterrados, que não foi casual a ida da Kátinha para a antiga casa de Boris Karloff, onde, segundo consta, habitam fantasmas. É que estes são essenciais para fazer crer nas vozes que a Kátinha haverá de invocar – se o desaforo em curso não for travado – para justificar aquela muito estranha gravidez e o consequente parto.

Se não nos unirmos contra estes ardis, será proclamado outro nascimento de origem divina e negado o anterior. Instalar-se-á a confusão e o Rei das Trevas começará a governar os incautos terráqueos até ao dia do Armagedão.

Urge trazer Kátinha de volta ao redil de um modesto e bom pastor.

Dilacerado.

 

J. Novena,

30 de Agosto de 2010

 

Fontes:

Blogue Repórter de Ocasião, 22 de Março de 2026

MARY LOU, MARY LOU – Onde estavas tu?, Edições Fora da Lei, Ano de 2010

 

© DANIEL FALCÃO