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Autor Data 1 de Março de 2026 Secção O Desafio dos Enigmas [235] Competição Torneio
“Solução à Vista!” – 2026 Problema nº 3 Publicação Audiência GP Grande Porto |
TO ROME WITH LOVE Bernie Leceiro Roma brilhava
sob o sol dourado do fim da tarde, com o trânsito a mover-se preguiçosamente
e os sinos distantes a marcar as horas. Ferreirinha ajeitou o vestido
enquanto caminhava de mãos dadas com Alves da Selva pela Piaza Navona, o ar
morno carregado de vozes, risos e o cheiro doce de gelado e café
recém-tirado. Era o seu
aniversário de casamento – trinta anos. Tinham prometido que um dia voltariam
à cidade onde tinham estado há dez anos, e agora ali estavam, com a Fontana
dei Quattro Fiumi à frente e o coração cheio de histórias. Alves da Selva
tirou o telemóvel do bolso e tentou tirar um selfie; Ferreirinha riu,
empurrou-lhe a mão e encostou-se ao ombro dele. “Faz-me parecer
italiana, pelo menos,” brincou ela. “Já pareces,”
respondeu ele, antes de lhe roubar um beijo rápido. O mundo seguiu
a rodar à volta deles – as buzinas ao longe, o bulício dos turistas a acenar
bandeiras, uma banda de rua a tocar Nel blu dipinto de blu de Domenico
Modugno. E, por um instante, parecia que Roma existia apenas para eles os
dois, quando essa tranquilidade é interrompida pelo encontrão de um grupo de
dois meliantes em que ambos envergavam camisolas da AS Roma, seguido por um
grito agudo de Ferreirinha – “Roubaram-me a carteira!” Um dos
indivíduos com o nº 21 nas costas segue para Norte o outro com a camisola nº
92 para Sul da praça. Alves da Selva fica indeciso qual dos dois seguir,
bastante mais novos, seria tarefa impossível apanhar qualquer um deles,
lançar o alerta aos seus colegas carabinieri também seria infrutífero,
centenas de pessoas andam com estas camisolas em Roma. Provavelmente as
camisolas corresponderiam aos seus ídolos da equipa de futebol giallorossa da
capital. Resta tentar recuperar rapidamente os documentos, e esperar que
apenas estivessem interessados nos poucos euros que enfeitavam a carteira de
turista da sua mulher. Ferreirinha
apenas conseguiu ver o braço esquerdo do ladrão tatuado com duas listas
horizontais a pegar na carteira do interior da sua bolsa de tiracolo e os
dois a fugirem cada qual para seu lado da praça. No meio da azáfama de
selfies junto à fonte ninguém deu importância ao roubo, tão pouco forneceu
alguma pista adicional, apenas olhares de pena e solidariedade. – “Vamos
rápido” – avança Alves da Selva – “se a minha intuição estiver certa, vamos
tentar encontrar a carteira junto à Fontanna del Nettuno, nesta direção” – e
apontou para Norte. Felizmente
assim foi chegado junto da fonte, guardada pela imponente imagem guerreira em
mármore de Neptuno, viu a carteira boiando parcialmente submersa. A carteira
estava molhada, mas os documentos (cartão de cidadão) intactos, faltavam 60
euros em notas. – “Vão-se os anéis, mas ficam os dedos!” – lamentaram-se
perante a estátua que representa a alegoria do triunfo do bem sobre o mal. No final do
dia, Alves da Selva estava de rastos após tantas emoções e quilómetros
caminhados. As visitas aos monumentos mais famosos da cidade arrasaram-no. O
Coliseu, o panteão, o fórum Romano, as catacumbas, os museus do Vaticano… mal
caiu na cama logo entrou num profundo e curioso sonho. Encarnou uma bela
mulher, encontrava-se num templo de arquitetura clássica e grandiosa, com
arcos majestosos e colunas a lembrar a basílica de S. Pedro, com duas
estátuas à entrada de deuses da mitologia grega. Apolo, representando a luz
da verdade, à esquerda, e Atena, deusa da sabedoria, da civilização e da
matemática, à direita. No templo cerca de sessenta pessoas discutem as suas
teorias, entre as quais identificou algumas das mentes mais brilhantes da
Grécia Antiga. Fez uma vénia perante Platão e Aristóteles – Reconheceu-os
pelas obras que seguravam, Timeu, e Ética a Nicômaco, respetivamente.
Cruzou-se com vários filósofos e pensadores. Heráclito, Diógenes, Euclides,
Ptolomeu, mas os seus parcos conhecimentos em filosofia não eram suficientes
para uma breve troca de palavras que fosse com esses génios. Ainda tentou
falar com Epicuro sobre a tranquilidade que o futebol de Farioli transmitia
ao seu Futebol Clube do Porto e o prazer que lhe dava discutir futebol à
segunda-feira com os amigos à mesa do café. Coroado com folhas de videira, um
símbolo associado à alegria e à felicidade, Epicuro estava a escrever um
livro, rodeado de seguidores. Ignorou-o, certamente ainda não conhecia a
magia do futebol de Farioli… A um canto um
célebre filósofo e matemático escrevia num caderno, enquanto um grupo de alunos
o observa atentamente, tirando notas das suas explicações. Baixando o olhar
depara-se com o que o seu olho clínico de inspetor sénior interpreta como
sendo um roubo à descarada, tal e qual o da tarde na piaza Navona. Alves da
Selva abriu os olhos e viu os magníficos estuques do seu quarto de hotel, lá
fora o dia clareava e as primeiras buzinadelas do trânsito infernal de Roma
acordaram o inspetor. No dia
seguinte, resolveram poupar as pernas e aproveitar os encantos de Roma e das
suas fontes, almoçaram numa tratoria de rua. O jantar de aniversário de
casamento foi num simpático restaurante, Sapori D’Ishia, perto de Villa
Borghese, com a particularidade do chef ser também pianista e terem
acompanhado um Cognilio all’ Ischitana ao som do Arriverdeci Roma de Renato
Rascel tocado pelo multifacetado chef num faustoso piano de cauda que ocupava
quase meia sala. Esta não seria
propriamente a melhor noite para retomar o sonho da noite anterior. Poderá o
leitor ajudar Alves da Selva a interpretar e concluir o seu sonho? Onde decorre o sonho de
Alves da Selva? Quem é o personagem roubado? O que foi roubado? Já agora
porque optou Alves da Selva por procurar a carteira na zona norte da plaza
Navona? |
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© DANIEL FALCÃO |
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