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Autor Data 9 de Março de 1963 Secção Página
Policial [9] Publicação Correio do Ribatejo |
O RAPTO DE RUI… Capin Meados de Fevereiro. A chuva impiedosa parara por momentos. Só o frio
não parara. Aquele Fevereiro!… Era uma moradia modernamente estilizada e
dominava inteiramente o bairro, bem iluminado, e o mar, cujas àguas se
notavam ao longe, pelos reflexos das luzes das docas. A entrada para o jardim e, portanto, para a casa,
situava-se no fim da rua, que se interrompia ali, naquele alto… Antes de entrar, o Inspector Martingança observou
detalhadamente o ambiente. Era realmente uma casa bonita, onde ninguém
sonharia com o rapto dum rapazito de três anos… Olhou a rua, comprida, com os
seus seis cruzamentos bem marcados, como obedecendo a um moderno plano de
urbanização, satisfazendo mesmo as necessidades da gente de sociedade que ali
vivia. Ao lado do portão de entrada, havia a garagem da família. A penetração no jardim fronteiro à casa fora-lhe
franqueada por um dos agentes que se encontravam já, procedendo aos diversos
quesitos criminais: manutenção da ordem, observância estrita de impressões
digitais, marcas de sapatos, fotografias, etc., notou que o portão, de ferro,
era comandado elèctricamente, com mola recuperadora. Percorreu o caminho de cimento, entre duas áleas
de cedros, formando um arco quase até ao início da escadaria. Limpou bem os sapatos no tapete gradeado, pois o
caminho de cimento sofrera de onde em onde a invasão da terra do jardim, por
intermédio da chuva que caíra. Subiu o primeiro lanço de escadas, voltou à
esquerda, novo lanço de escadas e atingiu o patamar superior, na entrada
alpendrada da mansão. Voltou a limpar os sapatos, desta vez num tapete de
feltro felpudo. A criada ainda chorava no «hall». Pediu-lhe
informações sobre a maneira de atingir a parte essencial do interior da casa
e foi elucidado por um gesto simples da criada que, sem se levantar e sem
voltar a cabeça, dava largas à sua emoção. Entrou num corredor com o cuidado de muitos anos
de prática e atingiu a sala de jantar. Notou a azáfama dos seus homens. O seu ajudante
elucidou-o de tudo. – Ninguém tocou em nada? – Não o permiti, Chefe. Com o mesmo cuidado o Inspector deixara intactas
algumas pègadas de sapatos masculinos que notara, e observou tudo. Começou pelo quarto donde fora raptado o Rui. Cama em ligeiro desalinho e as mesmas pègadas no
chão. Passou novamente à sala de jantar. Mais pègadas, que os especialistas
fotografavam. Caminhando em frente passou à sala de estar, adornada com o
mobiliário mais moderno que havia. Fogão de sala, televisão e bar… aberto.
Aproximou-se e notou um cálice com resto de Wodka e garrafas de Wisky. Wodka,
Ginja, Rum, espumantes, Porto, etc. Mais pègadas. A observação dos pormenores
visíveis foi cuidadosa. Reparou na noite lá fora, iluminada por milhares
de luzes e foi então que reparou que o cortinado, dividido, em dois,
apresentava marcas de dedos engordurados, talvez, dum lado e doutro da linha
de separação. Fez notar isso ao especialista de tal serviço. Voltou ao corredor que dava para o «hall» e
verificou a existência dum corredor mais pequeno que, partindo do meio do
anterior, acabava também no «hall», numa porta. Neste as pègadas eram menos
nítidas. Era, de facto, no «hall» que elas mais se evidenciavam… Voltou a chover e assim continuaria até de
madrugada. E três horas depois já se tinham conseguido juntar ali os
presumíveis culpados: A criada, rapariga dos seus 22 ou 23 anos,
reservada, abrira a porta às 22 horas certas, afirmou, porque as ouvira no
relógio de parede do «hall». Pensava tratar-se de seus amos que, entretanto,
teriam resolvido não ir ao cinema. – Fui então atacada, mesmo ali no vestíbulo, por
um homem alto e gordo que me obrigou a cheirar algodão embebido em
clorofórmio. Senti a cara molhada e sei que devo ter desmaiado, pois acordei
passados dez minutos, conforme vi no relógio. Corri imediatamente para o
quarto dos miúdos e dei pela falta do Ruisinho. Corri novamente pela
escadaria abaixo, cheguei à porta da rua e só tive tempo de ver um carro a
dobrar a esquina. Só sei que era um carro grande, mas não lhe vi a cor porque
a chuva não mo permitiu. Corri novamente pela escadaria acima e só parei no
telefone. Telefonei imediatamente à polícia. E desatou novamente em grande pranto. Depôs seguidamente o padeiro habitual da casa,
homem dos seus trinta e cinco anos, rude, entroncado e com o seu metro e
oitenta e três de altura: – Resolvi ir ao cinema de lá do bairro com a
minha mulher e voltámos para casa cerca da meia hora. Quando me foram chamar
a casa já eu dormia bem e não sabia de nada disto, até porque tinha de me
levantar às cinco horas da manhã. Foi a vez do senhor Silva, homem elegante, no seu
fato de fazenda preta, cabelo liso e molhado, fino bigode e óculos de lentes
ligeiramente esverdeadas, finas luvas de couro, e sem o seu habitual chapéu,
rèclamista da firma do senhor Augusto e que visitava e era amigo da casa: – Fiquei em casa, devido ao mau tempo que fazia e
aproveitei para esboçar um novo tipo de rèclame da firma em toldos e janelas
conforme havia proposto ao senhor Augusto. Em seguida deitei-me. Declarou Paulo rapaz de 16 anos, estudante, parente
da família, delgado, testa alta: Vim jantar ontem com a família após o que
voltei a casa, acompanhado dos primos que iam para o cinema. Fui estudar para
casa. Restava ouvir a padeira que estava doente há dois
dias e o senhor Pais, viajante da firma, que se encontrava nesse momento a
300 Kms de distância. Um cartão ma mesa central da sala de estar, com
inscrições a letra de imprensa dizia o seguinte: «Para resgatar o seu filho mais velho deve mandar
a criada, sozinha, ao cais de… às 4 horas, com 10.000$00. Lembre-se que deve
vir só e só assim levará o Rui … vivo!» Relatório dos peritos, apresentado neste momento,
e ainda sujeito a estudo posterior: Impressões digitais: – Imperceptíveis nos
puxadores das portas. Marcas de dedos femininos nos cortinados da sala
de estar. Pègadas – normais, de sapatos de homem,
acentuadas no vestíbulo e espalhadas em todos os sentidos, na sala de jantar,
sala de estar, quarto e corredores: – Não tocou em nada até a Polícia chegar? – Não senhor Inspector, respondeu a criada, ainda
a choramingar. – O aquecimento da casa esteve sempre ligado? – Sim, senhor Inspector, tinha ordens para assim
proceder. – Senhor Silva, de que marca é o seu carro? – Lância Flamínia, último modelo, Inspector. –
respondeu o senhor Silva, com um sorriso incrédulo. – Onde deixou o seu chapéu? – Em casa! Com a pressa nem me lembrei de o
trazer. – E o guarda-chuva? – Está no carro, Inspector. Mais uma pergunta: – Senhor Paulo, quais as bebidas que mais aprecia? – Wodka e Wisky, senhor Inspector. –Muito bem, suspirou o Inspector Martingança,
mais para si que para os circunstantes. – O senhor Augusto havia perdido o seu filho, mas
por pouco tempo, pois há aqui alguém que deve estar interessado em devolvê-lo
para depois parar na prisão, até julgamento. E voltando-se para o agente mais próximo: – Algeme… a quem dou ordem de prisão. – Quem foi preso? – Que razões há para assim pensar? – Como se deu o rapto? |
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© DANIEL FALCÃO |
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