Autor Data 2 de Setembro de 2001 Secção Policiário [529] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2001/2002 Prova nº 3 Publicação Público |
MAIS DATAS MISTERIOSAS Daniel Falcão Dedicado
a H. Sapiens O último mistério que apresentei
numa das reuniões passadas está na génese deste “Mais Datas Misteriosas”. A
aceitação foi, tal como previa e conhecendo como conheço os meus ilustres
colegas, generalizada. Por um lado, porque implicava uma análise cuidada do
texto descritivo e, por outro lado, porque obrigava a desenvolver alguma
investigação. Este segundo aspecto é bem aceite, já
que como resultado da investigação advém sempre um acréscimo de
conhecimentos. É este, sem dúvida, o motivo que me incita a apresentar, nesta
nova oportunidade, um mistério em que as datas misteriosas voltam a marcar
presença. Tudo começou, desta vez,
com um toque de campainha. Como já era relativamente tarde, passava das 23
horas, fiquei um pouco curioso sobre quem se prestava, e com que assunto
urgente, a perturbar a calma do meu lar. Qual não
foi o meu espanto, ao abrir a porta e ter na minha frente o tal alfarrabista
(que todos já conhecem). O espanto fica a dever-se à singularidade da
situação, pois era a primeira vez, em muitos anos, que se tinha dirigido a
minha casa. O assunto devia ser realmente urgente! – Lamento muito interromper
o seu descanso e aparecer a uma hora tão tardia, mas preciso que me ajude a
decidir sobre a aquisição de alguns manuscritos muito antigos. Depois da
preciosa ajuda que me forneceu da última vez, tenho a certeza que só o senhor
me pode ajudar a decidir... – tudo isto foi dito,
literalmente, de rajada. E se mais não disse, foi porque o interrompi. Pedi, calma e amavelmente,
para se sentar, já que, mesmo tratando-se de uma visita tardia e inesperada,
as regras de um bom anfitrião a isso me obrigavam. Com ele já menos frenético
e após tê-lo deixado digerir uns goles da bebida que lhe havia servido,
solicitei-lhe que calmamente me explicasse o motivo daquela visita. Explicou-me, então, que na
manhã seguinte iria decorrer um leilão em que iriam ser postos à venda quatro
manuscritos. Como constava que, ultimamente, tinham aparecido algumas
falsificações, surgiram-lhe algumas dúvidas sobre se deveria, ou não, licitar
alguns deles. Trazia com ele um pequeno catálogo, no qual aparecia uma breve
descrição dos manuscritos. O que o alfarrabista pretendia era que, recorrendo
aos meus conhecimentos, lhe desse uma opinião sobre cada manuscrito. Tomei o catálogo nas minhas
mãos e, cuidadosamente, analisei cada uma das descrições. Não trago comigo o
catálogo mas vou indicar-vos, em traços gerais, mas suficientes, o respectivo conteúdo. O manuscrito mais antigo
indicava “A.D. 415” (apenas) como correspondendo à data em que havia sido
redigido. Descrevia a viagem de um clérigo de Braga, Paulo Orósio, até
Hipona, e o seu encontro com Santo Agostinho. O segundo manuscrito
descrevia a fundação régia do primeiro condado português, em Barcelos, a
favor de João Afonso de Albuquerque. Este manuscrito, mais recente quando
comparado com o anterior, estava datado de 29 de Fevereiro de 1300. Os dois últimos manuscritos
descreviam, embora de forma não rigorosamente igual, o mesmo acontecimento
histórico, o tratado de paz anglo-luso, no qual os ingleses exigiam, entre
outros privilégios, a liberdade de comércio na Costa de África e em S. Tomé.
Dois aspectos fundamentais distinguiam estes
manuscritos: o primeiro, dizia respeito ao idioma em
que estavam redigidos, um deles em português e o outro em inglês; o segundo aspecto, sem dúvida o mais estranho, relacionava-se com a
respectiva datação. Enquanto no manuscrito redigido
em português aparecia 25 de Fevereiro de 1642, no outro manuscrito, o
redigido em inglês, aparecia 17 de Fevereiro de 1641. Após rever, cuidadosa e
interessadamente, o catálogo, levantei-me e dirigi-me a uma das estantes do
meu escritório onde sabia encontrar-se um livro que apresentava,
cronologicamente, alguns dos acontecimentos que marcaram a história de
Portugal: “História de Portugal em Datas”?; ou era
este o título, ou qualquer outro afim. Encontrado o livro e
localizado o que pretendia, voltei a sentar-me. – E então?...
Há falsário na costa?... Tal como da última vez, a
curta conversa que tivemos permitiu-lhe dissipar as suas dúvidas. O que eu gostaria que me
dissessem, atendendo ao conhecimento que têm dos manuscritos, é se a resposta
à questão do alfarrabista deverá ser positiva ou negativa? E, caso a resposta
seja positiva, que manuscritos são falsos e que manuscritos podem ser verdadeiros?
Descreva, sucinta mas claramente, as razões que justificam a sua opinião. |
|
© DANIEL FALCÃO |
||
|
|