Autor Data 4 de Novembro de 2001 Secção Policiário [538] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2001/2002 Prova nº 3 Publicação Público |
Solução de: MAIS DATAS MISTERIOSAS Daniel Falcão Do livro indicado “História
de Portugal em Datas”, editado por Círculo de Leitores em 1994,
transcrevem-se os seguintes parágrafos: i) 414 – Viagem de Paulo
Orósio, clérigo de Braga, a Hipona, para se encontrar com Santo Agostinho. ii) 1298 – Fundação régia do primeiro
condado português (Barcelos), em favor de João Afonso de Albuquerque. iii) 1642 [29 de Janeiro] – Tratado de paz
anglo-luso. Os Ingleses exigem, entre outros privilégios, liberdade de
comércio nalguns pontos do Império (costa de África e S. Tomé). Estes são os factos
descritos mencionados nos manuscritos. Todavia, para concluirmos sobre a
eventual veracidade destes manuscritos, devemos deter-nos no calendário
utilizado em Portugal nos últimos 2000 anos (sensivelmente). Até 22 de Agosto de 1460
vigorava em Portugal a era de César, cuja contagem se iniciou no ano 38 antes
de Cristo. Nesta data, D. João I publicou uma carta régia na qual se ordenava
a substituição da era de César pela era de Cristo. Desta forma, eliminaram-se
38 anos do calendário passando o dia 22 de Agosto de 1460 a ser designado por
22 de Agosto de 1422. Consequentemente, os factos
da História de Portugal anteriores a 1460 passaram a ser designados como
factos prolépticos, isto é, factos fixados a uma data num calendário segundo
uma Era até então desconhecida. Ainda que os factos
correspondentes aos dois manuscritos mais antigos se fixassem,
posteriormente, a 414 e a 1298 da era de Cristo, quando ocorreram decorriam
os anos 452 e 1336 da era de César. Assim, quaisquer manuscritos que os
relatassem deveriam ter sido produzidos apenas depois destas últimas datas.
Logo, os manuscritos mais antigos não são verdadeiros. Adicionalmente, a
referência “A.D.” presente no primeiro manuscrito está também deslocada no
tempo, pois apenas viria a ser utilizada pela primeira vez no decorrer do
século VIII por Bede, o Venerável, na sua história
abreviada do Mundo desde a criação até ao ano 725 – “De temporibus
liber”. Os dois manuscritos mais
recentes referem-se ao mesmo acontecimento, embora tenham sido produzidos em
lugares diferentes, o que se infere a partir do idioma em que foram
redigidos: um deles em Portugal e o outro em Inglaterra. Caio Júlio César aquando da
conquista da Península Ibérica no ano 38 antes de Cristo (ou ano 1 da era de
César) trouxe-nos um novo calendário, cujo primeiro dia do ano era o dia 1 de
Janeiro. Todavia, em Inglaterra até ao ano 1752 continuou-se a considerar
como primeiro dia do ano o dia 25 de Março, tradição esta mais antiga que a
era de César. Apenas em 1752 é que a Inglaterra decidiu adoptar,
simultaneamente, o calendário gregoriano e o dia 1 de Janeiro como primeiro
dia do ano. Desta forma, enquanto em Portugal
a 31 de Dezembro de 1641 se seguiu o dia 1 de Janeiro de 1642, em Inglaterra
o dia seguinte ao dia 31 de Dezembro de 1641 foi o dia 1 de Janeiro de 1641;
a mudança da numeração do ano apenas ocorreu, para os ingleses, na passagem
de 24 de Março de 1641 para 25 de Março de 1642. Em consequência deste facto,
a data de assinatura do tratado de paz anglo-luso em Portugal foi 29 de
Janeiro de 1642 (tal como consta na referência bibliográfica), enquanto para
os ingleses ficou registado como tendo ocorrido em 19 de Janeiro de 1641.
Estes dez dias de diferença devem-se aos 10 dias de atraso que os ingleses
tinham no respectivo calendário por não terem ainda
adoptado o calendário gregoriano. Como as datas dos dois
manuscritos são posteriores às datas em que foram registados os
acontecimentos, então é possível que estes possam ser verdadeiros. |
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© DANIEL FALCÃO |
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