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Autor Data 5 de Abril de 1985 Secção Badaladas
da T.P.O. [10] Competição Problema nº 8 Publicação Badaladas |
UM CRIME RARO Donald Lam II X9 não era o seu verdadeiro nome, mas
desde que cometera, 3 semanas antes, o seu segundo crime, todos os jornais
passaram a alcunhá-lo como tal. Mandava às suas vítimas bizarras ameaças da
morte; e cumpria-as. Por isso quem recebesse uma sua ameaça se sentiria
aterrorizado. Isso acontecera a João Caetano, meu
grande amigo e confidente. «Ou paga meio milhão de contos, ou
morrerá ao meio de terça feira» – dizia o aviso encontrado pela governanta de
Caetano, debaixo da porta, ao entardecer daquele domingo. O industrial João Caetano teve uma
ideia genial. que poderia salvar-lhe a vida. São suas as seguintes
declarações, prestadas à imprensa, na segunda feira seguinte, de manhã, na
presença do Inspector Silva: «X-9 é um tipo hábil, mas trabalha só.
Como tudo lhe tem corrido bem, julga-se um Super Homem… Mas se falhar uma vez
fica anulado… Perde a cabeça e denuncia-se. Basta um pormenor…» – Parece-me astuta psicologia. –
perguntou um dos repórteres – Mas como fará com que X-9 falhe no dia e hora
marcados? – A caixa forte das minhas empresas é
tão segura como a do Banco de Portugal. Vou mandá-la despejar, e fecho-me lá
às 11,30 da manhã, terça feira. Ficarão 2 metros de cimento e uma parede com
metro e meio entre mim e X-9. – Quem conhece a combinação? – perguntou
o Inspector. – Ninguém. Eu mesmo a mudarei. e lha
entregarei num subscrito fechado, antes de entrar. Abrirão as portas uma hora
depois. Ao fundo de uma escada metálica ficava
o hall de entrada para a caixa forte. Uma pequena secretária, à esquerda, com
uma minúscula cadeira, em mogno, um telefone na parede, um lavatório, e dois
potentes candeeiros, constituíam o único mobiliário daquela antecâmara. À excepção do industrial, apenas 5
pessoas teriam autorização para descer até ali: Luís António, Jorge Manuel e
Rui Pedro, seus sobrinhos e únicos familiares; eu, Carlos Alberto, seu amigo
de longa data; e o Inspector Silva, experimentado elemento da P. J. e perito
em Medicina Legal. Dois destacamentos de agentes vigiavam
já as imediações do prédio e todas as precauções haviam sido tomadas: o cofre
estava vazio, não era possível X-9 ter lá colocado qualquer mecanismo de
explosão, as paredes eram lisas sem quaisquer orifícios por onde pudesse
entrar gás, e Caetano seria revistado antes de entrar para o cofre. Nada a
temer, 11 horas. João estava calmo. Todos
nós, estávamos, porém, invulgarmente nervosos. – Que tal um wkisky? – sugeriu João. O Johnnie Walker foi aberto e servido
a todos, puro, sem sequer urna pedra de gelo. Enquanto cavaqueávamos entornei distraidamente
whisky sobre Caetano. e esse incidente só veio demonstrar o seu sangue frio. – Eu é que vou morrer, e tu é que
estás nervoso que nem um rato – disse rindo – olha para mim, e controla-me
esses nervos. Abeirou-se do lavatório para lavar as
mãos sujas de whisky. Tirou o relógio e o anel, aquele anel de diamante que
fazia saltar das órbitas os olhos dos 3 sobrinhos, pousando-os sobre o
lavatório, e enquanto se lavava, afirmou ter já esvaziado os bolsos, e não
possuir quaisquer pílulas envenenadas pelo que estava pronto a entrar no
cofre forte. Enquanto falava, abeirei-me dele, renovando as minhas desculpas
pelo incidente, e Caetano disse-me que esquecesse o assunto, e que
tornaríamos a beber quando tudo tivesse terminado em bem. Os ponteiros do relógio dele marcavam
já 11 e 45. João repôs os seus acessórios
pessoais, entregou ao Inspector um envelope fechado que continha a nova
combinação, e pediu que a porta não fosse aberta antes da 1 hora da tarde.
Entrou então no cofre. Os minutos escoavam-se muito devagar.
Luís António, um dos sobrinhos, não aguentando a espera, sentara-se a um
canto, agarrando a cabeça com as mãos. 13 horas. o Inspector abriu o
envelope, e lá estava a combinação do cofre. A porta abriu-se pesadamente e, espanto
geral, o corpo de João Caetano jazia tombado sobre um dos flancos. – O tio está morto. X-9 matou-o, como
disse. Matou-o. – disse Rui Pedro, em notório desespero. – Vamos ver. – sentenciou o Inspector.
Baixei-me, tomei-lhe o pulso e disse: – O pulso não bate. Está morto. Gritos desconexos. O Inspector a
observar já o corpo, confirmando o que todos temíamos: – Não tem pulso. Deve ter morrido por
volta do meio dia. A contração dos músculos indica veneno. Provavelmente
curare. Vou mandar chamar o perito médico. Entretanto ninguém sai desta sala… Enquanto esperávamos o relatório
médico, o Inspector Silva foi-nos fazendo perguntas sobre as nossas relações
com o morto. Quanto a mim falei dos longos anos de amizade que nos ligavam,
bem como dos projectos conjuntos. Luís António afirmou que se não dava bem
com o tio, mas que não tinha qualquer razão para o assassinar. Jorge Manuel
disse ter sido ele quem fornecera ao tio aquela garrafa de whisky, e que
sempre nutrira grande admiração por ele, pelo que iria sentir muito a sua
falta. Rui Pedro disse abertamente que tinha razões para matar o tio, visto
ter casado com Cristina, que para além de ser 25 anos mais nova que o tio,
era a moça que ele, Rui, amava desde criança, e que mesmo depois do acidente
em que Cristina morrera, o ódio pelo tio continuara. Afirmou, porém,
peremptoriamente, não ser ele o criminoso. Todos os sobrinhos tinham uma
precária situação financeira, recorrendo frequentemente ao dinheiro do
industrial. O relatório médico chegou entretanto
às mãos do Inspector. bem como os termos do Testamento de João. A morte ocorrera, como X-9 ameaçara,
ao meio dia, sendo a sua causa envenenamento por curare, através de uma
picada no pulso esquerdo. O Testamento beneficiava os empregados da case do
industrial, em módicas quantias, contemplava razoavelmente os sobrinhos,
sendo o grosso da fortuna doado a Instituições de Caridade. Para o Inspector Silva os dados
conjugavam-se, pelo que informou: – Em face dos vossos depoimentos, e
dos dados que acabaram de chegar à minha mão, não me restam quaisquer dúvidas
sobre qual dos ocupantes desta sala matou João Caetano. Foi: Pergunta-se: 1) – Quem foi o assassino? 2) – Como foi cometido o crime? 3) – Como chegou o Inspector a essas
conclusões? |
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© DANIEL FALCÃO |
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