Autor Data 31 de Outubro de 2004 Secção Policiário [694] Competição Campeonato Nacional e Taça de
Portugal – 2004/2005 Prova nº 1 Publicação Público |
CRIME SEM CASTIGO? Ecologista Orbílio sabia do que
falava. O fruto de toda uma vida de combate estava ali, destroçada,
completamente desfeita às mãos de um criminoso invisível… Desde madrugada que Orbílio
fazia o corre-corre, de norte para sul, de oriente para ocidente, em busca de
algum indício que pudesse explicar a desgraça que assolou toda a região, uma
região já de si abandonada e desgastada… – Não é possível que isto
esteja mesmo a acontecer! – lamentava-se a quem o
queria ouvir. Gritos, choros, ruído
estridente das sirenes dos bombeiros e da polícia, tudo percorria os ares, na
crista dos ventos… – Ó ti Zé, nunca vi nada
assim… As andorinhas rodopiavam no céu, piando lancinantemente
e num ai entraram em queda despenhando-se no chão… Uma tristeza! – contava o Truca, um velhote que julgava já ter visto tudo
na vida. Um pouco mais à frente, na
borda do lago, vivia-se a continuação do drama, de forma idêntica à que era
visível até onde a vista alcançava… – Meu Deus! Como é
possível? – o padre, incrédulo, invocava a ajuda
divina, na esperança de ser ouvido e poder remediar o que não parecia poder ser
remediado. – O que vai ser de nós? Orbílio era um espírito
lúcido e esclarecido. Estudara e sabia precisamente o que estava acontecer.
Ocupara-se durante anos e anos para que toda a Natureza pudesse estar de bem
consigo mesma, pelo menos naquele pequeno rincão onde os dias se sucediam às
noites e as estações do ano cumpriam os horários. O Ti Zé, farmacêutico de
profissão, recolector por devoção, conhecia como as suas mãos todos os
recantos das serranias, onde procurava as ervas milagrosas para todas as maleitas,
não tinha dúvidas de que algo muito estranho se passou naquele dia especial,
em que fazia anos a prima mais famosa para todos quantos falam português e
que é sempre capa de jornais e revistas. E naquela ocasião ia
dizendo: – Deus está contra nós! Eu
vi as andorinhas estamparem-se no solo; os peixes entrarem em turbilhão à
tona da água, em saudações desconchavadas, antes de agonizarem e morrerem aos
milhares; aquelas ervas, ali aquelas, está a ver, tombaram num instante e
ficaram avermelhadas, como se o Outono estivesse a chegar; e a miudagem da
aldeia está toda a caminho do hospital… Orbílio, que
é que se passa aqui? A polícia percorria todos
os centímetros em busca das causas de tão estranho acontecimento, que nunca
por ali ocorrera nada semelhante e os bombeiros afadigavam-se no transporte
de vítimas. O tempo ficou suspenso e ninguém se recordava já do que tinham
planeado fazer nesse fim de tarde, cada qual na sua profissão. Nesse momento, a
quilómetros dali, numa emissora, o dono da fábrica Botafumo,
que operava na zona, dizia que era uma catástrofe mas não manipulava o
produto que causou todos aqueles problemas e por isso não tinha nada que ver
com o caso. Logo depois foi o responsável pela Porcassuja
que veio a terreiro dizer que era necessário apurar o que se passou, qual o
agente que provocou o desastre, mas que não tinha havido nada de anormal nas
suas instalações. Já para a noite, a gerência da Fazlixo
veio anunciar que fez um inquérito rigoroso e não partiu dela qualquer
espécie de produtos capazes de causar os danos… De Lisboa vieram técnicos,
dias depois, para analisar, escavar, aspirar o ar, mil e um exames àquela
terra – agora maldita –, àquela água, àqueles restos mortais vindos dos céus
e das profundezas das águas, para tentar saber o que provocou tal hecatombe. Orbílio suspeitava que nada
seria apurado, a culpa iria morrer solteira, tal como já acontecera milhares
de vezes em milhares de locais por este mundo fora e nem se espantou quando
ouviu os altos responsáveis pala política local a elogiarem todas as unidades
industriais da zona e a garantirem às populações que não foram elas (as
empresas) a maltratar as populações… Eles dão-nos os empregos,
compreendem? Contribuem para o nosso bem-estar! Vamos fechar toda a zona afectada, cercar com rede electrificada,
pôr cães de vigia e se fôr preciso até contratamos
uma empresa de vigilância para que mais nada aconteça… Podem estar certos que
estamos todos muito seguros e que os nossos queridos empresários vão
continuar a garantir os vossos postos de trabalho e tudo será como sempre
foi… É que há crimes que até
parece que o não são! Pergunta-se: Que tipo de crime está
descrito? Quem foi o responsável por
esse crime? Em que data ocorreu? |
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© DANIEL FALCÃO |
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